Você está em:

As aventuras de Pi e as Escrituras

“As aventuras de Pi”, exibidas nos cinemas em 2013 e já disponível para as mídias domésticas é realmente um primor. O filme conta a história de Piscine, cognominado Pi, um jovem indiano que faz uma profunda experiência de Deus. Vivia com os seus pais na Índia. Naquele país, a família dele administrava um zoológico. Nesse interim, Pi conhece, por meio de sua mãe, a marcante religiosidade do povo indiano com a riqueza das expressões simbólicas e rituais. Paralelamente, o pai lhe propõe outro caminho, a racionalidade, criando um contraponto com as religiões que alucinavam o jovem.

Pi acaba conhecendo o amor de Deus por meio do cristianismo e ainda se aventura com a religião islâmica. Mas a aventura do jovem começa mesmo quando seus pais decidem partir para o Canadá a fim de vender os animais do zoológico e começar vida nova. No ponto mais abissal do Oceano Pacífico, o navio naufraga. Os familiares de Pi morrem, bem como a tripulação. Pi se salva num bote, junto com uma zebra, uma hiena, um orangotango fêmea e um temível tigre de bengala. Mas a população do bote não tarda a morrer: os animais vão sendo devorados um a um, até restar o tigre com o jovem Pi. Este, com maestria, convive com a fera no oceano, disputando o espaço e a comida, cercados pela solidão e pelo abandono (deserto). Pi empreende sua grande jornada: o encontro com a majestade de Deus na grandeza de sua criação. Mas o encontro deflagra sua condição de criatura, frágil e dependente.
 

Mais que domar a fera que tem diante de si, Pi tem de domar a fera que tem dentro de si, reconciliando-se com o tigre. A grande aventura do jovem indianao é seu universo interior

O enredo introduz então alguns elementos evocativos da saga do Povo de Deus na Bíblia: em primeiro lugar o bote, como lugar de salvação para Pi e para alguns animais. A referência a Noé não é sem fundamento. Tal qual o patriarca navegante, Pi é convidado, partindo do fim (naufrágio), ao recomeço de uma vida nova. A segunda evocação que o filme nos propõe, tem nas águas do oceano e no abandono experimentado, os elementos que fazem as vezes de deserto. Pi é provado na solidão e no confronto com suas fragilidades mais profundas, sobretudo no convívio com o tigre de bengala, Richard Parker. Belíssimo é o momento em que ambos são assaltados por um cardume de peixes voadores. Como não recordar o maná no deserto?

Já em extrema fragilidade, a interrogação de Pi no auge de uma tempestade (Você já me tirou tudo! O que mais você quer de mim?) se assemelha-se ao grito de Cristo na cruz, pela solidão sofrida, pelos sofrimentos e, pela busca de sentido em uma crise tão intensa. Na longa jornada, o jovem e seu tigre atracam em uma ilha repleta de água doce, raízes e suricatos. Podem descansar um pouco, comer e pisar em terra firme. Mas não podem parar, com o risco de perecer. Qual Pedro e os discípulos que devem descer o Tabor com Jesus para enfrentar a cruz, Pi e seu tigre retomam o barco e voltam para o oceano…

Mais que domar a fera que tem diante de si, Pi tem de domar a fera que tem dentro de si, reconciliando-se com o tigre. A grande aventura do jovem indianao é seu universo interior, simbolizado por um oceano, um tigre e uma exuberante natureza, mas proporcionalmente hostil. Paradoxalmente tudo é transparente e evocativo e Pi não passa por nada sem abstrair o sentido, as razões profundas de sua jornada: o tigre passa a ser razão de sua sobrevivência, a tempestade é manifestação de Deus, o abissal oceano traz o retrato de sua mãe, de seu zoológico, de suas raízes religiosas.(continua)    

Pe. Danilo César dos Santos Lima
Liturgista