Você está em:

A figura do deserto talvez seja a melhor para falar da quaresma. Nos cenários oferecidos pela Bíblia, o deserto vem como parte integrante do contexto do povo de Deus. Desde a história dos quarenta anos dos hebreus no ermo até Jesus nos seus dias de jejum e de luta, aquele território desabitado aparece como pano de fundo.

Deus fala ao nosso coração

Na espiritualidade quaresmal podemos ir ao deserto. Neste, nos quarenta dias em direção à Páscoa, a Palavra de Deus chega aos nossos ouvidos se estivermos dispostos a alguma abertura.  Podemos nos purificar do que a escravidão plantou em nós. Cativeiros deixam marcas, sequelas. Muitas idolatrias são instaladas no interior do ser humano. Decidir por Deus sem fazer um caminho para limpar a própria vida dos vírus da prisão poderia resultar em algo infrutífero.

Na memória de quem foi cativo sempre estão as lembranças da vida passada. Após a saída do Egito, o povo, nas crises, impaciente, recordava das comodidades dos grilhões (Ex 16, 3; 17, 1-3). Na dura caminhada para a liberdade pensa-se em voltar atrás. Muitas vezes perde-se a paciência de caminhar para a terra prometida. Contentar-se com o que se tinha é verdadeira tentação, pois não exige nenhum esforço. Basta permanecer onde sempre estivemos. Mudar o “ser-escravo” para o “ser-livre” é um parto doloroso.

Nessa situação, para a caminhada nosso esforço e sim ao projeto do Pai é necessário, mas a Graça do Próprio é tudo. A Lei Mosaica será para o povo o primeiro auxílio da Graça (Ex 20). A Lei é um dom de Deus mais que uma imposição. Meditar nela é um prazer (Sl 1, 2). No deserto, ter a Lei é uma segurança para lutar contra a idolatria, o egoísmo, a opressão. Amando a Deus e sua lei afastam-se as tentadoras ilusões e ama-se o irmão, na igualdade e no direito. Assim, a Lei de Deus instaura-se como caminho no deserto em direção a Deus e à humanidade. É como remédio para a desintoxicação derivada do cativeiro.

Deus é quem vai conduzindo. Até mesmo quando relutantes em continuar fazemos a via contrária. Aí vem Deus e diz: “Por isso, eis que, eu mesmo, a seduzirei, conduzi-la-ei ao deserto e falar-lhe-ei ao coração” (Os 2, 16). Resgata seu povo como um esposo resgata a sua esposa. Age pela graça dirigindo sua Palavra a nossa intimidade, ao coração. No deserto, onde ninguém pode interferir, acontece o encontro entre quem ama e quem precisa receber amor. É puro carinho de Deus para quem ainda está cheio de amarras. O deserto é o vasto espaço no qual se tocam o coração de Deus e o coração da humanidade. É a solidão grávida de promessas e esperanças de reconstituição, pois tudo será por Ele construído, restabelecido (Os 2, 17-25). A escuta de Deus no deserto é propícia à fecundidade da vida para o inabitado passar a ser povoado pelos dons do Altíssimo, na liberdade da declaração: “Tu és o meu Povo” e a resposta “meu Deus” (Os 2, 25).

Do deserto ao banquete do serviço

Antes da completa ressureição de cada um de nós, Jesus se torna o modelo da travessia no deserto. Sai vitorioso das tentações e como o Deus que é passa a servir a humanidade, oferece a graça de sua vida a todo instante. Dá para a humanidade o banquete de sua vida. Para quem se aproxima da mesa não resta dúvidas de que o seu alimento é tudo. Sacia a sede e a fome. Sua presença nos satisfaz.

O deserto da quaresma nos põe frente ao Deus Servidor. O servo sofredor não nos joga nos castigos (Is 52, 13-53, 12). Diferente disso nos tira das penas, das nossas aflições e feridas. Jesus, o servo, nos muda por uma proposta de vida, não pelo medo. Como alimento irresistível, o que nos propõe apanha-nos pelos laços dos infinitos desejos de felicidades da nossa alma. Transformamos nossa vida dentro do banquete no qual o amor é servido. Fora desse viés toda mudança é ilusória, sem sentido, covardia, negociata, escravidão.

Fazendo-nos comensais desse grande amor, o Mestre nos dá o exemplo e lava nossos pés. Tira a poeira do caminho, nos deixa meio desajeitados, porque quebra nossas resistências pela delicadeza da doação que é Ele mesmo. Assim diz: “Dei-vos o exemplo para que, como eu vos fiz, também vós o façais” (Jo 13, 15). Chama assim a consciência de cada pessoa à comunhão com Ele. Comungamos Jesus ao nos refazermos nele no deserto florido da espiritualidade quaresmal, quando nossa vida vem a ser também serviço. Nosso seguimento a Ele é serviço. Nosso ser cristão é amor.

Antes da ressurreição é essencial passar pelo ensino da quinta-feira santa, conduzidos pelo deserto na Palavra. No banquete do serviço vem a última demão para sermos ressuscitados, o novo mandamento. Este é o núcleo de toda a Lei, pois Jesus é o centro da mesma e enfatiza isso ao pedir que nos amemos como ele nos amou (Jo 15, 12). Nos liberta desta forma para amarmos como Ele, além da medida dos nossos interesses. A medida agora é Ele e não o nosso proveito pessoal. É a nova Lei. Ele é Graça. É o amor dele em nós que nos abre à vida de ressuscitados e reergue os que estão à nossa volta.

Este é o profundo caminho da quaresma, deserto, espaço livre para a ação de Deus que pretende fazer aliança com seu povo e tirar todas as velhas estruturas do caminho da nossa vida.

Pe. Magno Marciete do Nascimento Oliveira
Membro da Comissão Arquidiocesana de Catequese