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Breve história dos livros litúrgicos _ O Missal Plenário_ artigo do padre Márcio Pimentel (liturgista), Paróquia São Sebastião e São Vicente

A reforma litúrgica realizada pelo do Concílio Vaticano II reformou todos os livros litúrgicos do rito romano. Uma tarefa desafiadora e que, profundamente, transformaria irreversivelmente, a liturgia da Igreja para melhor. Os ritos e textos deveriam transparecer com maior fidelidade o Mistério de Cristo, de modo que exprimissem “com maior clareza as coisas santas que significam, e que o povo cristão possa mais facilmente, tanto quanto possível, aprender o seu sentido e participar neles…” (SC 21). A crise em torno da participação litúrgica do povo era assunto antigo. Já antes de Trento, se sabia da dificuldade imensa, também do clero, de haurir das celebrações da Igreja o verdadeiro espírito cristão, como dissera Pio X no documento pontifício Tra le solicitudine , de 1903 – “haurirem esse espírito da sua primária e indispensável fonte: a participação ativa nos sacrossantos mistérios e na oração pública e solene da Igreja” – reafirmado com vigor pelos padres conciliares 60 anos mais tarde na Constituição sobre a Sagrada Liturgia, n. 14.

Esse trabalho árduo foi confiado a um grupo de especialistas chamado Consilium. O plano geral da reforma litúrgica considerou o estudo e reforma do Missal nos seguintes itens: Ordinário; Leituras bíblicas; Oração Universal; Missas Votivas; Cantos na Missa; Estrutura geral da Missa; Concelebração e comunhão sob as duas espécies. Para cada item se instituiu grupos de especialistas que deveriam preparar esquemas que seriam revistos em seguida quanto a abordagem teológica, jurídica, histórica, pastoral, musical, cultural e artística.1 Tem razão, portanto, o próprio Paulo VI ao afirmar categoricamente que a reforma do Missal de Pio V, cujo uso durante quatro séculos alimentou a espiritualidade da Igreja de rito latino, não foi realizado de improviso.2

O Missal que foi tomado como livro a ser reformado era aquele em uso no Concílio, ou seja, o Missal piano, na edição promulgada no pontificado de São João XXIII, em 1962. A edição de 1570 e originada do Concílio de Trento, passou por adaptações e adições com o passar dos séculos. É um mito pensar que o Missal de Pio V, advindo da reforma de Trento, tenha permanecido 400 anos sem alterações. Já no ano seguinte, em 1571, os editores responsáveis pela produção do Missal fizeram alterações. Também os Ordinários locais (bispos) foram deixando suas marcas, à medida que previam adaptações ou incrementos com base na realidade em que viviam. Os pontífices Clemente VIII e Urbano VIII viram a necessidade de regular melhor a difusão de missais ditos “não aprovados” pela Sé Apostólica e também não deixaram de fazer suas intervenções: Clemente VIII, por exemplo, realizou a nova regulamentação da bênção final.3 Nota-se que, paulatinamente, o Missal piano será – de certo modo – substituído por outros que trazem consigo tais modificações. Leão XIII promulgará uma nova edição, que assume adições posteriores ao século XVII. Depois, Pio X insistirá com a Bula Divinu aflatu em instruções quanto aos formulários a serem escolhidos para os domingos e dias da semana, a escolha das orações coleta, sobre as missas conventuais, a missa pelos defuntos e algumas disposições específicas sobre o calendário, com o intuito de revalorizar o Missal. Também Bento XV deixará sua marca, ao declarar a edição de seu predecessor como typica.

Esta será a última antes daquela dada às vésperas do Concílio, integrando a renovação da Semana Santa e o Tríduo Sacro de Pio XII, bem como as novas disposições rubricais do próprio São João XXIII (1960).

 

 

 

 

 

 

 

Padre Márcio Pimentel é especialista em Liturgia pela PUC-SP
e mestrando
em Teologia na Faculdade Jesuíta de Teologia e
Filosofia (Faje / Capes)-
Paróquia São Sebastião e São Vicente

 

1 Cf. BUGNINI, Anibale. La Riforma Liturgica. Roma: Edizione Liturgiche, 1997, p.76-81.
2 MIssale Romanum. In. Enquirídio dos documentos da Reforma Litúrgica. Fátima: Secretariado Nacional de Liturgia, 2014 (2ª Edição), p. 299.
3 Cf. JUNGMANN, J. A. Missarum Solemnia. São Paulo: Paulus, 2010 (2ª Edição), p. 155. Também sobre o assunto: GIRAUDO, Cesare (org.). Il Messale Romano. Tradizione, traduzione, adattamento. Roma: Edizione Liturgiche, 2003, p.54ss.