Para refletirmos sobre o Batismo de Jesus, não podemos deixar de pensar no sentido da festa. Celebrar a festa significa reunir-se juntos. Nos tempos antigos, no contexto mítico-religioso, celebrar a festa significava evocar, no sinal e no rito, o tempo sagrado primordial. A festa era tempo sagrado e sua função era recordar aos outros tempos a sacralidade essencial que possuíam, tornando presente ou representando o sagrado.
No contexto da revelação, a festa é o memorial da intervenção salvífica histórica de Deus, que liberta o homem das escravidões e faz aliança. No Novo Testamento, a festa é Cristo e o evento pascal vê definitivamente o “dia que o Senhor fez”. Não se pode esquecer que o Cristo da fé e da glória é o mesmo Jesus de Nazaré, isto é, o Jesus da história. Esta história é o fundamento de tudo.
No caminhar da história a comunidade fiel, enquanto vive a participação sacramental no mistério de Cristo, torna-se capaz de gerar e formar os seus novos filhos com a iniciação cristã. A cada celebração dos sacramentos, a comunidade cristã renova também para si, e não somente para aqueles que são conferidos como primeiros destinatários, a graça desses mesmos sacramentos.
Os sacramentos da iniciação cristã: Batismo, Crisma e Eucaristia, confere ao cristão a sua identidade e pertença à comunidade. O Batismo é o primeiro sacramento, como porta de entrada para esta comunidade, a exemplo do Batismo de Jesus que confere a ele a inauguração da sua vida pública. Todos os evangelhos descrevem a missão de Jesus a partir do seu batismo no Rio Jordão. Esta celebração é também uma festa que comemora a manifestação do Senhor.
A tradição cristã relata, nas experiências das comunidades dos Evangelhos sinóticos; MT 3, 13-17; Mc 1,7-11; Lc 3,15-16.21-22, o sentido da unção de Jesus no dia de seu batismo: o Espírito que pairava sobre as águas da primeira criação (Gn 1,2), por um lado, unge Jesus para a sua missão messiânica (At 10,38), por outro lado, como entenderam os padres da Igreja, este mesmo Espírito santifica a água e prepara o Batismo cristão.
As narrativas nos Evangelhos, cada uma carrega consigo a experiência de cada comunidade: a narrativa de Marcos apresenta como elementos fundamentais: a abertura dos céus, a descida do Espírito, a água do Jordão, a voz celeste. A abertura dos céus significa o início de um novo tempo de graça. A narrativa de Mateus acrescenta o diálogo com o Batista: Jesus quer ser batizado, não por ser pecador, mas para cumprir toda a justiça. Em Lucas, a narrativa nos conta que o Espírito desce sobre Jesus no momento em que ele está em oração. Lucas também coloca o batismo relacionado com a páscoa: a verdadeira efusão do espírito, inaugurada no Jordão, acontecerá depois na morte e ressurreição do Senhor, quanto então ele já terá realizado sua missão.
O Batismo para o cristão de hoje
Na situação atual das nossas comunidades urge a necessidade de sair de uma pastoral de cristandade (todos são batizados porque todos fazem assim), para entrar numa pastoral missionária, através da qual o homem se coloca responsável diante da escolha do evangelho e do seguimento de Cristo.
Sabemos que não nos tornamos cristãos automaticamente. Precisamos redescobrir a atuar a pedagogia de ingresso na Igreja e apresentar-se ao mundo de maneira mais crível, como comunidades de pessoas que creem. Esta pedagogia é a iniciação cristã entendida, na nossa realidade de Igreja, como progressivo caminho de fé-conversão à novidade do Evangelho, caminho este que chega ao encontro de Cristo e de seu mistério no sacramento.
Dia do Batismo do Senhor
Concluindo esse Tempo de Natal, cada pessoa é convidada a fazer uma retrospectiva de sua vida permitindo reconhecer o agir de Deus em sua vida, as manifestações que trouxeram a certeza de que sua vida foi invadida por ele e transformada e assim continuar a caminhada com certeza de que Deus nasceu dentro de você e se tornou manifesto neste Tempo. A certeza de que Deus semeou e continuará semeando algo muito bom no coração de cada um. Para que esta semente germine, cresça e dê fruto, algumas perguntas se fazem necessárias: Como está a sua fé? Como vive sua relação com Deus? Como faz as suas escolhas? Qual é o seu projeto de vida?
Neuza Silveira de Souza.
Coordenadora do Secretariado Arquidiocesano Bíblico-Catequético de Belo Horizonte