Há momentos na caminhada da Igreja em que um documento ultrapassa sua finalidade de orientar a ação pastoral e se torna uma verdadeira experiência espiritual. Não porque apresente novidades capazes de alterar a essência da missão recebida de Cristo, mas porque devolve à comunidade eclesial a oportunidade de reencontrar a beleza de sua própria identidade. Assim acolhemos as Diretrizes para a Ação Evangelizadora da Arquidiocese de Belo Horizonte para o período de 2026 a 2032. Nascidas da escuta do Povo de Deus, do discernimento comunitário e da experiência sinodal amadurecida ao longo da VII Assembleia do Povo de Deus, elas nos convidam menos a iniciar um novo projeto e muito mais a renovar a maneira de viver o Evangelho.
Essa convocação chega até nós em um tempo particularmente desafiador. Vivemos em uma sociedade que alcançou extraordinários avanços científicos e tecnológicos, mas que continua enfrentando profundas fragilidades humanas. Nunca estivemos tão conectados e, ao mesmo tempo, tão expostos à solidão. Nunca produzimos tantas informações e, paradoxalmente, convivemos com tamanha dificuldade de discernimento. Multiplicam-se os recursos, mas também crescem as angústias, as incertezas, a violência, o medo do futuro e a sensação de desenraizamento que atravessa tantas famílias e comunidades.
Entretanto, por trás de todas essas inquietações permanece viva uma sede que nenhuma conquista humana consegue saciar. O coração continua procurando sentido, desejando relações verdadeiras, buscando um lugar onde possa repousar e reencontrar esperança. É justamente nesse ponto que o Evangelho continua revelando toda a sua atualidade.
Por isso, o tema escolhido para conduzir a caminhada pastoral da Arquidiocese possui uma força que vai muito além de um lema. Proclamar a Palavra é uma profissão de fé. É reconhecer que Jesus Cristo continua sendo a Palavra viva do Pai, aquela Palavra que entrou na história, fez morada entre nós e permanece caminhando com seu povo. As Diretrizes recordam que é Cristo quem anunciamos e testemunhamos, para que, também no hoje da nossa história, o Reino de Deus continue acontecendo entre nós.
Essa certeza muda completamente o horizonte da missão. Evangelizar deixa de significar apenas transmitir um ensinamento religioso para tornar-se o testemunho de uma presença. A Palavra que proclamamos não é uma ideia. É uma Pessoa. É Aquele que continua encontrando os desanimados no caminho, aproximando-se dos que sofrem, devolvendo dignidade aos esquecidos e reacendendo a esperança onde parecia existir apenas escuridão.
Talvez por isso, logo nas primeiras páginas, as Diretrizes nos conduzam a um movimento profundamente evangélico. Antes de indicar caminhos pastorais, convidam-nos a reencontrar uma atitude que sempre esteve na origem da missão da Igreja. A escuta. Toda verdadeira proclamação nasce de um coração que primeiro se deixou alcançar pela Palavra. Antes de anunciar é preciso ouvir. Antes de ensinar é necessário aprender. Antes de responder torna-se indispensável acolher as perguntas que brotam da vida concreta das pessoas e reconhecer nelas os sinais discretos da presença de Deus.
Não por acaso, esse documento nasce da experiência sinodal que a Igreja viveu nos últimos anos. Ele é fruto de uma comunidade que rezou, dialogou, discerniu e caminhou junta, compreendendo que o Espírito Santo continua falando através da escuta recíproca e do encontro entre os irmãos. A sinodalidade, tão presente nas Diretrizes, não aparece como uma simples metodologia de organização pastoral. Ela revela um modo de ser Igreja. Caminhar juntos deixa de ser uma estratégia e torna-se uma espiritualidade.
À medida que percorremos o documento, percebemos que o olhar da Igreja vai sendo delicadamente deslocado. O centro deixa de repousar apenas sobre aquilo que fazemos e volta a repousar sobre aquilo que somos. Antes das estruturas aparecem as pessoas. Antes das agendas surge a comunhão. Antes das atividades reencontra-se a experiência do encontro com Cristo. É justamente dessa ordem interior que nasce toda fecundidade missionária.
Por essa razão, as Diretrizes não apresentam uma sucessão de iniciativas independentes entre si. Elas desenham, pouco a pouco, o rosto de uma Igreja que deseja viver de modo cada vez mais coerente com o Evangelho. Uma Igreja que escuta antes de responder porque acredita que Deus continua falando à sua comunidade. Uma Igreja que fortalece pequenas comunidades onde a fraternidade pode florescer. Uma Igreja que devolve à Palavra de Deus o lugar central de toda a vida eclesial. Uma Igreja que celebra a liturgia como verdadeira experiência do Mistério. Uma Igreja que compreende o cuidado das pessoas mais vulneráveis e da Casa Comum como consequência natural da fé professada. Todos esses caminhos convergem para um único horizonte que consiste em tornar Cristo visível no meio do seu povo.
