Paróquia

Catedral Cristo Rei

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Entre o Céu e a Terra: a esperança cristã que atravessa as dores do nosso tempo

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Vivemos um tempo marcado por profundas inquietações. Em muitas famílias, a insegurança substituiu a serenidade. Em muitos corações, o medo parece ter ocupado o lugar da esperança. Crescem as possibilidades de comunicação, mas multiplicam-se as experiências de solidão. Somos testemunhas de um mundo que avança em conhecimento e tecnologia, mas que continua carregando as feridas da violência, da exclusão, da pobreza, das enfermidades da alma e da dificuldade de construir relações verdadeiramente humanas.

É precisamente neste contexto que a liturgia da Igreja nos oferece um itinerário espiritual de extraordinária riqueza. Da Ascensão do Senhor até o retorno ao Tempo Comum, passando por Pentecostes, pela Solenidade da Santíssima Trindade, pelo Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo e pelo Sagrado Coração de Jesus, somos convidados a contemplar a presença amorosa de Deus que continua acompanhando a história humana.

A Ascensão do Senhor não representa a ausência de Cristo, mas a plenitude de sua presença. Ao retornar ao Pai, Jesus não abandona a humanidade que assumiu. Pelo contrário, abre para todos os homens e mulheres o horizonte da vida eterna e da comunhão definitiva com Deus. Santo Agostinho, refletindo sobre este mistério, ensina: “Ele não se afastou do céu quando desceu até nós, nem se afastou de nós quando subiu novamente ao céu” (Sermão 263). A Ascensão nos recorda que nossa existência não está limitada pelos horizontes estreitos da história presente. Em tempos marcados pelo desânimo e pela desesperança, ela proclama que o destino último da humanidade não é o fracasso, mas a participação na própria vida de Deus.

Os discípulos, entretanto, não recebem imediatamente todas as respostas para suas inquietações. Após a Ascensão, permanecem reunidos em oração, experimentando ainda suas fragilidades e incertezas. É nesse contexto que se realiza Pentecostes. O Espírito Santo desce sobre a comunidade reunida e transforma o medo em coragem, a dispersão em comunhão e o fechamento em missão. São Basílio Magno afirma que, pela ação do Espírito Santo, somos “restabelecidos no paraíso, elevados ao Reino dos Céus e reconduzidos à adoção filial” (De Spiritu Sancto, XV, 36). O Espírito continua sendo, para a Igreja e para o mundo, a força que reconcilia, que cura divisões e que torna possível a construção da fraternidade.

Tal realidade adquire especial significado em nossos dias. Vivemos cercados por discursos que frequentemente alimentam a polarização, a intolerância e a incapacidade de escuta. Pentecostes revela que a verdadeira renovação humana não nasce do confronto, mas da capacidade de reconhecer no outro um irmão ou uma irmã. O Espírito Santo não elimina as diferenças. Transforma-as em oportunidade de enriquecimento mútuo e comunhão.

A celebração da Santíssima Trindade aprofunda ainda mais esta compreensão. Ao contemplar o Pai, o Filho e o Espírito Santo, a Igreja não busca resolver um enigma teórico, mas adentrar o coração do próprio Deus. A revelação cristã mostra que Deus é comunhão perfeita de amor. Bento XVI ensinava que “o programa do cristão — o programa do bom samaritano, o programa de Jesus — é um coração que vê” (Deus Caritas Est, n. 31). Tal visão nasce justamente da participação na vida trinitária. Criados à imagem de Deus, somos chamados a viver relações marcadas pela reciprocidade, pela solidariedade e pelo cuidado. Em uma cultura frequentemente marcada pelo individualismo, a Trindade recorda que ninguém encontra a própria realização vivendo apenas para si mesmo.

O amor contemplado na Trindade torna-se concreto e visível na solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo. Na Eucaristia, Deus não apenas fala ao seu povo. Ele se oferece como alimento. São João Paulo II inicia sua encíclica sobre a Eucaristia com uma afirmação que se tornou referência para toda a Igreja: “A Igreja vive da Eucaristia” (Ecclesia de Eucharistia, n. 1). Nela encontramos a fonte e o ápice da vida cristã, como ensina o Concílio Vaticano II.

Em uma sociedade marcada por tantas formas de fome, fome de justiça, de sentido, de afeto, de dignidade e de esperança, Cristo continua oferecendo-Se como pão para a caminhada. Ao mesmo tempo, a Eucaristia nos recorda que o Corpo de Cristo não está presente apenas sobre o altar. Ele se faz reconhecer também naqueles que sofrem, nos pobres, nos enfermos, nos idosos, nos encarcerados e em todos os que experimentam as fragilidades da condição humana. A comunhão recebida exige tornar-se comunhão vivida.

A contemplação deste amor alcança uma de suas expressões mais profundas na solenidade do Sagrado Coração de Jesus. Em uma época marcada por tantas feridas emocionais, por relações fragilizadas e pela dificuldade de confiar, a Igreja volta o olhar para o coração aberto do Salvador. Na recente encíclica Dilexit Nos, o Papa Francisco recorda que “no Coração de Cristo podemos encontrar todo o Evangelho” (n. 89). Ali se manifesta o amor de Deus que não desiste da humanidade, que acolhe os pecadores, consola os aflitos e oferece sempre a possibilidade de recomeçar.

O coração transpassado de Cristo revela que Deus não permanece indiferente às dores humanas. Ele participa delas. Sofre com aqueles que sofrem. Caminha com aqueles que perderam o rumo. Sustenta aqueles que já não encontram forças para continuar. A espiritualidade do Sagrado Coração continua sendo uma resposta profundamente atual para uma humanidade sedenta de acolhimento, misericórdia e esperança.

Após estas grandes solenidades, a Igreja retorna ao Tempo Comum. Contudo, o adjetivo “comum” não significa ausência do extraordinário. Ao contrário, é justamente no cotidiano que os mistérios celebrados são chamados a produzir frutos. A esperança da Ascensão, a força de Pentecostes, a comunhão da Trindade, o alimento da Eucaristia e o amor do Coração de Cristo precisam tornar-se visíveis na vida concreta das comunidades cristãs.

É no cuidado com a família, na dedicação ao trabalho, na promoção da justiça, na atenção aos mais vulneráveis, na escuta dos que sofrem e no serviço humilde que a fé se torna testemunho. Para os diáconos, candidatos ao diaconato, suas esposas e famílias, esta realidade possui um significado ainda mais profundo. O ministério diaconal encontra sua identidade precisamente na capacidade de tornar visível, no meio do povo, a caridade de Cristo Servo.

As celebrações que marcam o encerramento do Tempo Pascal e o início do Tempo Comum oferecem uma mensagem particularmente necessária para os nossos dias. Elas nos recordam que Deus continua presente na história, mesmo quando as sombras parecem mais densas. A última palavra não pertence ao medo, à violência, à divisão ou à morte. A última palavra pertence ao amor revelado em Jesus Cristo, Ressuscitado, Glorificado junto do Pai, presente na ação do Espírito Santo, oferecido na Eucaristia e manifestado no seu Coração misericordioso.

Entre o céu da Ascensão e o chão da vida cotidiana, a Igreja continua sua peregrinação. E nela somos chamados a testemunhar que a esperança cristã não decepciona, porque nasce daquele que prometeu permanecer conosco todos os dias, até o fim dos tempos.

Diác. Érico Vinicius de Souza Marques
Diácono Permanente da Arquidiocese de Belo Horizonte