A 7ª Romaria pela Ecologia Integral da Arquidiocese de Belo Horizonte - artigo de dom Nivaldo

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Aproxima-se o “Dia Mundial do Meio Ambiente”, celebrado em 5 de junho e instituído pela Organização das Nações Unidas (ONU) durante a histórica Conferência de Estocolmo em 1972. No Brasil, essa data ganhou ainda mais força com a instituição do “Junho Verde” – uma iniciativa da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), que estabeleceu todo o mês como período oportuno para a urgente reflexão e ação em torno do vetor global da conscientização ecológica, a fim de intensificar o debate público e as ações práticas de combate ao desmatamento, à poluição e aos impactos devastadores das mudanças climáticas. Na Arquidiocese de Belo Horizonte, enquanto Igreja Particular, vive-se de maneira muito concreta a dor causada pelo desastre-crime da barragem da Vale, ocorrido em Brumadinho, MG, no dia 25 de janeiro de 2019. A tragédia ceifou 272 vidas e provocou danos humanos, sociais e ambientais irreparáveis. As operações de busca realizadas pelo Corpo de Bombeiros de Minas Gerais se estenderam por anos, na tentativa de localizar e identificar todas as vítimas — carinhosamente chamadas de “joias” por suas famílias e pelos movimentos sociais. Diante dessa ferida aberta no coração da Arquidiocese, passou-se a realizar, anualmente, a Romaria a Brumadinho, momento de memória, solidariedade e compromisso com a justiça socioambiental. Essa romaria é diretamente vinculada ao luto, à denúncia e à defesa da vida, mantendo viva a lembrança das vítimas e fortalecendo a luta por reparação integral. Paralelamente, a Arquidiocese também promove, a cada ano, a Romaria Arquidiocesana pela Ecologia Integral, iniciativa que nasce do chamado da Igreja para cuidar da Casa Comum, inspirada pela Carta Encíclica Laudato Si’, do saudoso Papa Francisco, e pela ação pastoral do Veaspam (Vicariato Episcopal para a Ação Social, Política e Ambiental).

A Romaria Arquidiocesana pela Ecologia Integral tem caráter formativo, celebrativo e mobilizador, reunindo comunidades, pastorais e movimentos comprometidos com a defesa da vida em todas as suas dimensões. Neste ano, celebramos a 7ª Romaria pela Ecologia Integral no dia 30 de maio de 2026, reafirmando o compromisso da Arquidiocese de Belo Horizonte com a espiritualidade ecológica, com a justiça socioambiental e com a construção de um futuro sustentável para todos.  A Romaria Arquidiocesana, que já se tornou um tradicional momento de comunhão, oração e profetismo, desta vez acontece na Região Episcopal Nossa Senhora da Aparecida (Rensa), especificamente na cidade de Esmeraldas. A escolha geográfica e pastoral desta realidade não é casual. Antes, carrega uma forte carga de denúncia e solidariedade. Esmeraldas possui uma extensão territorial vasta que padece sob inúmeras vulnerabilidades sociopolíticas, econômicas, climáticas e culturais. Historicamente preterida pelo poder público, a região é frequentemente tratada como uma periferia humana e geográfica. Na verdade, trata-se de uma realidade sensivelmente invisibilizada e descartada, haja visto os descuidos com a vida da maioria da população, carente de toda espécie de recursos elementares como saneamento básico em todo o município, ausência de um sistema integrado de transporte, inexistência de pavimentação adequada para acessos entre as comunidades… sem falar do irregular processo de “extração de areia” que tem posto em crise a saúde ambiental local.

Se notamos que a nossa Região Episcopal é marcada por territórios urbanos e periféricos densamente povoados, mais ainda percebemos que a realidade de Esmeraldas reflete os desafios reais que precisam ser enfrentados por uma consciência de Ecologia Integral  capaz de levantar a voz para ecoar, pela fé, os clamores da Terra e os clamores dos pobres que são sempre os mesmos. Assim sendo, o objetivo deste evento é convidar a sociedade civil, o poder político e as comunidades de fé a convergirem suas atenções para a salvaguarda da nossa “Casa Comum” ali habitada, pois como nos afirma a Laudato Si’, “tudo está interligado”.

Portanto, a realização e participação nesta Romaria se configura como um catalisador de ações sociais locais. O objetivo profético é o de convocar os fiéis e os cidadãos da região a debaterem o direito à cidade sustentável, a preservação das poucas áreas verdes urbanas e o combate à exploração da natureza que afeta diretamente a saúde das comunidades. Na verdade, é a fé que sai dos templos e ganha as ruas, transformando-se em ação comunitária e responsabilidade socioambiental. Até porque viver em harmonia com o planeta deixou de ser uma bandeira exclusivamente romântica para se tornar uma necessidade de sobrevivência. As mudanças climáticas já não são previsões para o próximo século. Ao contrário, já se manifestam agora em eventos extremos, na perda severa da biodiversidade e na escassez hídrica que afeta, prioritariamente, as populações mais vulneráveis. Assim, gritar pela vida e proteger o meio ambiente é, fundamentalmente, um ato político de respeito e salvaguarda da dignidade humana e luta pela garantia dos direitos humanos básicos, tais como acesso à água potável, ao ar puro e à segurança alimentar.

Além do mais, esta luta assume conotação imprescindível e urgente com a recente publicação, em 25 de maio de 2026 da Carta Encíclica do Papa Leão XIV, Magnifica Humanitas. Ainda teremos obviamente que amadurecer a acolhida deste novo e atual ensinamento poderoso da Doutrina Social da Igreja que o nosso querido Papa acaba de nos presentear e, com ele, nos fortalecer e iluminar o serviço evangelizador da nossa pastoral social. Porém, é mais do que oportuno considerar a sua principal e preciosa exortação, explícita neste documento: o Papa alerta a que a “magnanimidade humana” não pode se curvar perante a ganância que destrói os recursos naturais, mas deve se erguer como guardiã da vida (cf. n. 10). Ademais, a verdadeira grandeza da humanidade se manifesta na nossa capacidade de exercer uma responsabilidade solidária e compassiva para com a Criação e para com os mais vulneráveis (cf. Cap III).

Assim, seja o Dia Mundial do Meio Ambiente, seja o Junho Verde e/ou a Romaria Arquidiocesana pela Ecologia Integral não podem resumir-se a discursos institucionais ou a eventos passageiros de uma agenda, mas devem ser iniciativas propostas para eletrizar os corações a uma mudança duradoura de hábitos e de estruturas políticas. Que tais ações nos inspirem a assumir a nossa responsabilidade de fé batismal e nos motivem a “arregaçar as mangas” e a “colocar as nossas mãos na massa”. Que a nossa participação possibilite conectar as esferas política, social e espiritual. Que o nosso testemunho e a nossa caminhada pastoral contribuam para fortalecer a consciência de uma verdadeira ecologia integral, para que se compreenda que cuidar da natureza não significa apenas um ato nobre de cidadãos, mas uma decisiva ação de valorização da própria humanidade. Afinal, o futuro da Terra decide-se nas escolhas solidárias que fazemos hoje.

 

Dom Nivaldo dos Santos Ferreira
Bispo auxiliar da Arquidiocese de BH



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