Santuário Arquidiocesano

Ermida da Padroeira de Minas - Basílica da Piedade

08h

15h
09h
15h
09h
15h
09h
15h
09h
15h
09h
15h
09h
15h

Basílica Estadual das Romarias

Domingo
09h30
11h
16h30

Artigo de dom walmor

Você está em:

Cultivar a concórdia

“Amai-vos uns aos outros como eu vos amei,” o princípio do amor cristão está representado neste mandamento maior de Jesus Cristo, ensinado aos seus discípulos. Assim, cultivar a concórdia é um compromisso com esse princípio máximo da fé cristã: o apóstolo Paulo, neste horizonte, faz essa indicação como valor existencial e civilizatório de grande importância para o desenvolvimento integral da comunidade. Ao cultivar a concórdia cabem os dissensos, como processos de avaliação crítica e de juízos, com força construtiva para desenhos de horizontes largos e novos caminhos. Já na contramão da concórdia, corre-se o risco de haver barbáries e torna-se impossível a construção de projetos em comum. Cultivar a concórdia jamais significará, como popularmente se diz, “fazer vista grossa” para incongruências e prejuízos impostos a valores cristãos.

Os dissensos construídos como diálogos civilizados têm propriedades para depurar escolhas e promover os necessários consensos em torno da verdade, do bem, da justiça e da paz. Cultivar a concórdia assenta-se como ato humano e comunitário no compromisso com a verdade, com a vida, a justiça e a paz. Não se pode calar diante de escolhas e silêncios quando se trata da defesa da vida, em todas as suas etapas, isto é, da concepção ao declínio com a morte natural. Concórdia nunca será sinônimo de conivência. O respeito concedido ao outro não negocia as diferenças em termos de princípios e valores. Ora, neste horizonte, se desenham as escolhas, incluindo políticas, considerando-se a impossibilidade de se negociar o inegociável.

A concórdia, como valor evangélico primordial, fermento para o diálogo e relações civilizadas, não relativiza valores. A concórdia como qualidade espiritual e humana, importante no combate a violências e desrespeitos, não perde sua força ao assentar-se em princípios inegociáveis. O cultivo da concórdia propicia o relacionamento civilizado entre diferentes e até opostos, fecundando atos civilizatórios na contramão de barbáries e absurdos que atingem vidas, atrasam processos de desenvolvimento integral, acirram as desigualdades. A concórdia, na propriedade de seu significado, é indispensável no incremento das mudanças civilizatórias urgentes da contemporaneidade. Nunca jamais deve significar relativização de posturas éticas. O cultivo da concórdia permite diálogos entre diferentes, sem conivência de negociações que relativizem valores.

Na mais genuína tradição mística e espiritual do cristianismo, os cristãos sabem que não têm aqui cidade permanente, estão a caminho e, pelo caminho, têm a missão de marcar a sociedade, na qual se inserem e vivenciam a sua cidadania, com o sabor do Evangelho de Jesus Cristo. Por isso, sabe-se não ser o mundo um paraíso, mas caminho para o Reino de Deus. A convicção a respeito dos preceitos do Reino não permite relativizações e negociações espúrias. O bem maior há de valer sempre. E o cristão não foge ao embate do diálogo e do testemunho. A clareza a respeito das contradições no interior da sociedade lhe dá a possibilidade da concórdia e da firmeza, que não deixa espaço para negociações sobre o que é intocável. Um exemplo claro é a força dos valores evangélicos na contramão da ideologia de gênero, que força a entrada nos ambientes educativos e nas práticas culturais, ameaçando famílias. Sem belicosidade, em nome da concórdia que não é conivência ou um pactuar silencioso e omisso, está o exercício de narrativas que afirma as convicções cristãs, engaja-se em defesa dos princípios e, firmemente, faz escolhas de ordenamentos, de nomes na política e de práticas que perpetuem o compromisso com estes mesmos valores.

Cultivar a concórdia é uma urgência num tempo de violências diversificadas e aterrorizantes, como exercício civilizatório indispensável para não se fazer inóspita e beligerante a convivência, aumentando medos e pânicos, impulsionados por agressividades e juízos míopes de situações humanas. Reafirma-se que a concórdia, como bem evangélico e das civilizações, só se alicerça na fidelidade e vivência de um conjunto intocável de valores e princípios que precisam ser ensinados e praticados, narrados e testemunhados como aposta em um tecido cultural consistente e no pluralismo contemporâneo. Antes de se esvair no desatino de opiniões e subjetivismos, urgente é projetar no horizonte do cotidiano humano a reafirmação de princípios que fecundam e geram a força da concórdia.

A concórdia, para além de simples irenismo, é o caminho para a paz, construída na verdade, sem permitir que alguém dela se esquive, fugindo de diálogos esclarecedores. É preciso colocar sobre a mesa opções a serem confrontadas, cotidianamente, sobretudo em se tratando da representatividade popular. É hora de investir na concórdia como sinônimo da verdade e da paz, como ordem a ser respeitada e como compromisso com a justiça a ser promovida. Vale cultivar a concórdia como valor evangélico para fecundar o novo humanismo, esperado e urgido neste tempo.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte
Presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB)

 

Ilustração: Estado de Minas