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A esperança de um ano melhor

 

O primeiro dia do ano está aí  provoca-nos a assumir o lado criativo para que os males da natureza sejam minorados e dominados, e os decorrentes da liberdade recebam conversão de rota para a justiça e para a convivência fraterna

 

Todo dia encerra novidade. O clássico Virgílio sentenciou solenemente fugit irreparabile tempus – foge o tempo irreparável. Sim, enquanto circulamos pelo mundo, o tempo inexoravelmente segue o fluxo das horas, dos dias, dos anos. Sempre novo, porque deixou para trás o velho ontem. Sempre velho, por repetir a mesma dinâmica de sempre fluir.

O primeiro dia do ano acorda-nos para tal lei do tempo. Ele reforça a dimensão de novidade. Remete ao esquecimento a monotonia incurável do movimento dos astros. A novidade desperta-nos para a criatividade. Arranca-nos da inércia preguiçosa, da acomodação fácil. Provoca-nos a agir.

No entanto, a ação não vale por ela mesma. Existe aquela que, pelo contrário, colore-se de maldade. Então valeria antes não se ter agido. Por outro lado, só se transforma a situação presente em melhor por meio de ações. Entra aí o significado da ação.

O valor não vem da ação por ela mesma, mas a partir de duas referências fundamentais: a finalidade e a motivação. O primeiro dia do ano adquire relevância, se ele anuncia a qualidade ética e a motivação humana do agir. Nesse caso, desperta a esperança de começarmos um ano melhor.
 

Somente discernindo com critérios éticos a natureza da ação e com a pureza de intenção de praticá-la, abrimos, com alegria, o novo ano. A novidade não vem dos astros, mas da decisão humana

Que dimensão ética se torna exigente no findar do ano para o novo? De que bagagem contaminada nos queremos livrar para dar o passo para 2014? Se auscultamos o sentir do povo, excele a repulsa pela corrupção dos poderes públicos. Enquanto as massas sofrem carências dolorosas, grupos, aninhados no poder, beneficiam-se escandalosamente do dinheiro público. Se o último dia do ano significasse um basta definitivo à corrupção, o primeiro dia nasceria radioso de expectativa. Avançaríamos na luminosidade iniciante, se o dinheiro arrancado da corrupção se convertesse em benefícios sociais para as camadas pobres. Somar-se-iam assim dois desejos auspiciosos.

 

E a motivação? Motor imprescindível para manter viva a ação e defendê-la de insidiosos desvios. Não vem de interesses egoísticos, de busca de maior vantagem no futuro. Infelizmente, tem prevalecido na motivação do agir humano a regra do futebol de “levar vantagem em toda jogada”. Tem força corrosiva da ética humana. Reduz o valor transcendente da ação praticada ao mundo imanente do próprio interesse.

Somente discernindo com critérios éticos a natureza da ação e com a pureza de intenção de praticá-la, abrimos, com alegria, o novo ano. A novidade não vem dos astros, mas da decisão humana. Sua última fonte brota da liberdade. A única que cria. As naturezas mineral, vegetal e animal permanecem presas a inexoráveis leis deterministas. Quando o horizonte da evolução enrubesceu na aurora da consciência, do espírito, do ser humano, naquele momento o processo evolutivo assumiu outro desenrolar. Já não bastavam o acaso e a necessidade, mas interferiu a liberdade humana para bem e para mal. O primeiro dia do ano está aí a provocar-nos a assumir o lado criativo positivo para que os males da natureza sejam minorados e dominados, e não acelerados, e os decorrentes da liberdade recebam a conversão de rota para a justiça e para a convivência fraterna.