Artigo de dom walmor

Um grito misericordioso brotou do coração do samaritano – “Cuida dele”, que ficou tocado pelo sofrimento de um desconhecido, caído pelo caminho em que passava, depois de assaltado e flagelado, quase morto. Jesus, na narrativa do Evangelho de Lucas, ensina assim sobre a qualidade do coração humano, em uma sociedade adoecida, de muitos enfermos e enfermidades: aponta a necessidade de se cultivar um coração capaz de enxergar os enfermos e os pobres – não por curiosidade, mas de maneira compassiva, para dedicar-lhes adequado tratamento.  Eis o caminho para efetivar a fraternidade, vencendo preconceitos, discriminações e mágoas. A mensagem do Papa Francisco, na celebração do 31º Dia Mundial do Doente, 11 de fevereiro, contribui para seguir esse itinerário. A convocação, em primeiro lugar, é dedicar cuidado aos enfermos, alargando o olhar para enfrentar sabiamente os sintomas de um mundo contemporâneo em contínuo processo de adoecimento. Esse enfrentamento do mal exige que todos busquem tratar bem cada um, irmão e irmã, com a sensibilidade do bom samaritano.

Gestos alicerçados na compassiva misericórdia são urgente remédio para curar as feridas que fazem a humanidade padecer. Cultivar a semeadura da compaixão e do respeito, vencendo disputas, indiferenças perigosas, para que prevaleça a solidariedade, desenvolvendo a competência humana e espiritual de cuidar do outro, especialmente dos enfermos, e da casa comum. É necessário também um adequado cuidado dedicado à organização social e política, religiosa e cultural, para que a vida seja sempre promovida com o constante exercício da misericordiosa compaixão. Compaixão que precisa ser a unção do coração humano para lhe dar sabedoria, alegria e coragem. Assim, ter força para poder cuidar de cada pessoa, na própria família e no contexto mais amplo da sociedade, especialmente dos pobres e dos miseráveis. Importante é lembrar que a doença faz parte da existência humana, conforme frisa o Papa Francisco, mas que a enfermidade pode ser vivida de modo desumano, quando há abandono, isolamento.

Vivenciar a compaixão e cultivar a proximidade sublinham a importância do caminhar juntos – não seguir cada um por conta própria, mas se amparando mutuamente pela solidariedade que devolve a esperança perdida, alivia o peso das dores. É, pois, força para todos, considerando a condição frágil de cada ser humano. Há sempre uma lição nova a ser aprendida na experiência da fragilidade e da doença.  Um aprendizado essencial a corações orgulhosos e soberbos, que se julgam no direito de usufruir irresponsavelmente dos bens da criação. A realidade imposta pela doença expõe a fragilidade humana, fortalecendo a convicção de que todos necessitam da proximidade fecundada pela compaixão e ternura. A esse respeito, oportuno é sublinhar o papel da fé, que sustenta a vida de cada pessoa. O Papa Francisco lembra a beleza e a consolação de um trecho da profecia de Ezequiel, quando o Senhor Deus faz brotar do seu coração a grandeza de seu amor de Pai: “Sou eu que apascentarei as minhas ovelhas, sou eu quem as fará descansar”. Trata-se, na verdade, de um lamento de Deus pelos descasos promovidos pela insensibilidade humana em relação aos sofredores, pobres e doentes.

A indiferença é fruto maligno produzido pela soberba no coração humano, assoreando sentimentos nobres – querer bem ao próximo e ter coragem para abrir a mão, solidariamente, com o objetivo de promover amparo. É fruto também da falta de sensibilidade humanitária, uma incapacidade para reconhecer o sentido profundo que reside na existência de cada pessoa. Confiar a condução da sociedade a governantes insensíveis, a legisladores “frios e calculistas”, a gestores submetidos a lógicas que desdenham do ser humano constitui um grave risco. Os genocídios de povos e culturas, de segmentos empobrecidos da sociedade, são originados nos corações insensíveis, nas almas indiferentes, com olhos que não conseguem enxergar a dor lancinante de quem passa fome, não tem o necessário para sobreviver.

O orgulho e o medo da morte petrificam corações e obscurecem mentes. Deus é solicitude. A solicitude é, pois, o selo de autenticidade da condição de filhos e filhas de Deus. Preservada e mantida a lógica da solidariedade, encontra-se o caminho das respostas que podem eliminar páginas tristes da história da humanidade. Com Deus se aprende a solicitude para fazer valer uma nova lógica. A fraternidade precisa ser cada vez mais promovida, aprendida a partir de princípios civilizatórios que semeiam o sentido de solidariedade, fortalecida a partir de adequada legislação. É preciso fazer valer o compromisso com a dignidade de cada pessoa. Importa a urgência de se reconhecer a condição de solidão e de abandono de tantos irmãos, sem amparo e proteção. Deixar-se interpelar pelas atrocidades do tempo presente para promover novas lógicas de humanização. Mover-se pela compaixão para ajudar quem precisa: trata-se de uma permanente responsabilidade.

 São muitos os sinais da gravidade deste tempo, podendo ser citados o sofrimento enfrentado pelos indígenas Yanomami e a fome que atinge muitos brasileiros. Essas realidades desafiadoras convidam cada pessoa a acolher o que generosamente expressa o bom samaritano: “Cuida dele!” E o mundo encontrará um caminho novo.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte
Presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB)

Ilustração: Jornal Estado de Minas

 

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