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“Partir de Cristo”

“Partir de Cristo” é a primeira indicação para quem busca alcançar o sentido indispensável da vivência e das celebrações deste tempo da Quaresma. Os ritos e exercícios da Quaresma ganham vigor quando se reconhece a centralidade de Cristo na vida pessoal e na relação com o semelhante. Os que creem em Cristo sabem o que pode ocorrer quando discípulos se distanciam do Mestre Jesus: condutas contaminadas por escolhas e atitudes que estão na contramão da fraternidade universal. O mundo pede aos cristãos maior proximidade com o seu Mestre. Clama por um jeito novo de ser, que desperte sensibilidades para que sejam encontradas novas direções, capazes de levar à renovação da sociedade, tão desgastada. Primordial é exercitar-se, individual e comunitariamente, na competência espiritual e humana de sempre “partir de Cristo”, alimentando a convicção de que conhecer Jesus pela fé é experimentar a verdadeira alegria procurada pelo coração humano. Essa alegria tem efeitos transformadores pela graça de segui-Lo.

Seguir Jesus é oportunidade para vencer irracionalidades que vitimam a sacralidade da dignidade humana e nutrir uma esperança que não é enganadora. Quaresma constitui, assim, um tempo favorável para práticas que alicerçam o dom do encontro, ou do reencontro com Jesus Cristo. Tempo para nutrir-se da convicção de que partir sempre Dele garante qualidade ética e existencial ao viver humano. A proximidade com Cristo possibilita a cada pessoa ser instrumento da paz, revestindo a interioridade com as propriedades da misericórdia, inesgotáveis no coração do Mestre e Senhor. O Evangelho tem essa novidade precisada pelo coração de todos, para que cada um se fortaleça na condição de discípulos e discípulas de Jesus. Trata-se de uma experiência forte e transformadora. Por isso, vivenciar as propostas e interpelações do tempo quaresmal é colocar ao próprio alcance valiosa experiência de ser cristão autêntico. Isto possibilita superar muitos desgastes existenciais.

O encontro com Jesus Cristo, pela fé, é muito mais que experiência casual. Oferece um novo horizonte à própria vida, alcançando a desejável, urgente e decisiva orientação que é buscada por todos, capaz de conferir sentido à existência de cada um. A Quaresma, culminando com a vivência da Semana Maior, a Semana Santa, é a possibilidade concreta e graciosa de se desenhar um novo horizonte na própria história, com repercussões na vida familiar e social. A vivência quaresmal, iluminada pela força da Palavra de Deus, permite saciar a sede experimentada no coração humano. Leva a um aprendizado essencial: partir sempre de Cristo, em tudo que fizer. A recuperação da centralidade de Cristo na própria vida e nas dinâmicas da comunidade de fé é meta primordial da celebração do tempo da Quaresma. Leva ao coração de todos mais força e sabedoria para enfrentar as circunstâncias dramáticas da contemporaneidade. Ilumina iniciativas para que efetivamente possam levar mais equilíbrio aos relacionamentos, alicerçando a edificação de uma sociedade mais justa e solidária.

Quaresma é dom do encontro com Jesus Cristo que possibilita ao ser humano reencontrar-se com a sua própria e genuína essência.  Uma experiência que leva ao aprendizado de lições insubstituíveis para uma vida social e comunitária nos parâmetros da justiça e da solidariedade, alavancas na promoção da paz. Pode-se reconhecer, a partir dos focos de guerra, das situações de penúria enfrentadas por tantos injustiçados, em diferentes contextos, que a humanidade experimenta o seu próprio caminho como enigma indecifrável. E ao compreender o próprio horizonte como enigma indecifrável, percebe-o como fardo pesado e insuportável, sem sentido, sem um rumo a ser seguido. Consequentemente, não são reconhecidas as razões para se investir no compromisso com a solidariedade. A indicação é recuperar Cristo Mestre como “caminho, verdade e vida.”

Iluminadora, pois, é esta convicção: não reconhecer os rumos do próprio caminho leva a um viver desvinculado da verdade, a uma vida sem vida. Trilhar o caminho da Quaresma permite o aprendizado da autêntica liberdade. A vivência frutuosa do tempo quaresmal pelas práticas recomendadas do jejum, da esmola e da oração, recupera a alegria essencial ao coração humano. É oportuno ter presente o que diz o Documento de Aparecida, fruto saboroso e inspirador da 5ª Conferência Geral do Episcopado Latino-americano e Caribenho: “A alegria do discípulo é antídoto frente a um mundo atemorizado pelo futuro e oprimido pela violência e pelo ódio”. Seguir, pois, este princípio – partir sempre de Cristo – é conquistar uma alegria que ultrapassa um mero bem-estar egoísta: faz nascer no próprio coração a alegria que resulta do conhecimento e do encontro com Jesus Cristo – o melhor presente que se pode receber, comprovadamente. Aprenda-se sempre e cada vez mais este princípio: em todas as ações, decisões, pensamentos, sempre partir de Cristo.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte
Presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB)

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