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A concepção do Santuário e a devoção Mariana na Serra da Piedade

 Flávia Costa Reis[1]

memorialhistoriadorinv@arquidiocesebh.org.br

Luciana da Silva Araújo[2]

lucianaaraujo@arquidiocesebh.org.br

 

A Serra da Piedade, localizada em Caeté, com seus mais de 1700 metros de altitude, é reconhecida por sua notável beleza natural e seu valor ambiental, além de caracterizada como importante patrimônio histórico-cultural de Minas Gerais. Foi umas das principais referências geográficas dos desbravadores que penetraram nos sertões da colônia em busca de metais e pedras preciosas, ainda no século XVII, sendo conhecida, à época, como a famosa Serra do Sabarabuçu (originalmente pico do ITAPERABASSU), a lendária montanha resplandecente formada por ouro e prata.

Figura 1: Santuário Basílica Nossa Senhora da Piedade – Caeté

Fonte: https://ssvpcmbh.org.br/santuario-da-piedade-nao-podera-receber-peregrinos-neste-domingo/

Além disso, é importante centro de peregrinações desde o século XVIII, onde a devoção à Nossa Senhora da Piedade é celebrada com grande fervor há mais de duzentos anos. Segundo Tambasco (2010), sua origem remete a duas narrativas presentes no imaginário local. A primeira versão destaca a aparição de Maria, com Jesus em seus braços, no alto da Serra, para uma criança muda, que, após ter tido essa visão, adquire o dom da fala pela primeira vez.

A segunda narrativa é justificada pelos conflitos promovidos na metrópole, devido à reforma administrativa executada pelo Marquês de Pombal, na segunda metade do século XVIII, onde o Brasil, ainda colônia de Portugal, sofreu forte fiscalização pela Metrópole, com amplas restrições, em especial sobre a atuação do clero, resultando na aceleração de movimento missionário leigo, em certa medida levado à frente por ermitões. Estes procuraram construir capelas e ermidas em regiões afastadas, e até mesmo isoladas, onde exerciam sua religiosidade.

Entre estes ermitões, destacamos o nome de Antônio da Silva Bracarena, que, no ano de 1767, solicita, juntamente com Manuel Coelho Santiago, licença para erigirem uma capela com a invocação de Nossa Senhora da Piedade, no alto da Serra do Caité[3]. Além da capela, iniciou-se a construção de alojamentos para abrigar o grande número de romeiros e devotos que acorriam à Serra, motivados pela crença na aparição da Virgem. Inicialmente, Bracarena teria se juntado ao Irmão Lourenço de Nossa Senhora, no ideal da construção da ermida, porém esse último decidiu seguir para a Serra do Caraça, onde ergueu a Capela de Nossa Senhora Mãe dos Homens, hoje transformado em santuário (TAMBASCO, 2010, p. 83).

Figura 2: Ermida da padroeira – Santuário Basílica Nossa Senhora da Piedade

Fonte: https://santuarionossasenhoradapiedade.arquidiocesebh.org.br/santuario/espaco/a-ermida-da-padroeira/

As obras na ermida estenderam-se até 1778 e, em 8 de janeiro de 1784, poucos dias antes de sua morte, Bracarena fez redigir testamento em que doa parte de seus bens para a continuidade da construção. Após sua morte muitos outros deram prosseguimento ao projeto, entre os quais é possível apontar Manoel Afonso Gonçalves e José António da Nóbrega. Em 1797, o padre José Gonçalves Pereira concluiu a construção do templo e, em 1856, o capuchinho Frei Luiz de Ravena retomou as obras, ampliando a capela, julgada pequena para comportar o número de fiéis que a ela acorriam para as celebrações religiosas.

Em 1874, Monsenhor Domingos Evangelista Pinheiro fundou a Irmandade de Nossa Senhora da Piedade, e, sob sua direção, a capela passou por uma série de reformas e benfeitorias. Também fundou o Asilo São Luís, que se tratava de um educandário para crianças pobres, a Congregação das Irmãs Auxiliares de Nossa Senhora da Piedade, e, em 1876, criou o Jubileu no Santuário Nossa Senhora da Piedade, se tornou tradicional, sendo celebrado anualmente, atraindo milhares de devotos de diversas regiões.

Figura 3: Jubileu de Nossa Senhora da Piedade – sem data.

