Artigo de dom walmor

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Rasgar o próprio coração

“Rasgai o coração” é o grito profético e místico nascido no coração do profeta Joel. Um convite especialmente interpelante para o caminho penitencial do tempo da Quaresma, almejando frutuosa celebração da Páscoa. Compreende-se que a fecundidade da Páscoa – vida nova – tem relação profunda com a efetiva busca por conversão, investimento em um jeito de ser marcado pela misericordiosa compaixão de Deus-Pai, revelada e efetivada na paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo, o Filho Redentor e Salvador. O convite do profeta Joel substitui a consolidada tradição de rasgar as vestes, sinal de arrependimento, expressando ainda o reconhecimento sobre as consequências das próprias atitudes, a abominação relacionada às falas e às posturas que estão na contramão do amor maior. Agora, em lugar de rasgar as vestes, deve-se rasgar o próprio coração – referência ao núcleo da consciência e da interioridade humana e, assim, alavancar conduta nova, à altura da dignidade de filhos e filhas de Deus.

Indica o profeta a atitude salutar e renovadora de forrar o coração com o tecido da misericórdia e do compromisso com a fraternidade universal. Trata-se de reforçar sempre mais a convicção de que é preciso – e urgente – hospedar na interioridade princípios e valores que alicercem condutas semeadoras da bondade, da justiça e da verdade. Um apelo que mostra a importância de serem priorizadas atitudes iluminadas pela compaixão, inspirando nova conduta cidadã. A construção do mundo pluralista depende, pois, de um rumo diferente: há de se admitir que os muitos embates e labutas do cotidiano enfraquecem o ser humano, fazendo-o hospedagem de sentimentos que adoecem, ao invés de curar e de vivificar.

O convite à conversão, profunda mudança no jeito de ser e de agir, requer, de cada um, fidelidade a princípios e valores que estão à altura da condição de ser filho e filha de Deus, irmãos e irmãs uns dos outros. Esses princípios e valores fortalecem o compromisso com o bem e a verdade. O profeta Joel na sua interpelante convocação – “Rasgai os corações” – aponta a necessidade de uma conduta que ajude a alicerçar a fraternidade universal. São cada vez mais necessários agentes capazes de construir um tempo novo, para mudar este mundo descompassado, distanciado do bem e da justiça. Todos precisam bem cuidar das próprias motivações, interesses e lógicas, para adequadamente definir escolhas, juízos e os modos de se expressar. O tempo quaresmal oferece singular oportunidade para a qualificação humana. No lugar de vozes e juízos que fazem do mundo uma “babel de desentendimentos”, acolha-se o convite para cuidar dos sentimentos e, assim, colaborar com a efetivação da justiça e da paz. Nesse horizonte, trabalhar pela promoção do bem comum.

Reafirma-se, nessa perspectiva, a tarefa missionária de procurar vencer polarizações, superar reações negativas ao compromisso de se promover um mundo fraterno, pois é preciso vencer cenários vergonhosos de exclusão. Esses cenários são grave ofensa a Deus. E “rasgar o coração” é deixar-se iluminar pela lógica do Evangelho de Jesus Cristo, que interpela o ser humano a dar de comer aos famintos. Importa não resistir à iluminação da Palavra de Deus para dissipar as sombras que envolvem o coração humano e os horizontes da humanidade contemporânea. É preciso colocar-se à luz da Palavra que salva, para dar ao coração a competência corajosa e essencial à superação dos muitos desafios deste tempo.

Vale muito, neste caminho do tempo da Quaresma, escutar uma sábia palavra de São João Crisóstomo, uma riqueza nos ensinamentos bimilenares da Igreja Católica. O Santo diz que muitos cristãos saem dos templos e contemplam fileiras de pobres sem se comover, como se vissem colunas e não seres humanos. “Apertam o passo” como se vissem estátuas sem alma em lugar de homens que respiram. E, depois de tamanha desumanidade, se atrevem a levantar as mãos ao céu e pedir a Deus misericórdia e perdão pelos pecados. Compreende-se o alcance e as implicações na acolhida do convite profético de rasgar o próprio coração, qualificando a competência de se investir na construção de uma sociedade justa e fraterna, passaporte para o Reino de Deus.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte
Presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB)

 

Ilustração: Jornal Estado de Minas