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A Páscoa na contemporaneidade

 

A liturgia de Páscoa conhece bela sequência na qual cantamos: “Duelam forte e mais forte: é a vida que enfrenta a morte. O rei da vida cativo é morto, mas reina vivo”.

 

De fato na Páscoa vida e morte travaram terrível duelo. Aparentemente a morte venceu. Ele morreu na cruz. E para que não houvesse nenhuma dúvida da morte, o soldado rasgou-lhe o coração com a lança. Vitória maior a morte não conseguiu em toda a história da humanidade. Derrotou aquele que João, no prólogo, chama de “Palavra na qual estava a vida, e a vida era a luz dos homens” (Jô 1,4).

 

A fé cristã aponta a vitória da vida sobre a morte. Cristo ressuscitou dos mortos. Nele todos ressuscitamos, em esperança.

A morte vence a fonte última da vida, a vida por excelência. Nada mais terrível para a humanidade que a certeza da vitória absoluta da morte. Nada mais teria sentido. Tudo se perderia no nada.

 

A fé cristã inverte o quadro. Aponta a vitória da vida – ressurreição – sobre a morte. Isso lá aconteceu em Jesus. Se parasse só nele, continuaríamos ainda na noite escura do sem sentido. Mas Paulo anuncia: “Cristo ressuscitou dos mortos como primícias dos que morreram” (1Cor 15,20) e a tradição cristã reforça. Nele, todos ressuscitamos em esperança, aguardando o dia da nossa vez.

 

Agora olhemos para a realidade que nos cerca. A morte campeia por todos os lados denunciando terrível falta de sentido para vida tão curta.

 

De novo, volta a fé cristã para dizer-nos que assim seria se não houvesse ressurreição. Paulo, mais uma vez, está a alertar-nos que se Cristo não ressuscitasse, vã seria a nossa fé e ainda estaríamos na noite do pecado (1Cor 15, 17). E poderia ter acrescentado, entregues à morte. Se não o estamos, devemos à ressurreição de Jesus.

 

A Páscoa ilumina a noite criminosa e carregada de morte da sociedade atual. Anunciá-la aos homens e mulheres de hoje implica compromisso com a vida no duplo sentido. De que ela não seja tão vilmente ceifada e, também, se isso acontece, de oferecer esperança para os que ficam chorando-a.

 

A humanidade precisa ouvir palavras de vida para continuar a caminhada sem perder-se no desespero.

A humanidade precisa ouvir palavras de vida para continuar a caminhada sem perder-se no desespero. No coração de cada morte, está a semente de vida depositada pela força semeadora da ressurreição de Jesus. Ela atravessa toda a humanidade e toda a história. Não constitui privilégio dos cristãos. Faz parte não só da história humana, mas também do processo evolutivo do cosmos. Os cristãos tematizam e explicitam pela palavra da revelação tal fato. Ele afeta, porém, a totalidade humana e cósmica.

 

*Teilhard de Chardin entendera grandiosamente o percurso evolutivo, tendo como término o Ponto Ômega, Cristo glorioso, Deus. Nessa fé apostamos e nela encontramos força para transfigurar para nós e para os outros os fatos de morte que nos cercam e perseguem. Fé e esperança não destroem o que há de concreto no real, mas ressignificam-no a ponto de trazer-nos alento e coragem de existir.

* Teilhard de Chardin – padre jesuíta, teólogo, filósofo e paleontólogo francês que buscou construir uma visão integradora entre ciência e teologia.

 

Pe. João Batista Libanio, SJ
Professor da Faculdade Jesuíta de
Teologia e Filosofia (FAJE)