Santuário Arquidiocesano

Santuário Arquidiocesano da Santíssima Eucaristia - Paróquia Nossa Senhora da Boa Viagem

07h

08h30
11h
18h
20h
07h
18h15
07h
12h15
18h15
07h
12h15
18h15
07h
12h15
18h15
07h
12h15
18h15
07h
18h15
Você está em:

DIÁRIO DOS ABRAÇOS – ABRAÇOS DE PAUSA – PARTE 1

🤗 MEU ESTIMADO AMIGO, vou ser sincero: preciso de pausa! Daquelas que não são impostas por uma doença, uma tragédia ou mesmo por um vírus pandêmico. Preciso da pausa que nasce de uma escolha, de uma tomada de decisão: parar e ficar sem nada para fazer a fim de refazer-me.

Preciso reordenar minhas coisas… minha pessoa… meu eu… meu sou … meu serei! Colocando, sempre e a cada dia, o que é essencial no centro e o que é secundário ao redor… e não o inverso. Como é fácil fazer algo secundário tornar-se fundamental e o fundamental secundário.

Por isso meus caros leitores, precisamos em alguns momentos da vida contida naquela pausa que rompe com os cativeiros emocionais e do produtivíssimo, que nos liberte dos grilhões do utilitarismo e do eficientíssimo que diz, que valemos pelo que fazemos ou temos. Afinal, pessoas não são coisas. E coisas não são pessoas.

✍️ No princípio era a ingenuidade frente a pausa imposta

No início da pausa imposta, pensávamos, com ingenuidade, que isso passaria em semanas e “voltaríamos ao normal”. Hoje, passados alguns meses, eu fico até com vergonha de ver o quanto fomos ingênuos e sem noção. Onde já se viu? Uma pandemia terminar em semanas? Nunca se viu!

Começamos a perguntar nesta pausa pandêmica pelo teor do seu tempo. Que tempo é este instalado por uma pandemia? De que forma vive-lo, viver dentro dele e, ao mesmo tempo, fora dele?

A última pausa imposta por uma pandemia, como já afirmamos em outros abraços, aconteceu em 1918, chamada de “gripe espanhola”.

✍️ A descoberta do poder da pausa neste tempo em suspensão

Qual foi a gênese deste tema que me abraçou? Como em geral um tema sempre nasce de uma provocação intuitiva, do escrito de alguém para mim, ou um pedido de ajuda, este abraço nasceu assim, de uma forma simples e espontânea: um amigo compartilhou a notícia da conferência de uma autora que mais mineira não poderia ser – e isso é um elogio à alma mineira, que habita esta mulher. Estou falando de Leila Ferreira. Uma mulher simples, doce, suave, de fala pausada.

Quando me percebi, estava sendo abraçado por uma palavra nova, dita de forma apaixonada e simples, sobre algo tão óbvio que atravessou a epiderme de meu piloto automático e me fez escutar o som inaudito da palavra de Leila: “uma vida sem pausas adoece…. chega de apertar só o botão do play. O botão da pausa também é essencial para uma vida com equilíbrio”. Foi assim, na palavra simples, honesta, segura e habitada de sentido que chegava mais um abraço: o abraço de pausas.

✍️ Na pausa, descobrimos o tempo em que habitamos

Leila no seu bate-papo no drive-in em Belo Horizonte nos diz que “somos tão treinados para sermos substantivos que deixamos de ser adjetivos… Existe um tempo para inspirar e outro para expirar”, conclui a escritora mineira. Nesta dança dialética, entre o dentro e o fora, o exterior e interior de tudo o que há, nós nos descobrimos seres em evolução, capazes de melhorias a cada dia.

Este olhar de Leila nos faz pensar que há um tempo para cada coisa nas nossas vidas. Como na natureza e suas estações, assim, também acontece dentro de nós em vários pares de tempos.

Como diz o sábio Livro do Eclesiástico (Ecl 3, 1-18), tempo de recolher e de deixar seguir, tempo de plantar a terra e de contemplar na soleira da varanda o plantio crescendo. Tempo de nascer e de morrer; de brincar e de trabalhar; tempo de só-letrar a fala e tempo de si-lenciar a alma; de agir e de pausar…

✍️ Na pausa imposta, podemos ser redimidos… se quisermos

Nesta pausa imposta, também podemos ser redimidos, se permitirmos. Podemos ser curados, purificados de ilusões, equívocos e inversões de valores. Uma vida feliz, saudável, não se mede por cifras, likes, seguidores, prosperidade, acúmulos do que quer que seja possível acumular.

Se tem uma coisa que este tempo em suspensão está nos oferecendo como maestria da vida é que a vida pode ser mais simples. Que ela pode acontecer num outro ritmo e frequência entre ser e fazer, pausa e ação, abraços e despedidas…

Como disse a especialista da boa palavra, Leila Ferreira, “essa parada provocada pela pandemia, ela vai ter que nos ensinar uma coisa lá na frente: que uma vida sem pausa não faz sentido. Que é preciso viver mais, correr menos… quando tudo passar, e, vai passar, que a gente não se esqueça disso”.

