Santuário Arquidiocesano

Ermida da Padroeira de Minas - Basílica da Piedade

08h

15h
09h
15h
09h
15h
09h
15h
09h
15h
09h
15h
09h
15h

Basílica Estadual das Romarias

Domingo
09h30
11h
16h30

Artigo de dom walmor

Você está em:

Primaverar a cidadania

A chegada da primavera nestas terras tropicais pode não transmitir impacto semelhante àquele vivido nas regiões de inverno rigoroso, mas guarda a cadência de uma beleza que se constrói suavemente e se mantém. Essa beleza não sai de cena. Revela-se, em alguns momentos, de modo mais suave. Em outros, mais fortemente, produzindo flores e frutos. Tomada como metáfora, a primavera, estação em que as belezas se revelam com maior força, precisa inspirar o momento atual da sociedade brasileira: é tempo de primaverar a cidadania. Trata-se de uma interpelação a ser acolhida por todos que, assumindo a condição de aprendizes, fecundados pela silenciosa generosidade da Criação de Deus, possam trabalhar pelo desenvolvimento integral, alicerçado em um novo humanismo.

O compromisso com a primavera da cidadania ultrapassa a importante dedicação ao processo eleitoral, à escolha de candidatos. Mas, evidentemente, inclui a responsabilidade de submeter ao crivo de juízo clarividente as escolhas que serão efetivadas nas urnas. Afinal, para além de paixões partidárias, é preciso identificar nomes que possam contribuir para a efetivação da primavera da cidadania. Agora, o convite especial é para reconhecer que a primavera da natureza é uma universidade que possibilita muitos aprendizados. Suas lições convocam à simplicidade que derruba o orgulho e a soberba – alicerces da violência – ao resgate da doçura revelada no sentido intrínseco de generosidade – o bem que se faz ao semelhante. Indispensável é ser aprendiz dessa universidade, para revestir a mente, a razão e o coração com gestos e posturas que possam produzir os frutos da solidariedade universal e da amizade social. Primaverar a cidadania inclui, assim, promover o bem com atitudes, desempenhos, projetos e dinâmicas organizacionais – das realizações mais simples àquelas mais engenhosas e trabalhosas.

A promoção do bem pede que cada pessoa respeite princípios humanísticos e cristãos, para que não sejam perdidos os rumos que levam a reconhecer valores inquestionáveis e inegociáveis. Preciosas referências estão reunidas na Carta Magna que fundamenta o adequado exercício da cidadania brasileira, a Constituição Federal. Chamada de Constituição Cidadã, a Carta Magna inspira a participação ampla da população na busca pelo bem comum, forjando novos entendimentos. A aplicação do que determina a Constituição Federal ainda constitui um horizonte desafiador e buscá-lo é essencial para primaverar a cidadania brasileira. A Carta Magna brasileira pede adequada interpretação, efetiva e destemida aplicação, com força transformadora, por respeito ao bem comum, para impulsionar a justiça, o direito e a verdade, considerando sempre como prioridade os pobres, indefesos e vulneráveis. A adequada interpretação e aplicação da Constituição pede qualificação humanística, desmontando posturas cartoriais e oligárquicas, a partir do compromisso com a igualdade social, em um caminho que merece, urgentemente, a dedicação dos cristãos.

A herança cristã bimilenar disponibiliza indicações, princípios e experiências com força para inspirar o urgente primaverar da cidadania. O apóstolo Paulo, para exemplificar, lembra que os filhos de Deus foram agraciados pela palavra da reconciliação. Em um mundo que precisa de paz, os cristãos testemunham a fé exercendo o serviço da reconciliação, que inclui a promoção do entendimento, do diálogo e da ação sapiencial para corrigir rumos – implementar processos que marcam a sociedade com o sabor do Evangelho. Revisitar a herança cristã é trilhar o caminho da qualificação humanística, articulando saberes – do espiritual ao emocional, para garantir lucidez nas muitas frentes de trabalho e alavancar o bem comum. Uma preciosa indicação de investimento humanístico-espiritual é deixar-se interpelar, sempre, pela Carta Magna do cristianismo: o Sermão da Montanha, narrado por Mateus nos capítulos cinco a sete de seu Evangelho. Uma dinâmica formativa essencial para os cristãos, para todos aqueles que se convencem da necessidade e da urgência de primaverar a cidadania.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte
Presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil(CNBB)

Ilustração: Jornal Estado de Minas