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Domingo da Misericórdia: quando a paz de Cristo confronta as feridas do mundo

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No segundo domingo da Páscoa, a Igreja nos conduz ao coração pulsante do mistério cristão, a misericórdia. Não como um conceito abstrato, mas como presença viva e encarnada, que atravessa portas fechadas, rompe medos e se apresenta como resposta às feridas mais profundas da humanidade. É o Cristo Ressuscitado que entra no cenáculo, lugar marcado pelo medo, pela culpa e pela incerteza  e pronuncia uma palavra que ecoa através dos séculos: “A paz esteja convosco.”

Diante disso, somos interpelados: que paz é essa, em um mundo marcado por guerras e divisões?

Vivemos tempos em que os conflitos não são apenas geopolíticos, mas também existenciais. As guerras que presenciamos são reflexo de tantas outras guerras silenciosas que se travam no cotidiano. A indiferença que fere, o egoísmo que exclui, a violência que se banaliza e a fé que, por vezes, se fragiliza. A humanidade apresenta-se ferida, marcada por relações quebradas, por uma crescente perda de sentido e por uma perigosa insensibilidade diante do sofrimento do outro.

É nesse contexto que a mensagem pascal revela toda a sua força transformadora.

O Ressuscitado não retorna com palavras de condenação ou vingança. Não exige explicações, nem cobra dos discípulos a sua ausência no momento da cruz. Ele retorna trazendo consigo as marcas da paixão. Mostra as suas chagas e, ao mesmo tempo, comunica o Espírito Santo, o sopro da nova criação. Aquele mesmo sopro que, no princípio, deu origem à vida, agora recria a humanidade ferida. A paz que Cristo oferece não é a simples ausência de conflitos, mas a presença de sentido, de reconciliação e de vida nova que brota da misericórdia.

A paz de Cristo não ignora a dor, ela a transforma.

À luz da Campanha da Fraternidade, somos lembrados de uma verdade essencial: “Ele está no meio de nós.” Não como uma ideia distante, mas como presença concreta que se manifesta nas realidades humanas. Ele está entre os que sofrem, os que choram, os que resistem. Está nas periferias, nos hospitais, nas famílias fragilizadas, nas juventudes que buscam sentido. E está também na Igreja, quando esta se deixa configurar como sinal vivo da misericórdia de Deus.

Entretanto, há um risco que precisa ser reconhecido: o de vivermos uma fé acomodada, que celebra a Ressurreição sem se comprometer com as feridas do mundo.

É nesse ponto que a figura do apóstolo Tomé se torna profundamente atual.

Tomé não se contenta com o testemunho dos outros. Ele deseja ver, tocar, experimentar. Sua atitude não é simples incredulidade, mas expressão de uma busca sincera pela verdade. E Jesus, em sua infinita misericórdia, não o rejeita. Ao contrário, vai ao seu encontro e o convida: “Põe aqui o teu dedo… não sejas incrédulo, mas fiel.”

Tomé representa cada um de nós quando vacilamos, quando buscamos sinais, quando desejamos compreender mais profundamente o mistério da fé. Sua experiência nos ensina que a verdadeira fé não nasce da ausência de dúvidas, mas do encontro pessoal e transformador com o Ressuscitado.

E, diante desse encontro, resta apenas a entrega:

“Meu Senhor e meu Deus!”

Essa profissão de fé é mais do que uma declaração. É um reconhecimento profundo de quem encontra sentido mesmo em meio ao caos. É o testemunho de quem, ao tocar as feridas de Cristo, compreende que Deus não está distante da dor humana, mas a assumiu e a redimiu.

Diante disso, a comunidade cristã é chamada a não permanecer como mera espectadora da história. Ao contrário, é convidada a uma atitude de ousadia evangélica.

Ousadia para viver a misericórdia.
Ousadia para construir a paz.
Ousadia para tocar as feridas do mundo, sem medo de se aproximar do sofrimento humano.
Ousadia para anunciar, com a própria vida, que a vida venceu a morte.

Celebrar o Domingo da Misericórdia é, portanto, assumir um compromisso concreto.

É entrar nos “cenáculos” do nosso tempo, marcados pelo medo, pela violência e pela desesperança, e ali levar a paz do Ressuscitado.
É permitir que o Espírito Santo continue sendo soprado por meio de nossas atitudes.
É reconhecer que Cristo permanece no meio de nós e que sua presença exige resposta, compromisso e testemunho.

Em um mundo que ainda insiste em produzir morte, a misericórdia torna-se caminho de resistência.
Em uma sociedade que banaliza a dor, a compaixão revela-se como verdadeira revolução.
Em um tempo marcado por dúvidas e incertezas, a fé encarnada se torna testemunho vivo.

Como Tomé, também nós somos convidados a tocar as feridas. Não para permanecer na dúvida, mas para amadurecer na fé.

Porque somente aqueles que se deixam tocar pela dor do mundo são capazes de proclamar, com verdade e esperança:

Meu Senhor e meu Deus.

Diácono Érico Vinicius de Souza Marques
Arquidiocese de Belo Horizonte