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Artigo de dom walmor

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Heranças de Bento XVI

O ser humano é epifania da grandeza do inesgotável amor de Deus. Uns mais que outros revelam a plenitude deste amor e todos têm a oportunidade de construir a própria história de vida como revelação do seu Criador e Redentor. Tudo isso se faz pela ação do Espírito Santo de Deus, aquele que, como ensina São Basílio Magno, no terceiro século, está presente em cada um dos que são capazes de recebê-lo, concedendo a todos as graças necessárias. São Basílio lembra que pelo Espírito Santo os corações são elevados ao alto, os fracos são conduzidos pela mão, os que progridem na missão chegam à perfeição. A cada indivíduo não basta a própria força, pois o ser humano precisa sempre do amor de Deus. Ora, nem mesmo a grandeza da razão supera a grandeza do amor, capaz de fecundar a existência, iluminar o viver humano em todos os seus processos.  Por isso mesmo, as heranças legadas pelo Papa Bento XVI à humanidade, importantes na semeadura do amor, despertam especial reverência.

No amplo horizonte das heranças de Bento XVI, vale homenageá-lo revisitando o seu discurso inaugural da 5ª Conferência Geral do Episcopado Latino-americano e Caribenho, celebrada em maio de 2007, no Santuário Nacional Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do Brasil. Uma contribuição magistral. As palavras de Bento XVI, sempre atuais, nortearam a intuição de todos que se dedicaram à Conferência de Aparecida, primeiramente em razão do tema escolhido: “Discípulos e missionários de Jesus Cristo, para que nossos povos Nele tenham vida – ‘Eu sou o caminho, a verdade e a vida’”. Naquele importante momento que inaugurou um acontecimento marcante na vida da Igreja, Bento XVI apontou um caminho. Essa direção indicada, a partir da magistral sensibilidade do Papa Francisco, tem levado a Igreja, na atualidade, a investir para ser sempre e cada vez mais sinodal – Igreja de comunhão, de participação e de missão, que ajuda o mundo contemporâneo a encontrar respostas para os problemas atuais, a partir da vivência e do testemunho autêntico da fé cristã.

No discurso inaugural da Conferência de Aparecida, o Papa Bento XVI derramou a grandeza de sua alma, a nobreza de seu jeito de ser, com indicações e juízos que confirmam a sua sensibilidade pastoral de profunda relevância. Fez frente, deve ser lembrado, aos agouros direcionados à Conferência, daqueles que a enxergavam como ameaça de retrocesso para o caminho missionário da Igreja. Ao invés disso, aquele acontecimento delineou um horizonte largo e inspirador, ainda por ser explorado e vivido, desafiando a Igreja a contribuir, ainda mais, à luz da fé, para que todos se reconheçam protagonistas. Ali, o Papa Bento XVI parte de uma constatação preciosa, em referência à fé em Deus que animou a vida e a cultura dos povos latino-americanos e caribenhos, já por mais de cinco séculos. A vida dos povos latino-americanos e caribenhos, assim, ganhou feições nascidas a partir do encontro da fé cristã com as riquezas culturais das etnias originárias, fazendo surgir um valioso patrimônio da arte, da música, da literatura e das tradições religiosas.  O reconhecimento dessa realidade permite considerar a importância da fé cristã para superar os desafios contemporâneos e garantir a todos os povos uma vivência alegre e coerente com o Evangelho.

Todos são igualmente chamados a se reconhecerem discípulos de Cristo, compreendendo que a fé cristã não é alheia ou um contraponto às diferentes culturas. Ao contrário, trata-se de resposta ansiada no coração de diferentes culturas, que possibilita a união da humanidade a partir do amor, que leva ao respeito das muitas diversidades. A fé cristã, vivida com autenticidade, assim, promove o crescimento de todos na verdadeira humanização, no autêntico desenvolvimento integral. Ainda sobre a pluralidade cultural da América Latina e Caribe, a Conferência de Aparecida focalizou o grande mosaico da religiosidade popular, precioso tesouro da Igreja Católica, merecendo o seu cuidado, proteção e adequado tratamento. Em síntese, saber balizar o próprio horizonte a partir do que significa ser discípulo de Jesus é redescobrir a “mina de ouro” da tradição cristã.

Profeticamente, o Papa Bento XVI afirmou que só reconhece a Deus quem conhece a realidade, respondendo-a de modo adequado, humano. Deve-se reconhecer o fracasso de todos os sistemas que colocam “Deus entre parêntesis”, conforme adverte o Documento de Aparecida, inspirado nos ensinamentos de Bento XVI. A observação da realidade confirma o que diz o Documento, bastando considerar que sem um consenso moral sobre os valores fundamentais a serem defendidos, até mesmo com a renúncia de interesses pessoais, agravam-se problemas sociais e políticos. E Bento XVI, na Conferência de Aparecida, advertiu: onde Deus está ausente, estes valores não se mostram com toda a sua força nem se produz um consenso sobre eles. Com essa clareza, a Igreja busca se sacramentar sempre como advogada da justiça e dos pobres, precisamente ao não se identificar com os políticos, nem com os interesses de partidos.

Papa Bento XVI, no seu discurso inaugural da Conferência de Aparecida, dedicou-se a muitos outros temas relevantes, com lucidez intelectual e sensibilidade singular, sendo força decisiva para a riqueza do muito atual Documento de Aparecida. Sua presença e sua palavra pavimentaram a estrada que o Documento configura, com indicações para o novo tempo que precisa ser construído – um compromisso de fé e de qualificada cidadania. As lições da Igreja que aproximam o ser humano de Deus nutrem as esperanças da humanidade. No conjunto dessas lições estão as heranças de Bento XVI.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte
Presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB)

 

Ilustração: Jornal Estado de Minas