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Artigo de dom walmor

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Diálogos pelo bem maior

Tecer redes de diálogos pelo bem maior é uma responsabilidade que precisa envolver cidadãos e cidadãs, considerando a urgente necessidade de superar problemas sociais.  A sociedade é complexa e requer dinâmicas essenciais para o resgate de valores capazes de substituir cenários abomináveis – dentre eles a desigualdade social e violência crescente.  Especificamente, é preciso superar a “babel” contemporânea. Essa “babel” é resultado de uma inabilidade generalizada para se lidar com o conjunto de subjetividades, de perspectivas de grupos e instituições, que constituem a sociedade. Na ausência de parâmetros inegociáveis, muitos deles detalhados na Doutrina Social da Igreja, não se avançará no estabelecimento de diálogos pelo bem maior. Ao invés disso, prevalecerá a mágoa que estimula reações de vingança ou desencadeia a indiferença. Serão naturalizadas atitudes egoístas que levam a perdas de tudo que já foi conquistado para o bem de todos. Na pluralidade de perspectivas, urgente é investir em referências capazes de alinhar entendimentos, em vista de diálogos pelo bem maior.

A busca pela consolidação dessas referências é caminho longo, mas também um amplo horizonte, que precisa enfatizar a importância de cada pessoa cultivar em si um coração de paz. Viver em “pé de guerra”, conforme se diz popularmente, impede o diálogo essencial ao alcance do bem maior. Esse bem, construído a partir de corações da paz, remedia desencontros, ajusta entendimentos e produz uma compreensão capaz de reconhecer que a vida se arquiteta a partir de ciclos que se abrem e se fecham. Nesse sentido, aqueles que cultivam coração de paz capacitam-se para bem escutar o conselho de Jesus aos seus discípulos, ante as muitas labutas e conquistas da vida. Todos, orienta o mestre, devem se considerar servidores, e, como simples servos, dizer com alegria: “Fez-se o que se devia fazer”.   Assim, um sentimento saudável fecunda o ciclo novo que se abre, inspira diálogos para o bem maior.

A contribuição cidadã para que sejam constituídos diálogos essenciais ao bem maior exige profundo respeito a cada pessoa. Trata-se de condição inegociável para se promover a paz, levando à urgente edificação de alicerces para sustentar um autêntico humanismo integral. A construção de um futuro mais sereno depende essencialmente desta atitude de cada pessoa: cultivar um coração de paz. Essa atitude não constitui simplesmente uma ação política, também não se trata apenas de civilidade emoldurada pela nobreza de atos, posturas e ditos. A paz no coração humano é efeito da ação divina, um dom de Deus. Há uma lógica moral inscrita na interioridade de cada pessoa que ilumina a existência, inspira a convivência entre os povos, determinantemente contribuindo para que sejam efetivados diálogos promotores do bem maior.

Só dialoga para o bem quem considera “cláusula pétrea” o princípio da igualdade essencial entre os seres humanos – todos filhos e filhas de Deus. Essa dignidade comum é, pois, alicerçada em uma pedra transcendente que não permite atitudes e sentimentos discriminatórios, excludentes, em nenhuma circunstância. Assim, se percebe que não basta simplesmente buscar ganhos individuais, desconsiderando o próximo. No conjunto de ensinamentos da Igreja Católica inscreve-se a convicção de que, na raiz das inúmeras tensões que ameaçam a paz, estão justamente as incontáveis situações de injustiça. Os diálogos pelo bem maior, capazes de tecer a paz, precisam ultrapassar interesses de grupos, o atendimento de “caprichos” pessoais ou partidários, para verdadeiramente priorizar o que gera igualdade e fraternidade. Para isso, cada pessoa deve incomodar-se com as perversas desigualdades no acesso a bens essenciais – comida, água, casa, saúde, dentre outros. Superar essas desigualdades que ferem os direitos humanos é a prioridade quando se pensa em diálogos pelo bem maior, que são essenciais à “ecologia da paz”.

A Doutrina da Igreja focaliza, ao lado do conceito de ecologia relacionado à natureza, a ecologia humana, vinculada ao contexto social, que para ser bem cuidado exige adequadas políticas públicas. E o coração de paz de cada pessoa é insubstituível para enfrentar, colaborativamente, os desafios deste tempo, na contramão das polarizações, do fechamento ao diálogo e da mesquinha defesa dos próprios interesses. Cada pessoa, esperançosamente, cultive um coração de paz, inspirando diálogos pelo bem maior.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte
Presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB)

Ilustração: Jornal Estado de Minas