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A paixão no caminho inverso de Adão

Na Sexta-feira da Paixão, bem como no domingo de Ramos, figura como canto de aclamação ao Evangelho o mesmo versículo de Filipenses 2,8ss: “Jesus Cristo se tornou obediente, obediente até a morte numa cruz; pelo que o Senhor Deus o exaltou e deu-lhe um nome muito acima de outro nome”. Uma das finalidades do canto de aclamação é focalizar o mistério celebrado no Evangelho proclamado, dando uma orientação para a reflexão homilética. As duas celebrações assemelham-se ainda à escolha da primeira leitura: o cântico do Servo de Isaías, em duas das suas peças. Diferem a fonte da segunda leitura: o domingo de Ramos traz o mesmo trecho da aclamação, Filipenses, capítulo 2, enquanto na Sexta-feira Santa lê-se a Carta aos Hebreus, capítulo 4.
 

Jesus, o Servo do Senhor, ao contrário de Adão, escolhe a obediência e não a usurpação. O primitivo Adão escolhe desobedecer à ordem do Criador e dar ouvidos à tentação da serpente: fazer-se igual a Deus. O Humano verdadeiro e primeiro, Jesus, escolhe obedecer ao Pai, fazendo-se um de nós até a morte e morte de cruz (cf. Fl 2,6-8). Se entre o primitivo casal reinou a discórdia – “a mulher que tu me deste me fez comer o fruto” (cf. Gn 3,12), entre Jesus e a humanidade reina a solidariedade: “temos um sumo-sacerdote capaz de se compadecer de nossas fraquezas, pois ele mesmo foi provado em tudo como nós, com exceção do pecado”.
 

A solidariedade de Cristo acusa a nossa indiferença frente à dor alheia, os sofrimentos dos outros, os problemas dos irmãos

A cruz é, portanto, árvore da qual pende o fruto da salvação, a um só tempo Jesus e seu Espírito derramado sobre toda a humanidade (cf. Jo 19,30). A solidariedade no pecado de Adão e Eva é superada pela entrega do Servo, o Filho de Deus. Ritualmente, o beijo da cruz remete à essa acolhida do Espírito derramado na cruz, expressão de sua solidariedade. Não se trata de uma adoração em sentido idolátrico, mas em sentido verdadeiro e espiritual: o beijo significa recepção do mesmo Espírito de docilidade, escuta e obediência à vontade do Pai que conduziu o Filho de Deus à uma entrega livre, voluntária, oferente e amorosa no madeiro da cruz. Beijamos a cruz como sinal de uma adesão que, iniciada no Batismo, se aprofunda mais e mais na escuta e na prática da vontade do Pai. Comprometemo-nos a viver o mesmo amor, a mesma entrega, ou ao menos nos colocarmos neste caminho.

 

A cruz é, portanto, superação da indiferença. Deus se solidariza com a humanidade e, na sua pior hora, abraça conosco a morte. Mas a mentalidade do velho Adão ainda reina, infelizmente, também entre os cristãos. A solidariedade de Cristo acusa a nossa indiferença frente à dor alheia, os sofrimentos dos outros, os problemas dos irmãos. Manter-nos na indiferença é tirar do Evangelho a cruz de Cristo e viver outra proposta que não a de Jesus… Interessa sim, o problema do tráfico humano, da juventude, da saúde pública, da ecologia, da economia…, e tantos outros temas já propostos pelas Campanhas da Fraternidade. Interessa a missão que anuncia e busca realizar essa solidariedade de Deus para com os pobres, os esquecidos, os enfermos, os excluídos. A cruz de Cristo nos compele ao outro, como Cristo, compelido pelo Pai, veio ao encontro da humanidade. Celebrar a Sexta-feira da Paixão é entrar na contramão do caminho de Adão, com Jesus crucificado, o Filho amado de Deus.

 

Pe Danilo César dos Santos Lima
Liturgista