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[Artigo] A condição do humano no pós-humano – Dom Edson Oriolo, bispo Auxiliar da Arquidiocese de BH

A expressão pós-humano começou a circular na década de 80, quando foi lançado o “Manifesto Ciborg – ciência, tecnologia e feminismo socialista no final do século XX”, de Donna J. Haraway.

Haraway (bióloga e filósofa norte Americana) escreve um texto polêmico ao propor uma postura feminista apta a refletir a respeito da influência da ciência e da tecnologia do final do século XX, sobre as relações sociais. Ela mostra como os desenvolvimentos científicos e os tecnológicos estão presentes no mundo do trabalho, na alimentação, na produção do conhecimento e nas mais diversas dimensões da vida.

O Ciborg (cib, – hermético; org. – organismo) é uma criatura de realidade social e também uma criatura de ficção. Homem-máquina autorregulado, como solução para as alterações das funções corporais ao se adequarem a ambientes. Uma combinação de mente e matéria, espaço interno e externo, homem e máquina. Humano composto por partes orgânicas e próteses; máquinas suplementam deficiências do orgânico ou aumentam o potencial do corpo. Tomamos como exemplo o desenvolvimento de pernas biônicas que permitem a paraplégicos caminhar novamente. A evolução é tão estupenda que podemos também mencionar a nanotecnologia, isto é, a criação de máquinas a partir de moléculas para operar no corpo humano.

No entanto, as novas tecnologias estão desafiando os limites do humano. Os novos conhecimentos estão nos levando a novos comportamentos. O humano vem evoluindo de maneira surpreendente. Evoluções constantes (ciência e técnica) que nos levam a mudar paradigmas e a pensar numa cultura pós-humana.

A sociedade humana está entrando em uma nova era com as descobertas científicas e invenções tecnológicas. O saber (ciência) e o fazer (técnica) estão transformando o humano, levando a mente ao enorme prolongamento.
Basta lembrar-se da máquina de escrever, em que usamos as pontas dos nossos dedos para escrever um texto. Hoje os mesmos dedos nos movimentam no espaço. Com os dedos somos capazes de transformar bens ociosos em recursos. Usamos os dedos para multiplicar dinheiro, ampliar o acesso ao conhecimento, transferir valor do material para o imaterial, criam-se novas moedas de troca etc…

O ser humano já está imerso em uma era pós-biológica, pós-humana. Os seres humanos estão sempre em busca de algo melhor, grandioso e mais atraente. A capacidade cognitiva está-se modificando; assim, a dimensão tecnológica está projetando levar o ser humano a ultrapassar os próprios limites. As tecnologias estão a transformar a realidade num mundo novo.

Tudo leva a crer que os futuros humanos serão frutos de tecnologias aplicadas nos humanos hoje conhecidos. A isso, por falta de melhor caracterização, se vislumbra como uma transformação em pós-humanos. Em palavras mais simples, as tecnologias estão transformando os humanos em pós-humanos. Embora essa tecnologia seja fruto do humano, contudo, o seu alcance parece que está a gerar um ser que vai além dos limites do humano, como o conhecemos.

Com o avanço da ciência e o desenvolvimento tecnológico, o humano está sendo colocado em cheque por novas tecnologias como as redes sociais, a internet, a nanotecnologia, os antidepressivos e os remédios para dormir ou manter acordado, os que potencializam a memória, ou os que acalmam pessoas agitadas. E isso para não falar no processo de congelamento.

Além do mais, as novas tecnologias desafiam os seres humanos. Atualmente podemos ver as comunicações pela telepresença (ver pelo skype e transformar o mundo físico), protéticos (reposição artificial de partes do corpo ou ter membros controláveis por chips que provocam impulsos nervosos), nanotecnologia (criação de máquinas a partir de moléculas para operar no corpo humano), as redes neurais (sistemas computacionais com habilidades para aprender com a experiência, baseados no funcionamento do cérebro), manipulação genética (projeto genoma).

A filosofia ocidental despertou a tecnofobia (medo da tecnologia moderna); sendo, porém, necessário hoje enxergar criticamente o que está acontecendo com o humano para entrarmos nesta nuvem do pós-humano e resgatarmos o sentido das tecnologias.

Ante a condição do humano no pós-humano, somos chamados a valorizar o indivíduo, como pessoa, à luz dos ensinamentos de São João Paulo II em mensagem à Academia Pontifícia de Ciências, em Roma, no ano de 1995, e dos três ensinamentos do Papa Francisco na vigésima segunda Assembleia Plenária da Pontifícia Academia para a Vida, em 3 de março de 2016.

São João Paulo II falou: “O indivíduo humano não pode ser subordinado como mero meio ou mero instrumento, seja à espécie, seja à sociedade; ele tem valor per se. É uma pessoa”.

O Papa Francisco ponderou: 1) “O bem que o homem realiza não é o resultado de cálculo e estratégias, nem o produto da constituição genética nem de condicionamentos sociais, mas é fruto de um coração bem disposto, da escolha livre que tende ao bem verdadeiro. Não são suficientes a ciência e a técnica para realizar o bem; é preciso a sabedoria do coração”; 2) Reconhecer a marca da sabedoria divina nas realidades criadas; 3) O ser humano é um valor a ser protegido.

 

 

 

 

 

Dom Edson Oriolo
Bispo Auxiliar de Belo Horizonte, escreve em várias revistas e
periódicos sobre Pastoral Urbana, Gestão Eclesial e Pastoral do Dizimo