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[Artigo] Tu és o Cristo de Deus (2) – Padre Márcio Pimentel, Secretariado Arquidiocesano de Liturgia de BH

Dentre os títulos que Jesus recebeu, o mais conhecido e usado, a ponto de se unir ao seu nome próprio, à moda de sobrenome, é Cristo. A Liturgia advoga seu uso em grande parte de sua eucologia. O recurso litúrgico – desde as origens do cristianismo – foi responsável por difundir as titulações de Jesus. Tradições se formaram em torno de cada título e, ainda que não seja o mais antigo , sem dúvidas foi o termo “Christós” que marcou definitivamente a imagem de Jesus de Nazaré, bem como a recepção de sua pessoa e mensagem e a caracterização de sua existência inteira. Isso se dá, sobretudo, porque este título está “associado à essência da mensagem cristã primitiva: a morte e ressurreição de Jesus.”

Christós é a palavra grega que – em geral – traduz o hebraico Mashiah . Se em grego aparece claramente o significado de “ungido”, em hebraico, porém, a terminologia indica algo além.  Dizer que alguém é “Messias” implica reconhecer sobre “aquele sobre o qual foi derramado” uma delegação por parte de Deus (e por isso a unção) para cumprir uma tarefa importante, sobretudo do ponto de vista régio e sacerdotal , sem esquecer do aspecto profético. O que importa para nós, no entanto, é que  “O Messias”, não simplesmente “um ungido”, era, geralmente , na espera popular do tempo de Jesus, uma figura régia, sobretudo davídica.”

A afirmação e reconhecimento de Jesus como Christós/Mashiah está ligada à tradição discipular e não parece proceder diretamente da boca de Jesus. Nos evangelhos vemos Simão Pedro confessar que Jesus é o Messias, o Cristo de Deus , mas sabemos que ele, se não rejeita o título, tem certos receios com relação ao seu emprego. Referimo-nos aqui ao denominado “segredo messiânico”. Jesus não queria ser consignado e confundido com a expectativa popular que se tinha do Messias Rei e Guerreiro. Os estudiosos costumam atribuir este cuidado a Jesus mesmo, sendo mais do que um artifício dos autores sinóticos. Isso se explica porque

No tempo de Jesus, a expectativa messiânica assumia diversas modalidades. Parece que predominava a interpretação nacionalista e política da figura do Messias. Havia, porém, outras interpretações: o Messias esperado como mestre da lei, como sumo sacerdote escatológico, como profeta Elias redivivo, como o Filho do Homem, como servo etc.

Contudo, dado o sucesso do uso deste título entre os cristãos das origens, em especial do uso e abuso que Paulo faz do termo a ponto de referir-se à pessoa de Jesus simplesmente chamando de Cristo (quando começa-se a empregar o título como nome próprio), é importante verificarmos em que sentido Jesus é Cristo/Messias. Sobretudo porque em nossas celebrações, dia após dia, reiteramos este uso e – também – levamos conosco esta mesma designação: cristãos. Conforme reza a Oração do Dia do 15º Domingo do Tempo Comum, somos chamados a “rejeitar o que não convém ao cristão, e abraçar tudo o que é digno deste nome”. Mas, para isto, será preciso mergulharmos com bastante exatidão no sentido partícula com o qual a Igreja – já nos evangelhos – aplicou este título a Jesus de Nazaré.

Padre Márcio Pimentel, presbítero da Arquidiocese
de Belo Horizonte, membro do Secretariado
Arquidiocesano de Liturgia, doutorando em Liturgia
Pastoral pelo Instituto de Liturgia Pastoral da
Abadia de Santa Justina em Pádova-Itália