Fonte: Arquivo do Inventário do Patrimônio Cultural

A partir de 1949, após longo período em que o local ficou sem responsável que ali vivesse, o dominicano Frei Rosário Irineu Joffily tornou-se reitor do Santuário de Nossa Senhora da Piedade, conseguindo recuperar a capela do precário estado de conservação em que se encontrava e atribuindo-lhe grande parte de sua configuração atual. Além disso, foi responsável pela construção de um novo templo, conhecido como “Igreja Nova das Romarias”, objetivando mais espaço para os fiéis. Projetada pelo arquiteto Alcides da Rocha Miranda, no ano de 1974, a nova edificação teria concepções modernistas, com arquitetura “brutalista”, caracterizada pela utilização do concreto puro aparente, de modo a se mesclar com a formação rochosa da Serra, permanecendo a antiga ermida como foco principal de visibilidade.

Figura 4: Igreja Nova das Romarias – Santuário Basílica Nossa Senhora da Piedade

Fonte: https://santuarionossasenhoradapiedade.arquidiocesebh.org.br/santuario/espaco/igreja-nova-das-romarias/

A ornamentação da capela barroca, apesar de singela, devido às suas pequenas dimensões, apresenta elementos de primorosa execução de gosto rococó, notadamente em sua capela-mor, onde destaca-se retábulo e imagem da padroeira, Nossa Senhora da Piedade, atribuídos a Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho. Já a Igreja Nova das Romarias, se sobressai por suas linhas modernas, ornamentação com painéis azulejares do artista Claudio Pastro, figurando cenas do Novo Testamento, além de belíssima imagem em bronze executada por Alfredo Ceschiatti, elementos que enriqueceram ainda mais o já notável acervo artístico do Santuário.

Figura 5: Retábulo e imagem de Nossa Senhora da Piedade.

 

Fonte: Inventário do Patrimônio Cultural – 13/07/2017

Figura 6: Pietá – Alfredo Ceschiatti.

Fonte: Inventário do Patrimônio Cultural – março 2012.

Hoje, além das duas igrejas, seu conjunto arquitetônico possui a Casa dos Romeiros, o Cruzeiro com imagem da cena do calvário, edificação usada como lanchonete e restaurante, o observatório astronômico Frei Rosário da Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG e outras edificações (LIMA, 2021, p. 36). Posteriormente, foram executados o Caminho das Dores de Nossa Senhora e o Jardim das Oliveiras. Por sua importância história, cultural e ambiental, Conjunto Arquitetônico e Paisagístico do Santuário Nossa Senhora da Piedade foi tombado a nível federal pelo Iphan, em 1956, a nível municipal, em 2004, e a nível estadual, pelo Iepha/MG, em 2006.

Extremamente marcado pela religiosidade, o Santuário personifica a devoção à Nossa Senhora da Piedade, considerada historicamente significativa para a população católica em Minas Gerais. Trazida pelos colonos portugueses, durante o processo de ocupação dos sertões, a fé na Senhora da Piedade consolidou-se e essa expressão ganhou força com a construção de igrejas, capelas e inúmeras freguesias, que foram batizadas em sua homenagem, como, por exemplo, Piedade do Paraopeba, Piedade do Pará e Piedade do Pitangui.

Nesse sentido, por sua grande popularidade, e acompanhando esta trajetória de fé e devoção, no ano de 1958, o Papa João XXIII, em resposta ao pedido de três Arcebispos de Minas Gerais, a saber, Dom João Resende Costa (Arcebispo Coadjutor de Belo Horizonte), Dom Helvécio Gomes de Oliveira (Arcebispo de Mariana) e Dom José Newton de Almeida Batista (Arcebispo de Diamantina), emitiu a Bula Pontifícia Haeret animis Christifidelium, declarando Nossa Senhora da Piedade a Padroeira do Estado de Minas Gerais.

A oficialização se deu em 1960, em cerimônia pública na Praça da Liberdade, de Belo Horizonte, com a participação de autoridades civis e eclesiásticas, além de milhares de fiéis, que, em procissão solene, tomaram as ruas da capital. O júbilo do momento, foi externalizado nas palavras de prece do Cardeal-arcebispo de São Paulo, Dom Carlos Carmelo de Vasconcelos Mota, em discurso realizado na ocasião, onde diz: “Que a Padroeira de Minas, Nossa Senhora da Piedade, lá do alto da famosa Sabarabuçu, […] conserve Minas sob o seu manto maternal.”