✍️ De repente, na pausa comecei a ver e ouvir além

Sempre me espanto em perceber como nós, os seres humanos, temos dificuldade de ver, ouvir e sentir o que vem do universo das coisas óbvias. Bem diz o Rubem Alves sobre isso: “ser adulto é ser cego”. Por isso, precisamos de vez em quando escutar alguém dizer estas coisas para nos despertar destes estados de cegueira. Pausas nos ajudam a ver de novo, melhor e mais além.

Se a vida sem pausa faz cativo aquele que se acha livre frente a vida na sociedade hipermoderna, descobri que também que uma pausa tem o poder de fazer livre o que está cativo por forças maiores dentro de nós.

✍️ No início era a pausa… e o ser esquecente se lembrou de algo

Assim que a pandemia mudou o ritmo, a rotina e os ritos da vida em sociedade, um novo caminho se sobrepôs na sequência: marcado por um ritmo virtual.

Esse ser esquecente que habita nossa própria existência e, que às vezes, troca o imaterial pelo material, o essencial pelo secundário, o central pelo que é periférico…  esse ser, precisa ser lembrando, de tempos em tempos, do seu ponto de partida, do seu lugar à vida. Isto é, do seu ponto de partida e de travessia… para não se esquecer de quem, equivocando-se frente ao que ele não é.

Para não vivermos no fluxo dos valores invertidos, precisamos fazer memória! Precisamos revistar, de tempos em tempos, o que é fundamental pela via da ritualidade.

O rito nos ajuda a celebrar o específico de cada área da mesma vida que habitamos. O rito nos lembra desta verdade inalienável. Ele nos mantém unidos à vida e seus pilares fundamentais. Este rito se alimenta da sagrada liturgia da vida. Sim, a vida nos pede liturgia, respeito, cuidado, nobreza de trato.

✍️ Na gênese dos abraços, há pausa!

Com o passar dos dias, semanas e meses, não abraçar tornou-se natural – pode isso? Mas um dia, eu fui agarrado por uma pessoa próxima que não me pediu um abraço. Ela roubou, ao mesmo tempo que de mim, ela roubou aquele abraço para mim. Foi atemporal. Foi redentor. Foi restaurador. Tempo de graça.

Meu Deus, quanta alegria me traz esta pausa que vira escrita, essa escrita que cria pausa… escuta dizente. Pá que lavra, cava, move e remove meus confinamentos internos e externos, dando-me um pouco mais de leveza nestes tempos brutos. Amo cavar desertos em busca destes oásis!

Quando percebo já são 23horas… quando eu vejo já passou da meia noite. Meu corpo grita: É tempo de pausa para dormir…

Despeço-me com um poema atravessado, que nasceu lá atrás, mais ou menos no meio da primeira pausa deste abraço.

✍ POEMA………🤗

O poder de uma pausa

Como faz diferença uma vida com pausas!

Nesta ação de nada fazer, nos descobrimos criativos, inventivos…

Porque a pausa é parteira credenciada da invenção humana, da capacidade de refazermo-nos nascendo de novo, em novas posturas de vida e em novos lugares da existência.

A pausa tem o poder de conceber um novo ser em nós, restaurando forças, sonhos, desejos soterrados.

A pausa tem um poder extraordinário de reorganizar dentro de nós nossos caminhos, o que vivíamos fazer mecânico.

A pausa tem o poder de organizar o que o tempo acelerado, desconstruiu e deixou caído nas margens da vida.

A pausa tem o poder de cortar o que está sobrando na vida, o que se mostra desnecessário e, às vezes, até supérfluo em nós.

A pausa tem o poder de fortalecer as margens frágeis da falta, estabelecendo pontes entre margens, contornos nos penhascos. Ela une o que estava disperso, sem nexo e sem sentido.

O poder da pausa é feitiço que desperta o que dorme, faz descansar o aquele que, encontra-se cansado ou fatigado com os fardos da lida.

A pausa, tem o poder de fazer o ser humano avançar para águas mais profundas, deixando na superfície do dia o que é epidérmico.

Uma coisa se faz verdadeira:  pausa é sempre uma forma de respiração da alma cansada e subjugada às obrigações rotineiras, dos deveres cansativos e das funções exigentes que muitos carregam sobre si.

A pausa faz lembrar o que já havíamos esquecido da vida, restaurando-nos por dentro e para fora de nós mesmos, trazendo de volta a consciência dos afetos e da memória pulsante de vida.

A escrita já transbordou em pá…lavras!

Furou o mar de angústias, tornou-se um litoral de palavras que contornaram o incontornável.

Preciso de pausar para descansar-me desta escrita e, também, para que ela descanse no solvente deste labor cardial do simbólico… depois eu volto. Vamos pausar. Pois pausar é preciso… criar, torna-se nela consequência.

 

✍️ @pe.marcelo.bh