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O significado espiritual do Lava-pés

Durante a Quaresma o cristão prepara-se, com jejum, penitência e oração, para vivenciar a Semana Santa – paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo – num processo contínuo de conversão.   Essas práticas enriquecem nossa busca por estarmos mais próximos de Deus. Portanto, convidamos você a revisitar o “Lava-pés”, para vivenciá-lo com propriedade não só daqui a algumas semanas, no início da Semana Santa, mas ao longo da vida. O evangelista João (13, 1-17) descreve a cena profética em que Jesus lava os pés dos apóstolos, doando-se como servo, até a morte.

Refletir sobre o significado do gesto do lava-pés nos leva a concluir que ele transforma as relações de domínio em relações de serviço, supera as rupturas e divisões, criando relações de aliança, invertendo o comportamento egoísta em atitude de fraternidade. Jesus fez de sua vida um grande lava-pés. Seu jeito de amar e respeitar as pessoas, de ser irmão e servidor, de doar-se aos outros, de entregar sua vida pela salvação do mundo, é um lava-pés existencial.

Pelo lava-pés, os inimigos tornam-se amigos, as relações truncadas tornam-se mais amáveis e possíveis, o outro é respeitado como irmão, amigo e companheiro. Ninguém é espezinhado, empurrado, pelo contrário, é colocado de pé caso tenha caído. Estar aos pés de quem caiu, fracassou, faliu é um verdadeiro lava-pés. Isso tudo cura os pés feridos.

Encurtar distância, vencer diferenças, superar divisões, socorrer as vítimas da injustiça é lavar os pés dos outros, até que ninguém mais seja chutado, pisoteado pelo abuso do poder, pela vingança, pela intolerância e pelo orgulho. Tem os pés sujos quem alimenta ódio, raiva, crueldade. O lava-pés nos faz peregrinos na direção do irmão e dá coragem para o diálogo, o perdão, a reconciliação. É banido à discriminação, racismo, a exclusão, a mentalidade de privilégio, de classe de superioridade.

Lava-pés é acolhimento, hospitalidade, aceitação dos outros, voluntariado, altruísmo, solidariedade. É optar pela misericórdia, pela compaixão, pelo cuidado e pela comunhão. É ter o coração aberto para acolher a proposta e os ensinamentos de Nosso Senhor Jesus Cristo e fazer tudo em memória dele.

Num ambiente de discórdia, divisão, brigas, indiferença pelos pobres, falta de compromisso comunitário, de aceitação e compreensão dos limites uns dos outros, não se deve celebrar a Eucaristia. Na lógica do lava-pés, o outro é o centro e digno de ternura, respeito, consideração. Jesus, inclinando-se para lavar os pés, explicou de forma inequívoca o sentido da Eucaristia.

 

Lava-pés é despir-se
do poder e revestir-se
de humildade, desamarrar as sandálias para dar alívio aos sofredores

O amor fraterno é a prova da autenticidade das nossas Celebrações Eucarísticas. O lava-pés é o poder da ternura. Aqui a violência é sinônima de fraqueza e derrota. Ou viveremos todos como irmãos ou morreremos todos como loucos. Quem se inclina para lavar os pés eleva-se diante de Deus. É superada a relação senhor – escravo pela relação de igualdade e aliança. Lava-pés é despir-se do poder e revestir-se de humildade, desamarrar as sandálias para dar alívio aos sofredores.

Lava-pés é ir ao outro, ao povo, ao pobre, ser companheiro de viagem. Os pés fazem a gente dar passos e enxergar melhor; lá onde estão nossos pés, nossos olhos se abrem. Na escola do lava-pés superamos as atitudes de pretensão, competição, arbítrio, inveja, difamação e nos tornamos samaritanos querendo o bem dos outros, sofrendo a dor deles, carregando seus fardos, defendendo seus interesses.

Lava-pés é libertação do narcisismo, da arrogância, da presunção, das gratificações e aparências. É momento de total esvaziamento de nós mesmos, de nossa autossuficiência e da elevação dos outros. Saberemos exultar de alegria pelo sucesso alheio e jamais prejudicaremos  alguém. Seremos pessoas de tolerância.

 

Lava-pés não é uma cerimônia nem uma encenação. É um jeito de viver, um estilo de vida, uma lógica de amor. Lava-pés é descer dos nossos pedestais, colocar-nos na situação dos outros, sendo empáticos e tratá-los como nossos melhores amigos. A espiritualidade do lava-pés hoje, diante desta realidade sofrida, violenta, pela qual se vende o ser humano como mercadoria, sendo coisificado, objeto de troca, cultuando cada vez mais o “deus mercado”, chama-se solidariedade, compaixão e comunhão. Seu alicerce é a humildade e o espírito de fraternidade. Em outras palavras, saber acolher as necessidades humanas, atender bem ao telefone, abrir a porta da casa, ser gentil no trânsito, estar do lado dos pobres, dentre outras ações que são gestos de verdadeiro lava-pés. Ser uma Igreja ‘casa dos pobres e escola de comunhão’, é Igreja do lava-pés. Na cultura contemporânea é mais fácil dar pontapés que lavá-los. Todo o interesse pela vida no planeta é, sem dúvida, um moderno lava-pés.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Frei Romero da Silva, OFMCap.
Responsável pela paróquia nossa Senhora do Rosário  de Pompeia