Em 2017, as igrejas foram elevadas à Basílicas, sendo o local agora intitulado Santuário Basílica Nossa Senhora da Piedade. No mesmo ano, durante as comemorações dos seus 250 anos, o Arcebispo Metropolitano de Belo Horizonte, Dom Walmor Oliveira de Azevedo reitera que

A Serra da Piedade é o coração de Minas e muito nos alegra o fluxo crescente de peregrinos. Minas foi agraciada com esta casa de clemência e bondade e é nesta escola de fé que está o caminho para a bondade de Deus. Aqui temos a devoção à padroeira de Minas e também a reverência ao nosso patrimônio histórico-cultural. (ESTADO DE MINAS, 01/10/2017).

            Referências Bibliográficas e Fontes:

CIPOLINI, Pedro Carlos. A devoção mariana no Brasil. Teocomunicação, Porto Alegre, v. 40, n. 1, p. 36-43, jan/abr. 2010.

DIAS, Michele dos Santos; KIRCHNER, Renato. Uma Pietà Brasileira: Escultura de Nossa Senhora da Piedade em Caeté, Minas Gerais. Caminhos, Goiânia. 17, n. 2,p. 669-687, maio/agos. 2019.

INVENTÁRIO do patrimônio cultural da Arquidiocese de Belo Horizonte. Santuário de Nossa Senhora da Piedade – Caeté (MG) / Coordenação: Mônica Eustáquio Fonseca                       Belo Horizonte: PUC Minas, 2007.

LEITE, Irmã Teresa Cristina. Servo de Deus Domingos Evangelista Pinheiro. Fundador da Congregação das Irmãs Auxiliares de Nossa Senhora da Piedade. Revista da Conferência dos Religiosos do Brasil – CRB. Convergência. Maio de 2019, ANO LIV. P. 14 a 22. Disponível em: < https://crbnacional.org.br/wp-content/uploads/2020/06/Convergencia-maio_miolo2019.pdf  > Acesso em: 18 de janeiro de 2022.

LIMA, Márcia. A expressão modernista na imaginária religiosa: Análise da Pieta de Ceschiatti. Texto gentilmente cedido pela autora. Belo Horizonte, janeiro de 2022.

LITTERAE APOSTOLICAE. Haeret animis Christifidelium. In.: Acta Apostolicae Sedis. Vol. LI, 1959. P. 628-629. Disponível em: < vatican.va/content/john-xxiii/la/apost_letters/1958/documents/hf_jxxiii_apl_19581120_haeret-animis.html >. Acesso em: 18 de janeiro de 2022.

PEDROSA, Aziz José de Oliveira. A Basílica Ermida de Nossa Senhora da Piedade: memoria de um processo de reconfiguração arquitetônica. Patrimônio e Memória, São Paulo, v. 15, n. 1, p. 408-432. Jan-jun 2019.

POEL, Francisco van der. Dicionário a religiosidade popular: cultura e religião no Brasil. Curitiba. Nossa Cultura, 2013.

SANTUÁRIO de Nossa Senhora da Piedade completa 250 anos. Jornal Estado de Minas Gerais. Publicação digital. 01/10/2017. Disponível em: <https://www.em.com.br/app/noticia/gerais/2017/10/01/interna_gerais,904968/santuario-de-nossa-senhora-da-piedade-completa-250-anos.shtml> Acesso em 19 de janeiro de 2022.

SOLENEMENTE consagrado o Estado de Minas Gerais a Nossa Senhora da Piedade. Jornal Minas Gerais. Belo Horizonte, 2 de agosto de 1960. P. 1 e 6.

TAMBASCO, J.C. Vargens. A Serra e o Santuário. Nossa Senhora da Piedade do Caeté, uma herança setecentista das minas do ouro. Belo Horizonte. Vassouras, 2010

ZUBEN, Newton Aquiles Von; LANDGRAF, Robert D. Piedade Popular e o culto a Maria: um olhar  partir do Diretório de Piedade Popular e Liturgia e da Exortação Apostólica Marialis Cultus. Revista de Cultura Teológia. Ano XXVI, n. 91, jan/jun 2018.

[1] Possui graduação em História pela PUC-Minas (2007) e atualmente é aluna do mestrado em Artes, da Escola de Belas-Artes, da UFMG. Integra o corpo técnico de colaboradores do Memorial da Arquidiocese de Belo Horizonte/Inventário do Patrimônio Cultural.

[2] Possui graduação em História pela PUC-Minas (2015) e atualmente é aluna de graduação em Arquivologia, pela Escola de Ciência da Informação, da UFMG. Integra o corpo técnico de colaboradores do Memorial da Arquidiocese de Belo Horizonte / Vicariato Episcopal para Ação Missionária – Arte, Cultura e Bens Culturais (VEAM).

[3] Caité – Grafia antiga. Palavra de origem tupi, que significa “mata verdadeira, mata virgem”.

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