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Quando decidimos partir à procura de Deus, temos de arrumar a bagagem, acionar o motor e pormo-nos a caminho. A montanha de Deus é apenas visível no horizonte longínquo… Ao clarear do dia é preciso partir.

É uma importante partida. Será necessário dizer adeus. A quem? A quê? A tudo e a nada. A nada, porque este mundo que deixamos estará sempre perto de nós, em nós, até o nosso último sopro. Tendo sido repelido e rejeitado, bem grandes são as probabilidades de que surja com maior veemência dentro de nós mesmos. Adeus a tudo, porque, ao partir em busca do Absoluto, cortamos as amarras de tudo o que nos poderia desviar daquilo que em nós e nos seres tende a formar um elemento de oposição à ação divina. Finalmente — e é o mais duro de deixar — adeus a este “eu mesmo” que, em sua necessidade fundamental de autonomia, opõe-se a Deus.

A separação não está no afastamento, mas sim no desapego. A todo custo é preciso impedir que nossa personalidade se volte sobre si mesma, que construa diante de Deus uma cidadela, onde ele só seria admitido como hóspede.
 

É preciso não olhar
para trás e, à medida que avançamos, as coisas que nos são
mais caras se distanciarão

Sim, quando você quiser rezar, é preciso abrir sua casa e desenredar sua alma em Deus. Cada gênero de vida exige um desapego. É preciso que se desprenda de si mesma e se desembarace a alma dos esposos, a alma dos noivos. De outra forma, não haverá amor e sim egoísmo procurado no outro. Na ponta extrema do amor encontra-se o amor de Deus, dom total e recíproco de um ao outro. Mas para o homem, Deus é o Outro, o outro que finalmente se revelará, no amor, como o ser de nosso ser.

Antes de partir teremos de utilizar o machado e o facão para algumas podas. Talhando em torno de nós, vemos, imediatamente, que ceifamos em nós… Não convém, todavia, esperar estar desapegado de tudo e de si para partir. É preciso não olhar para trás e, pouco a pouco, à medida que avançamos, as coisas que nos são mais caras distanciar-se-ão. Muitas acompanharão os nossos passos. É normal. Se nosso coração a elas ainda se prende, basta dizer a Deus: “Senhor, ainda estou preso a isso ou àquilo, mas conto com vossa bondade para me libertar, enquanto caminho em vossa direção”.

Que levar conosco? Tudo o que somos e nada de menos. Estranha resposta após ter dito que é preciso tudo deixar e, sobretudo, deixar-se a si mesmo. No entanto é verdade; é preciso levar-se totalmente. Muitos só partem aparentemente. Levam apenas um fantasma de si mesmos, uma maqueta abstraía. Eles próprios fazem seu seguro antes de se porem a caminho… Criam uma personalidade artificial de empréstimo, inspirada em livros, e é esta personalidade artificial, este robô, esta sombra de si mesmos que enviam à procura de Deus. Na experiência realmente não entram jamais com todo o seu ser. Já é uma espécie de santo que embarca para a expedição, personagem modelada segundo os tratados de perfeição. Enviam uma cópia de si mesmos para tentar a aventura e depois se admiram de só extrair daí decepção.

Entretanto, é preciso colocar na bagagem tudo quanto se possui e partir com tudo o que se é, sua carcaça, seu espírito, sua alma; é preciso tudo levar, tanto as grandezas como as fraquezas, o passado de pecado, as grandes esperanças, as tendências mais mesquinhas e as mais violentas… tudo, porque tudo deve passar pelo fogo. Tudo deve ser finalmente integrado para tornar um ser humano capaz de entrar, corpo e alma, no conhecimento de Deus.

 

Como o fim do caminho se perde em Deus
e ninguém o conhece
o senão aquele que
vem de Deus, Jesus Cristo, é preciso
fixar os olhos só nele

Deus quer diante dele um ser que saiba chorar, gritar sob o efeito de sua graça purificante; quer um ser que conheça o preço do amor humano e conheça a atração do outro sexo. Quer um ser que ressinta o violento desejo de lhe resistir. Por que não? É um ser humano real que Deus quer ver diante de si, sem o que sua graça nada teria para transformar, o ser real dissimular-se-ia. Que mal está nisto: muitos, dentre aqueles que se dão a Deus, só oferecem à sua ação uma personalidade de empréstimo… não é de admirar se um dia percebem que foram feitos para outros ideais…

Os responsáveis nem sempre são aqueles que se põem a caminho, mas os que os guiam. Ao insistir no aspecto formalista da piedade e do dom de Deus, impedimos a alma de se engajar totalmente na busca de Deus. Ela cria em si uma personagem na qual Deus não encontra aquele poder de vida e de ação que ele colocou na sua criação. Fazemo-lo lidar com santos de massa! No máximo conseguirá colorir-lhes o rosto.

Quando for tomada a decisão de partir e estivermos presentes, nosso ser totalmente pronto para a partida, é necessário pormo-nos em harmonia total de corpo e alma com o grande corpo de Cristo que é a Igreja, viver com ela, perceber as pulsações gigantescas que marcam o ritmo de sua vida litúrgica, nos seus ensinamentos, nos sacramentos, na sua atenção constante… Assim, vivendo no ritmo da Igreja, é fácil orientar todo o ser para o Senhor e viver da esperança de sentir a mão de Deus apoiar-se na alma.

Como o fim do caminho se perde em Deus e ninguém conhece o caminho senão aquele que vem de Deus, Jesus Cristo, é preciso, embora ouvindo os mestres que encontramos, fixar os olhos nele só. Ele é o caminho, a verdade e a vida. Somente ele, aliás, percorreu o caminho nos dois sentidos. Precisamos colocar nossa mão na sua e partir…

 

Pe. Emílio Carlos Mancini