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As várias faces do protesto no Brasil


Praça Sete, centro de BH: protesto popular na Copa das Confederações

 

O ano da Copa do Mundo começou quente. E nem falo do verão escaldante que estamos enfrentando, mas da politização dos mais variados fatos sociais. Copa do Mundo, problemas com clubes de futebol e torcidas organizadas misturam-se a problemas com transporte urbano, política e até mesmo opiniões em redes sociais. Tudo é motivo para protesto e protesta-se por tudo.

No geral, a perspectiva é de que está em jogo no Brasil, seja nas Eleições de Outubro ou na Copa do Mundo, é a crença do que cada pessoa ou grupo acredita saber o que é melhor para o futuro do país. Isso é ótimo quando os interesses são postos em debate.
Os de junho do ano passado, durante a Copa das Confederações, são um bom exemplo disso: começaram por causa de pontos de vista divergentes sobre a qualidade e o valor do transporte público nas grandes cidades e, com a adesão de grandes camadas da população, tornaram-se uma imensa “terapia social em grupo”.

O povo foi à rua e mostrou que não concorda com a forma como se política e gestão de interesses coletivos no país. Foi uma lavagem da alma, um momento de voltar aspirar a um País melhor. Nesse sentido, acho que os protestos são válidos e importantes para o fortalecimento da democracia.

Mas a natureza dos protestos é bem mais complexa que isso. O protesto, para ser eficiente, precisa criar um distúrbio na ordem, precisa incomodar, precisa alterar as rotinas. O difícil, nesse contexto, é encontrar o equilíbrio entre o protesto democrático e aquele que atenta contra a democracia.

 

O protesto, para ser eficiente precisa alterar as rotinas. O difícil, nesse contexto, é encontrar o equilíbrio entre o protesto democrático e aquele que atenta contra a democracia

Dois casos recentes são notáveis: o das torcidas organizadas do Corinthians na campanha por melhoria da produtividade do elenco e retomada de resultados é um deles. A arquibancada é um lugar de torcida e de manifestação por excelência, mas se torna assustador quando um grupo entende que é dono do direito de manifestação tentando a todo custo suprimir a voz de quem protesta de outra maneira ou não quer protestar.

O que vi no jogo entre Corinthians e Bragantino, no dia 4 de fevereiro, no Pacaembu, foi um exemplo daqueles em que o protesto deixa de ser uma manifestação democrática e vira peça de manipulação de interesses de um grupo sobre outros.

Essa situação relatada acima foi o ápice de um protesto que, por si só, já seria inaceitável: a invasão do Centro de Treinamento do Corinthians por parte de torcedores, com ameaças a jogadores, depredação e tudo mais que não se entende como manifestação democrática. Triste para o futebol.

Se não bastasse essa situação, o último protesto “grande” contra a Copa do Mundo, que aconteceu no dia 25 de janeiro, aniversário da cidade de São Paulo, também causa preocupação. É legítimo que se proteste contra esse megaevento, mas nessa altura do “campeonato” sabotá-lo com violência e terror urbano não traz benefício para o Brasil.

O protesto aceitável, nos dois casos, seria aquele em que se mira o futuro: nas duas situações, as manifestações deveriam estar mais próximas do protesto econômico (não comprar ingressos, não assistir aos jogos na TV ou estádio, evitar produtos relacionados, etc.) e político (fazer pressão popular, exigir que os líderes e responsáveis ouçam representantes dos descontentes, conseguir mudar leis e modelos de ação nocivos ou viciados, etc.) do que das ações violentas e truculentas como as que estamos vendo.

Um problema central que envolve esses protestos é que, com medidas certas, eles ganham adesões e importância histórica. Com as medidas erradas, eles alimentam um monstro que ainda vive na sociedade brasileira, ou seja, o seu passado-presente autoritário e pouco afeito a liberdades e direitos sociais.

Protesto carece de comunicação, de diálogo, sem isso ele pode se tornar aquilo que deveria combater.

 

Anderson Gurgel
Portal Imprensa