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Uma liturgia para 2014

 

 

No dia 4 de dezembro de 2013, a Constituição Conciliar Sacrosanctum Concilium, sobre a Sagrada Liturgia, completou 50 anos. O documento é o primeiro a sair da aula conciliar para todo o povo, mais maduro, mais aprofundado, mais preparado, não obstante as infundadas opiniões em contrário. A reforma da Igreja recebe assim seu decisivo impulso, que torna as celebrações mais próximas do Povo de Deus, há tanto exilado da possibilidade de participar plenamente dos mistérios de seu Senhor. De lá para cá fica cada vez mais nítido o papel da liturgia na renovação eclesial e a força da liturgia para promover mudanças na vida da Igreja.

Cinquenta anos depois, cumpre pensar em uma liturgia que traga o frescor do Concílio Vaticano II e que seja semper reformanda (sempre em reforma), pois se assim o é a Igreja, assim deverá ser sua maior manifestação. O Consilium para a execução da reforma que se segue, trata de empreender uma mudança que recuperasse o espírito genuíno da liturgia romana, a partir das fontes mais antigas, voltando ao século IV, tempo da liturgia romana pura, até antes disso, para resgatar o que a Tradição, mais genuína oferecia.

 

Cumpre questionar, após cinquenta anos de desencadeada a reforma, qual liturgia queremos para o nosso tempo, em sintonia com os esforços do Concílio

A árdua tarefa devolve, em linguagem ritual, simbólica, e em textos, o que o Documento Conciliar havia emanado por meio de princípios teológicos e normas práticas. Desencadeado o processo, paralelamente iniciou-se outro grande empreendimento: a recepção da reforma nas diversas nações e Igrejas particulares. Entre luzes e sombras, atingimos meio século de caminhada, buscando fazer jus ao esforço dos grandes nomes do Movimento Litúrgico, dos padres conciliares, muitos dos quais ainda vivos, e dos que ansiaram por sentir tal frescor do sopro do Espírito sobre a Igreja.

Cumpre questionar, após cinquenta anos de desencadeada a reforma, qual liturgia queremos para o nosso tempo, em sintonia com os esforços do Concílio. Seguem alguns apontamentos, a fim de deixar iluminar o caminho que se nos abre neste novo tempo:

– uma liturgia centrada em Cristo e em seu mistério. Celebrações que emanem da Palavra proclamada, dos sinais que comunicam e traduzem o evento cruz e ressurreição e que coloquem existência cristã em jogo de identidade com a vida do Senhor.

– uma liturgia do Povo de Deus que manifeste o sentido eclesial das celebrações, seja pelos cantos, pelos ritos, pela reunião da comunidade, pela volta ao gosto de celebrar (ars celebrandi = arte de celebrar) tão essencial aos ministérios.

– uma liturgia participada em sentido profundo, capaz de conduzir ao evento da salvação por meio do véu dos sinais. Liturgias que prefiram a ritualidade ao ritualismo, celebrações ao cerimonialismo, o silêncio ao barulho, a adoração ao espetáculo, a escuta ao falatório, a docilidade à arrogância. Celebrações que abram espaço para a participação de Deus…

– uma liturgia que ajude a rezar, a inclinar o coração e a erguer das prostrações. Que mergulhe na morte para emergir para a vida, que alcance pelo exterior dos sentidos o interior do coração humano, o interior do coração da comunidade crente.

– uma liturgia que saiba olhar para o retrovisor do passado sem perder de vista o para-brisa do presente e do futuro, sem as nostalgias vazias (modismo) de quem não experimentou o peso de um culto indiferente à cultura, aos fiéis, às mulheres e crianças, ao grito dos pobres, ao mundo com suas urgências e aos sinais de Deus na vida e na história.

– uma liturgia que nos impulsione para a missão junto aos mais fracos, feridos e perdidos. Que torne nosso coração capaz de se compadecer do mundo e não condená-lo, vendo nele a obra criadora de Deus, amada e cheia de bondade e beleza.

– uma liturgia que nos faça olhar e gritar profeticamente a maldade, a injustiça, a falta de pão e de bondade, a falta de vontade de partilhar e de ser solidário, a insensibilidade que ressecam e esterilizam a história da humanidade.

– uma liturgia do Espírito que faça arder o coração e traga o frescor do Evangelho de Jesus para dentro da vida. Que nos fortaleça a dignidade e a liberdade de filhos no Filho Amado de Deus e nos faça clamar como infantes do Reino, Abbá – Pai!

– uma liturgia mais perto de Jesus, o homem de Nazaré, crucificado por causa de sua mensagem e missão, mas ressuscitado por sua obediência ao Pai. Uma liturgia da mesa, familiar, festiva e significativa por não temer seguir o caminho da encarnação que nos propôs o Filho de Deus.

Uma liturgia assim, só poderá se realizar algum dia se sonhada agora. Será mais que uma liturgia para 2014. Será uma liturgia para o futuro, mas que pode começar pela ação e pelo sonho, hoje.

 

Pe. Danilo CésarLima
Liturgista