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[Artigo]O presépio da vida da gente – Padre Danilo Lima, Paróquia Santana

O Natal é celebrado na Igreja desde o século IV. De lá para cá, muita coisa foi mudando, até que a festa do nascimento do Senhor passasse a ser celebrada na forma como conhecemos hoje. Os textos bíblicos e eucológicos apontam para uma constelação de temas relativos ao mistério da encarnação, o que nos ajuda a perceber a riqueza dessa fonte inesgotável. Deus se fez humano! Os céus e a terra trocam seus dons e ao nos dar o seu Filho, Deus deixa aberta a porta do céu. A carne que era considerada fonte do pecado converte-se em princípio da salvação: “caro salutis cardo” dirá Tertuliano, um antigo padre da Igreja.

Contudo a riqueza da liturgia não prescinde da necessária vivência espiritual do mistério do Natal. O nascimento do Senhor se prolonga nos sinais litúrgicos, mas sobretudo, no sinal da vida cristã. É bem ali que ele se aconchega: na manjedoura das nossas vidas. Como assim? Poderiam objetar alguns… Tanta fome, guerra, violência, tanta situação que revela distância de Deus, tanta coisa na nossa própria vida que de santo não tem nada!

Os evangelhos insistem, contudo, nessa direção: uma jovem que engravida sem coabitar com seu marido, um pai que a princípio rejeita o filho, um casal que vaga pela periferia de Belém sem lugar de pouso, rudes pastores considerados impuros recebem o grande anúncio da salvação, reis pagãos, estranhos e desconhecidos se aproximam para adorar, o rei da nação se investe de vingança e maldade perpetrando violência e morte de crianças inocentes. É,… Deus quis mesmo nos visitar! Bem que poderia ter se recusado, mas não o fez. Deu-se da forma mais singela e frágil, em meio às nossas fragilidades. Nem sequer destoou da nossa sinfonia. Fez-se sinal, envolto em trapos, no comedouro dos animais…

Olhando para o presépio, vemos nossa própria vida: tantos presépios armados no dia a dia da existência! Tantas fragilidades, incertezas, inseguranças, surpresas (boas e ruins). A liturgia nos mostra onde se esconde hoje esse menino: na manjedoura das famílias com suas lutas diárias e incertezas; entre os pobres sem casa, comida, trabalho e direitos; na luz natalina que brilha na retina dos que vagam pela noite nos serviços indispensáveis da cidade (garis, motoristas e trocadores, taxistas e tantos outros…); na solidão das prostitutas, dos jovens drogados, dos embriagados; no abandono dos hospitais, dos prontos-socorros, dos postos de saúde… Lá está o menino em sua manjedoura, a jovem mãe que o acalenta, o pressuroso pai que os protege. Deus se escondeu em meio às nossas coisas!

Talvez pareça absurdo pensar assim. Afinal fomos treinados a afastar Deus da nossa vida real e a incentivar uma espiritualidade assaz distante e desencarnada, platônica e idealizada, longe da realidade e das contingências da nossa história. Mas a estrela de Belém guiou e continua guiando pela vida afora os que peregrinam pisando descalços nas pedras da existência para outra direção: “O Filho do Homem veio procurar e salvar o que estava perdido” (Lc 19,10).

Pe. Danilo César Lima
Liturgista