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A pedagogia de Jesus frente ao corporativismo

Os extremos fascinam. Olhamos para as mais altas montanhas dos Andes e dos Alpes, e como gostaríamos estar lá em cima e contemplar as maravilhas cá em baixo. O fundo do mar exerce semelhante atração. Andaríamos felizes no meio a belezas nunca vistas. Mas eles encerram enormes riscos, daí que a prudência não nos aconselha ir até o fim. Pelo contrário, muitos terminam em desastre total. Por isso, os antigos nos deixaram a sabedoria do dito: in medio stat virtus – no meio está a virtude.

Oscilamos, no tempo presente, entre os extremos do individualismo e do corporativismo. O primeiro põe o indivíduo no centro e faz tudo girar em torno dele. Vale distinguir individuo de pessoa. Esta diz abertura e relação ao outro. Estou aqui aberto a você! Indivíduo, pelo contrário, acentua a si próprio e a diferença em relação ao outro. “Não sou você”.

O corporativismo salta para o lado oposto. Não existo. Sou o grupo. Anulo-me no corpo a que me integro. Perco a minha identidade na ideologia, no interesse, no programa da corporação, qualquer que ela seja. Como os extremos, sob certo sentido, se encontram, o corporativismo se aproxima do individualismo do grupo. Existe ele e não se interessa pelos outros. Antes, considera-os, com frequência, em adversário a ser vencido. Haja vista as concorrências corporativistas.
 

Jesus vai em outra direção.  Nem individualismo, nem corporativismo, mas comunidade. Onde está a diferença? Na comunidade, cada um permanece na sua identidade, liberdade e consciência. Assim se distancia do corporativismo. Por outro lado, entende a liberdade como relação com outra liberdade. Tanto mais livres somos quanto mais nos pomos em comunhão, contato, convivência com outras liberdades. Elas se enriquecem mutuamente.

 

A acolhida terna, generosa e festiva do pai que recebe o filho que o abandonou e gastou-lhe a herança traduz o coração da pedagogia de Jesus

Liberdade solitária na Ilha de Robinson Crusoe não se realiza. A lenda (ou fato) das duas crianças educadas por lobas – Amala e Kamala – que mantiveram hábitos animais de andar de quatro, de ter melhor visão de noite, de uivar para a lua e careciam de gestos humanos mínimos como andar sobre os dois pés, sorrir, falar, tipo de alimentação. Em todo caso, a criança se socializa no meio em que vive e aí aprende hábitos humanos. Quando a socialização se faz em meios perversos, violentos, sem relações humanas, preparamos monstros.

A pedagogia de Jesus centra-se no amor, no reconhecimento do outro na sua diferença e originalidade. A acolhida terna, generosa e festiva do pai que recebe o filho que o abandonou e gastou-lhe a herança recebida traduz o coração da pedagogia de Jesus: misericórdia, bondade, perdão, alegria pela vida e regeneração do outro. Diferente do irmão que não quis participar da festa.

O amor vence o individualismo porque nos leva a sair de nós mesmos. Supera o corporativismo porque não entende a reunião das pessoas como corpo compacto e preparado para combater e vencer outros grupos, mas convivência comunitária aberta a todo que quer associar-se. Os cristãos da comunidade primitiva aprenderam muito bem de modo que os  pagãos se diziam mutuamente: vejam como eles se amam!

 

Pe. João Batista Libanio, SJ
Professor da Faculdade Jesuíta de
Teologia e Filosofia (FAJE)