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A música ritual e a experiência estética na Liturgia cristã

Tende em vós
os mesmos sentimentos
de Cristo Jesus (Ef 2,5 )

 

 

 

Introdução

 

O presente artigo visa estabelecer as relações entre a composição musical para a celebração cristã católica romana e as noções de beleza próprias dos ritos litúrgicos nos quais estão inseridas. Nosso escopo é uma aproximação da realidade litúrgico-musical tomando por referência seu aspecto estético e refletir, tendo por inquietação intelectual algumas questões: Em que consiste a beleza de uma peça musical de índole ritual? Porque algumas composições permanecem na memória das pessoas, como que tomando parte de sua existência e outras são relegadas ao esquecimento?

A importância desta discussão que exige o cruzamento de conceitos da psicologia, filosofia, teologia e das artes – em particular, a música – explica-se pelo significado que a sonoridade-musical possui para a liturgia em sua potência humanizante. Sua pertinência também se explica quando consideramos o momento histórico atual, no qual a celebração litúrgica – verdadeira ars celebrandi –  aparece circunscrita às noções exteriores de bonito-feio, agradável-desagradável vigentes nos ambientes eclesiais marcados pela pós-modernidade.

 

A Música vocal e a percepção

 

A música é uma realidade complexa e abrangente.  Entretanto, nos ocuparemos da realidade musical segundo as noções ocidentais, que se estabeleceram sobretudo pela influência da cultura grego-romana e do próprio cristianismo, em particular da Igreja Católica de rito romano. Assim, compreendemos a música ainda ligada às características originariamente helênicas, como universo que integra um complexo de atividades que abarcam a filosofia, a dança, a poesia, a metafísica, a educação e o próprio conhecimento.[1]

Neste trabalho, a realidade musical se articula também com a teologia e, em particular, a teologia litúrgica, cujo estudo se orienta à experiência de fé que se desdobra no culto. Por esta razão, nos dedicaremos a estabelecer as noções estético-musicais que estão na base do culto cristão das origens, influenciadas pela cultura musical mesopotâmica, na qual a música – em particular o canto – se  ligava à celebração.[2] Aqui, já podemos intuir a relevância deste tipo de música para a vida litúrgica cristão-católico, desde suas origens. Música como exercício vocal e não tanto como prática instrumental, embora esta também tenha seu lugar no conceito geral de música[3] e na tradição celebrativa dos cristãos. Música-palavra[4], que está relacionada com a experiência da Palavra de Deus, origem e finalidade da liturgia.

No tocante à música e partir dela, tem lugar de destaque o fenômeno da percepção. As conexões que estabelecemos com o mundo e com as outras pessoas são mediadas pela sensibilidade que capta ou se apodera dos fenômenos. A percepção constitui-se o trampolim a partir do qual podemos experimentar, conhecer o mundo e construir seu sentido. Portanto, não abarca apenas a sensorialidade atrelada à noção de corpo e sentidos ou a cognição, mais vinculada à mente e à consciência. A percepção estabelece conjunções entre níveis diferenciados de experiência e conhecimento que o ser humano realiza a respeito do mundo e de si mesmo. O dado mais interessante da percepção segundo as teorias contemporâneas, em particular a partir das contribuições de Merlau-Ponty é o rompimento com a perspectiva dualista que secciona ou fragmenta o ser humano a experiência e o conhecimento. Assim, para o filósofo, “perceber é tornar presente qualquer coisa a partir do corpo (que é) a unidade estrutural a partir da qual o homem realiza a integração de si próprio, dos sentidos, dos objetos.” O corpo que percebe “não é um objeto e a consciência não é um pensamento.”[5]

 

Pode-se aferir que a percepção se dá na mediação dos três sistemas:

 

O sistema de percepção interna, o sistema visual e o sistema sensório-tátil (este o mais importante dos três). De forma bem concreta se pode dizer que os sons nos penetram não só pelo ouvido, mas também pela pele, pelos músculos, pelos ossos e sistema nervoso autônomo, como bem informa a Musicoterapia.[6]

Do encontro entre a sonoridade-musical e o ser humano reconhecemos qualidades que ambos compartilham, de modo que se estabelece um jogo representativo em que a música se torna objeto de projeção da própria pessoa. Partindo desse pressuposto, enxergamos a pessoa humana como uma realidade sonoro-musical. A percepção joga um rol importante na construção do humano mesmo antes do nascimento. No ambiente intra-uterino o feto convive e se envolve com as sonoridades conseqüenciais às freqüências orgânico-fisiológicas da mãe e com sua voz. Mais tarde, após o nascimento, com o passar do tempo e segundo os processos de desenvolvimento, a realidade sonoro-musical se torna um evento exterior, mas continua a exercer uma incrível influência em seu itinerário de maturação.[7] A música vocal ocupa aqui um lugar privilegiado e singular no desenvolvimento humano, como objeto transicional entre o que denominaríamos sujeito e o objeto, no sentido de realidade interior e exterior.[8]

Enquanto expressão artística e religiosa, a música ritual – em particular o canto – realiza com propriedade a função de conjugar o mundo interior e o exterior, permitindo o alívio da tensão entre as realidades ditas subjetivas e aquelas objetivas.[9] Constitui-se, portanto, uma realidade que se torna um “discurso de sentido”[10] de natureza estética, que abrange o humano na sua totalidade. Aliás, é da natureza do canto a capacidade de integrar as atividades cerebrais que se dão nos dois hemisférios cerebrais, esquerdo e direito, pelos quais, respectivamente, se dá o trabalho analítico, racional, e o processo de decodificação e construção de significado (o que corresponderia no canto à dimensão verbal) e aquele que responde emocionalmente ao estímulo musical (no caso do canto, a melodia).[11]

[1] Cf. GRANJA, Carlos Eduardo de Souza Campos. Musicalizando a escola: música, conhecimento e educação. São Paulo: Escrituras, 2006, p. 25.

[2] GARBINI, Luigi. Breve historia de la música sacra. Madrid: Alianza Música, 2009, p. 25.

[3] O termo mousiké na Grécia se referia à concepção mítica do mundo grego, e estava relacionada à arte das musas (mousas), filhas de deidades (Jupiter e Mnemosine),  Seu trabalho estava sobretudo voltado para  a educação e a poesia, englobando o canto e a prática instrumental, no caso  o toque da lira. Cf. Ibidem, p. 25.

[4] Sobre este assuntos trataremos mais adiante.

[5] Idem, p.54.

[6] Idem, p.26.

[7] Cf. ROSSI, p.167-169.

[8] Cf. ROSSI, p. 167. O autor se apropria da teoria de área transicional de Winnicot, que se refere à meia estrada entre o subjetivo e o objetivo, entre o ser e o não ser. É uma abordagem psicanalítica que Winnicot aplica à relação entre um bebê e sua mãe. Mas este fenômeno não desaparece quando do desenvolvimento do bebê. A transicionalidade se expande até alcançar o campo da cultura e da arte.

[9] Cf. SOCHA, Alexandre. A sonoridade Vocal e seus efeitos no interior da transicionalidade. In. Jornal de Psicanálise, São Paulo: 2010, v.43(78), p. 43-45.

[10] SEKEFF, Maria de Lourdes. p. 25.

[11] ROSSI, p.172.