Você está em:

90 anos do Seminário Arquidiocesano: o itinerário da formação

 A formação vocacional ou profissional oscila entre dois extremos: a inserção e a distância. Antes da modernidade, as pessoas aprendiam a nadar nadando. Lançadas na água, mexiam-se até sair nadando. A modernidade descobre técnicas e passam-se a frequentar aulas de natação até a perfeição.

Levando ao extremo as duas tendências, chegamos ao absurdo. Antes de aprender a nadar, alguém pode morrer afogado. Ou aprendeu todas as regras da natação, mas nunca caiu na água.

A pedagogia tem procurado equilibrar os dois polos, mas nem sempre consegue boa proporção. Continua positivo ter no horizonte as duas tendências extremas para discernir-lhes e testar-lhes as medidas.

Traduzindo a comparação com a natação para a vida do seminário, a Igreja conheceu ao longo da história quase os dois extremos. E depois de experimentá-los, preocupa-se em encontrar formas novas de equilíbrio.
       
Durante a Idade Média, os presbíteros aprendiam o ministério sacerdotal na prática, junto a algum pároco. Lentamente assimilavam o modo de proceder presbiteral e, em dado momento, eram ordenados e assumiam  pessoalmente a tarefa.

 

Os 90 anos do Seminário oferecem ocasião para que se reflita sobre o como se equilibram a dose monástica da interiorização da experiência fundante de Deus e a inserção dos estudantes no mundo pastoral.

Certamente, tal experiência terá propiciado a jovens participarem da vida pastoral de sacerdotes maravilhosos. Mas aconteceu também o contrário. Conta-se que são Vicente de Paulo, quando jovem, entrou na Igreja para participar da Missa e percebeu que o sacerdote celebrava com gestos automáticos, o que  apontava a necessidade de uma formação que o permitisse vivenciar melhor o mistério eucarístico. Daí, mais tarde, os lazaristas dedicarem-se à formação dos seminaristas e, no Concílio de Trento, os bispos pensarem na criação do seminário para formar os sacerdotes. Até então, aprendia-se a nadar, lançando-se à água.
       
Lentamente, a partir de Trento, a instituição dos seminários como hoje conhecemos, se implantou. Conseguiu-se, sem dúvida, enorme melhora no clero. De forma gradativa, porém, alguns seminários se tornaram verdadeiros mosteiros que formavam os jovens presbíteros isolados e separados da realidade pastoral. Aprendiam-se as regras de nadar, sem nunca entrar na água.
       
Veio então o Concílio Vaticano II e estabeleceu o critério pastoral como principio para a formação, tendo como pilares a espiritualidade, os estudos e a disciplina. Mas cada seminário se pergunta continuamente como se equilibram a experiência de reclusão, isolamento, estudos no próprio quarto, vida espiritual no interior do seminário e a inserção na vida do povo, das paróquias. Enfim, como se articulam as duas dimensões de interioridade no seminário e exterioridade na vida do povo, para que nenhuma das duas dimensões constitutivas falte e se obtenha sadio equilíbrio entre ambas.
       
Os 90 anos do Seminário Arquidiocesano Coração Eucarístico de Jesus oferecem ocasião para que se reflita sobre seu itinerário nesses anos. Perscrute-se como se equilibraram e se equilibram hoje a dose monástica da interiorização da experiência fundante de Deus e a inserção dos estudantes no mundo pastoral em que, amanhã, estarão trabalhando.

 

Pe. João Batista Libanio, SJ
Professor da Faculdade Jesuíta de
Teologia e Filosofia (FAJE)