Essa percepção devolve também novo significado à própria evangelização. Evangelizar não consiste simplesmente em comunicar conteúdos da fé. Significa permitir que o Evangelho alcance novamente as alegrias e as dores da existência humana. Significa aproximar a Palavra da vida, para que ela ilumine as escolhas, cure as feridas, reconstrua vínculos e desperte esperança. A Palavra somente revela toda a sua força quando deixa de permanecer apenas nos livros e passa a ser reconhecida na vida daqueles que a acolhem.
É justamente por isso que o documento recoloca a Animação Bíblica da Pastoral no coração da missão. A Palavra não pode ocupar um espaço secundário na vida da Igreja. Ela precisa inspirar a catequese, iluminar a liturgia, fortalecer os círculos bíblicos, fecundar a piedade popular, orientar os processos formativos e alimentar a vida cotidiana das comunidades. Quando a Palavra volta a ocupar o centro, toda a Igreja reencontra também o centro da sua própria existência.
Pouco a pouco, o texto nos faz compreender que anunciar Cristo implica também tocar as feridas da humanidade. O Evangelho nunca separa o anúncio da proximidade. A Palavra que ilumina é a mesma que consola. A fé celebrada é a mesma que se transforma em serviço. A oração conduz inevitavelmente ao cuidado com a vida.
Por isso, o compromisso com as fragilidades das pessoas e da Casa Comum ocupa lugar tão significativo nas Diretrizes. A Igreja é continuamente enviada ao encontro daqueles que mais necessitam experimentar a ternura de Deus. O pobre, o enfermo, a família marcada pelo sofrimento, o jovem desorientado, o idoso esquecido, a criança vulnerável e toda a criação ferida tornam-se destinatários privilegiados de uma Igreja que deseja fazer da misericórdia um modo permanente de viver o Evangelho.
Entre tantas imagens que enriquecem este documento, talvez nenhuma seja tão delicada quanto a da Igreja compreendida como uma tenda. A Palavra fez-se carne e armou sua tenda entre nós. Agora somos convidados a alargar continuamente esse espaço para que ninguém permaneça do lado de fora. A tenda acolhe, protege, reúne e faz nascer novamente o sentido da pertença. Em uma sociedade acostumada a levantar muros, a Igreja é chamada a estender tendas.
Que imagem profundamente necessária para o nosso tempo. Enquanto tantas vozes alimentam divisões, somos chamados a construir comunhão. Enquanto cresce a cultura da indiferença, somos enviados a cultivar proximidade. Enquanto muitos caminham sem esperança, a comunidade cristã continua anunciando que Cristo permanece vivo e continua caminhando com seu povo.
Ao concluir sua mensagem, Dom Walmor Oliveira de Azevedo retoma o convite de Jesus a Pedro para avançar em águas mais profundas. Não se trata apenas de uma bela expressão bíblica. Nela está condensado o espírito das novas Diretrizes. Somos convidados a abandonar o conforto das margens para confiar novamente na força da Palavra. Somos chamados a lançar as redes não porque dominamos todas as respostas, mas porque acreditamos naquele que continua conduzindo a barca da Igreja através da história.
Talvez seja essa a mais bela contribuição que este documento oferece à nossa Arquidiocese. Ele nos recorda que a missão da Igreja nunca começa nas estruturas. Ela começa no coração convertido de homens e mulheres que voltam a escutar a voz do Senhor. Começa quando redescobrimos a alegria de caminhar juntos. Começa quando a Palavra deixa de ser apenas proclamada e passa a ser vivida.
Proclamar a Palavra continuará sendo muito mais do que anunciar um texto sagrado ou transmitir uma doutrina. Será permitir que a própria vida se torne Palavra viva para o mundo. Será fazer com que nossas comunidades falem antes mesmo de pronunciarem qualquer discurso. Falem pela acolhida, pela comunhão, pelo serviço, pela misericórdia e pela esperança.
Se estas novas Diretrizes conseguirem conduzir-nos novamente a esse lugar, terão realizado muito mais do que organizar nossa ação evangelizadora. Terão ajudado nossa Igreja Particular a reencontrar a beleza de sua própria identidade. Talvez esta seja a mais profunda de todas as evangelizações. Não apenas anunciar Cristo ao mundo, mas permitir que o mundo volte a reconhecê-Lo no modo como sua Igreja vive, serve, ama e caminha.
Que Maria, Senhora da Piedade, discípula da Palavra e Mãe da esperança, acompanhe os passos da Arquidiocese de Belo Horizonte neste novo tempo missionário. Que o Espírito Santo continue fecundando nossas comunidades com a alegria do Evangelho e sustentando nossa caminhada, para que, conduzidos pela Palavra que se fez carne e permanece entre nós, possamos anunciar com a vida aquilo que professamos com os lábios.
Diác. Érico Vinicius de Souza Marques
Diácono Permanente da Arquidiocese de Belo Horizonte