[Artigo] A Misericórdia nos leva ao conhecimento do agir de Deus - Neuza Silveira 

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O Povo de Israel, muitas vezes, era chamado a atenção porque se distanciava de Deus e se voltava para a prática dos cultos baalistas. Na época, a Monarquia se apoiava em uma estrutura social opressora mantida pelo exercito e pela religião. Um dos profetas que muito se preocupou com essa infidelidade do Povo de Israel a Deus foi o profeta Oseias. Ele sentia no povo uma falta de conhecimento que os levassem à busca dos desejos de Javé, o conhecimento de sua vontade que incluía a retidão, a justiça, o amor ao próximo. Nas profecias de Oseias estão contidas as condições exigidas para um retorno sincero ao senhor, pois acreditava-se que o povo tinha perdido a memória do Deus próximo, que caminha com ele e o libertava, e começava a ter a imagem de um Deus distante e vingativo que precisava ser temido e apaguizado com muitos sacrifícios e oferendas.

Ainda hoje, mesmo recebendo os ensinamentos de Jesus como modelo da nossa práxis cristã, nós cristãos não reconhecemos que há em nossa vida um Deus misericordioso que nos ama com gratuidade. Deus não nos exige nada para nos amar, embora espere de nós também viver o amor gratuitamente, percebe-se que ainda está muito distante esta imagem de Deus no meio de nós.

Ainda não se compreende um Deus que ama sem nada cobrar, sem precisar fazer promessas para que ele nos atenda. A dificuldade de perceber o Deus amor é a própria falta de amor que existe no mundo. A violência impera, o egoísmo e individualismo toma conta do ser humano. Precisamos aprender a amar, a descobrir o Deus amor que não desiste de nós. Precisamos conhecer melhor Jesus e, com ele, aprender a realizar gestos de solidariedade, de caridade, de fraternidade, de enxergar o outro como irmão, pois todos são filhos de Deus amados por ele. Também precisamos aprender a viver a alteridade, acolhendo a todos no que somos iguais e respeitando as diferenças.

As imagens distorcidas de Deus

Várias são as imagens distorcidas de Deus no meio de nós: Os pecados, sofrimentos, doenças, desastres e infortúnios da vida são vistos como castigo de Deus que vem como praga por causa das nossas desobediências. Por outro lado, àqueles que se encontram bem, com saúde e conseguem ser bem sucedidos na vida são vistos como os que foram recompensados por Deus por terem sido bonzinhos. Esta visão leva a pensar em um Deus da troca de favores ou do mérito pessoal. O amor de Deus é visto como prêmio pelos seus favores.

Forte no meio de nós é ainda a falsa imagem do Deus da prosperidade. Na teologia da prosperidade a pobreza, miséria e faltas de recursos são vista como maldição. O pobre é pobre porque é preguiçoso e não trabalha. Vê a prosperidade como um amontoado de bens materiais. Percebem a graça de Deus só quando tudo está bem. Assim rezam e pedem bênçãos a Deus para conseguir esses bens. E para que a oração gere frutos tem que exorcizar o demônio que atrapalha.

Sabemos que o sofrimento e as doenças são consequências do modo de vida que levamos, das injustiças praticadas. Nós produzimos os males e isto não é agradável a Deus. Deus não abandona os pobres e sofredores, alias, ele os trata preferencialmente. É através deles que Deus procura construir uma sociedade mais justa, pois são eles os mais injustiçados.

Muitas imagens distorcidas de Deus fazem parte do imaginário do povo. Ainda continuam acreditando no Deus da sorte, da predestinação, da prosperidade, da retribuição. Temos muito que aprender para perceber a gratuidade de Deus. O que fazemos aqui nesse mundo não é para depois do feito merecer o seu amor, mas o fazemos porque já o temos e somos sempre impulsionados por esse amor gratuito a cuidar das coisas criadas por ele e por todos os seres humanos, criaturas criadas para o amor.

O amor de Deus ofertado a nós é “dom”, e como todo dom, precisa ser trabalhado e educado para colocá-lo em prática. Jesus, ao se fazer presente no meio de nós nos revelando o amor de Deus, ele nos ensina viver esse amor.

Ainda temos muito a caminhar. Compreender a gratuidade de Deus e deixar se envolver por ela, buscar compreender a relação entre Deus e o ser humano, ou seja, o que é próprio de Deus e o que é próprio do homem nas relações. Somos chamados a trabalhar as relações entre nós e Deus e entre todos nós de forma fraterna e reconstruir uma nova mentalidade que nos leve a perceber o Deus da Graça e da Misericórdia.

Hoje Jesus nos convida a ser sal e luz. Que possamos sempre dar sabor ao nosso convívio com os irmãos e possibilitar a eles ver a Luz de Deus que vem irradiarem seus caminhos, através da prática do nosso agir misericordioso.

Neuza Silveira de Souza. Coordenadora do Secretariado Arquidiocesano Bíblico-Catequético de Belo Horizonte.

 



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