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Dízimo: o sentimento de pertença à comunidade

Em torno do dízimo roda discussão. Há três compreensões diferentes. Mas a interpretação que vem sendo dada por comunidades da Igreja católica fundamenta-se, não no sentido literal do Levítico, de que “Todo o dízimo do país ( Israel)  tirado das sementes da terra e dos frutos das árvores pertence ao Senhor como coisa consagrada” (Lv 27, 30). E no final do texto, soa a forte afirmação: São esses os mandamentos que o Senhor deu a Moisés, no monte Sinai, para os israelitas” (Lv 27, 34).

 

Hoje, prevalesce a consciência de pertença à comunidade. Uma vez que sou cristão e faço parte de uma comunidade que necessita de recursos para cumprir sua missão, assumirei, dentro das possibilidades reais, a tarefa de ajudá-la. Não se trata de um preceito externo, mas do processo de tomada de consciência do que significa participar de uma comunidade.

O dízimo assume importante força simbólica da generosidade e alegria de colaborar na comunidade que amamos e em que vivemos. A experiência próxima do dízimo, que nos ajuda a entendê-lo nessa nova interpretação, se faz com a família de sangue. Os pais envelhecem e necessitam da ajuda dos filhos. Então eles se reúnem e decidem como manter os pais nessa situação. Não vem de nenhuma lei extrínseca, mas do amor e gratidão dos filhos em relação a eles. E ajudarão na generosidade de que dispõem. Uns darão mais, outros menos. Mas todos se sentem motivados e movidos a dar contribuição para oferecer vida digna aos pais.

 

O dízimo não pertence ao departamento do sacrifício, da cobrança, mas do amor, da alegria de fazer parte de uma comunidade

Semelhantemente, a nossa comunidade eclesial merece vida conveniente para que todos recebam os seus serviços. Trata-se de família bem maior, cujos gastos requerem generosidade dos fieis. Cada um, ao olhar para os serviços que a Igreja disponibiliza, pergunta-se em que me cabe ajudar. Então entra a razão da necessidade do dízimo. Sem ele, os ministérios pastorais da comunidade, o funcionamento material de todos os serviços não se fazem possíveis.

O dízimo surge como imprescindível e então os fieis, longe de legalismos ou literalismos sobre passagens do Antigo Testamento, se sentem tocados a contribuir, sem tacanhice e escrúpulos legais, com oferta feita com alegria e gratidão. O dízimo não pertence ao departamento do sacrifício, da cobrança, mas do amor, da alegria de fazer parte de uma comunidade. Por meio dele, simbolizamos concretamente como nos sentimos felizes de ser Igreja. Desta forma, transformamos totalmente o significado distorcido do que seja o dízimo, como aparece em algumas instituições religiosas tocadas pelo interesse puramente econômico.

A raiz da compreensão sobre o dízimo, está no Antigo Testamento. E o fato do mandamento ter sido dado pelo Senhor no Sinai tornava-o altamente constringente para a consciência do judeu. Mais: o dízimo cumpria em sociedade teocrática o que hoje nas sociedades modernas chamamos de imposto. Todas têm os mais diversos impostos. Portanto, não há nada de chocante que Israel, para manter o enorme aparelho religioso de Estado, tenha sido exigente quanto ao dízimo.

Vivendo no interior da sociedade moderna, há comunidades cristãs que , até hoje, usam tal texto o Levítico ( Lv 27, 30-34) como vontade de Deus para que seus membros lhes paguem o dízimo. Aí ocorre distorção de sentido. Naturalmente, as igrejas necessitam de ajuda para sobreviverem, mas não vale a argumentação do Levítico. Por isso, a leitura fundamentalista deste texto exorbita do sentido autêntico.

 

 * Este é o último artigo escrito pelo padre João Batista Libanio para o Jornal Opinião e Notícias

 

Pe. João Batista Libanio, SJ (1934-2014)
Professor da Faculdade Jesuíta de
Teologia e Filosofia (FAJE)