Catedral Cristo Rei e a construção de permanências
Jornal O Tempo – 10/08/2026
Esperança em pedra
Projeto arquitetônico da Catedral Cristo Rei
Há muito tempo não vejo alguém construir para daqui a cem anos. Talvez esse seja um dos maiores desafios do nosso tempo: aprendemos a responder com rapidez, mas desaprendemos a construir permanências. Governos pensam em quatro anos, empresas no próximo trimestre, redes sociais em poucos segundos. Quase tudo parece reduzido ao presente. Por isso, erguer uma catedral tornou-se um gesto profundamente contracultural. A história da Catedral Cristo Rei começou muito antes de sua primeira fundação. Desde as primeiras décadas de Belo Horizonte, a cidade esperava por sua catedral definitiva, imaginada para a antiga Praça do Cruzeiro, hoje Praça Milton Campos. O projeto não se realizou, mas permaneceu como memória e promessa. Quando Dom Walmor Oliveira de Azevedo retomou esse sonho, não o repetiu: reinterpretou-o.
Pastoral e urbanística
Em vez de construir a Catedral no centro, onde a capital nasceu, levou-a para o território onde a metrópole cresce. O Vetor Norte reúne bairros, comunidades, grandes eixos de mobilidade, a Cidade Administrativa, o caminho de Confins e novas centralidades urbanas. A escolha foi pastoral, arquitetônica e urbanística. A Igreja deixou de esperar que a cidade viesse até ela e decidiu colocar-se onde a vida contemporânea acontece. As catedrais nunca foram somente templos. Durante séculos, organizaram a vida das cidades, reunindo fé, arte, cultura, escolas, bibliotecas, hospitais, mercados e espaços de encontro. A Catedral Cristo Rei recupera essa vocação em linguagem contemporânea. Ao redor do espaço litúrgico, articulam-se comunicação, música, formação, memória, patrimônio, reflexão, acolhimento e promoção humana. Não se trata de diluir a fé na cultura, mas de reconhecer que uma fé viva produz beleza, inteligência, cuidado e sentido.
Linguagem arquitetônica
Oscar Niemeyer deu forma a essa visão. As grandes estruturas verticais elevam-se como mãos voltadas para o céu. Em outro material e outra linguagem, cumprem função semelhante à das ogivas góticas: conduzem o olhar para o alto e transformam a matéria em impulso espiritual. Vejo nelas mãos que rezam, mas também mãos que constroem. O concreto moderno mantém a antiga vocação de lembrar ao ser humano que ele não nasceu apenas para olhar para o chão. Caminhando pela obra, Dom Walmor mostrou-me um pequeno óculo aberto na cobertura da nave. Contou que sugerira a alteração ao escritório responsável pelo projeto. Por aquele círculo de luz, o olhar encontra uma das grandes estruturas da Catedral. O detalhe me impressionou porque revela que uma obra monumental também se faz da experiência de cada pessoa: da luz, do silêncio, da perspectiva e do percurso do olhar. A arquitetura pode educar a alma.
Reinvenção
Há, nessa construção, uma forma rara de vanguarda. Não aquela que rompe com tudo o que recebeu, mas a que reconhece, na tradição, forças ainda capazes de produzir futuro. Preserva-se o centro e reinventam-se as pontes. Cristo permanece; renovam-se as linguagens, os territórios e os modos de presença. A Catedral pertence ao presente, mas foi pensada para gerações que ainda virão. Escutar Dom Walmor falar desse encontro entre fé, cultura, arte e conhecimento devolve confiança na capacidade humana de construir permanências. Voltamos a acreditar que algumas das melhores ideias da tradição cristã continuam vivas, não como ruínas, mas como sementes de futuro. Em um tempo em que quase tudo nasce com prazo de validade, construir uma catedral é recuperar a capacidade de pensar para além da duração de uma vida. Talvez as catedrais sejam exatamente isso: a esperança escrita em pedra.