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Tempo de conversão, de salvação e de misericórdia

Papa Francisco concluiu, nesa terã-eiraom a Santa Missa em Ciudad Juárez a sua 12ª Viagem Apostólica internacional que o levou ao México. Foram seis dias intensos que certamente marcarão a história deste país e do seu povo, como também certamente deixaram marcas profundas no coração do “missionário da misericórdia e da paz”. Os mexicanos acolheram Francisco como um pai que veio visitá-los, para saber com estão, como estão suas vidas e para indicar qual caminho seguir. Francisco nestes dias não poupou esforços para chegar ao maior número possível de pessoas. E os mexicanos, acotovelados pelas ruas e estradas ou nas várias celebrações e encontros também demonstraram a grande empatia que têm pelo Papa latino-americano.

Pelas ruas de Cidade do México, de Ecatepec, pelas estradas de Chiapas, Michoacán, Chiuhauhua, Francisco recebeu o amor e o carinho de tantas pessoas que passaram horas nas calçadas para, saudar e por um momento ver o “peregrino” que veio confirmá-los na fé. Entusiamos que se misturaram com os gritos de viva o Papa, “bienvenido” Santo Padre. O México se transformou com a chegada do Papa. Foram tantos os momentos vividos intensamente nestes dias, mas todos partem do desejo do encontro de Francisco com a “Morenita”, Nossa Senhora de Guadalupe.

A Santa Missa na Basílica de Guadalupe e depois os momentos de silêncio de Bergoglio diante da imagem, retratam a profundidade espiritual dessa viagem, onde o Vigário de Cristo fez com que um país inteiro parasse com ele diante da “Mãe mexicana”. Foram 28 minutos inesquecíveis de silêncio e oração.

Francisco lembrou as palavras asseguradoras da Mãe, que nos dão a certeza de que “as lágrimas daqueles que sofrem, não são estéreis. São uma oração silenciosa que sobe até ao céu e que, em Maria, encontra sempre lugar sob o seu manto”.

Nestes dias Francisco fez discursos fortes contra a corrupção, os privilégios, pediu um futuro rico de esperança, com homens honestos e justos, que defendam o bem comum. Também declarou que o narcotráfico é uma metástase que devora.

Já no encontro com as autoridades, a sociedade civil e o Corpo diplomático acreditado no país, o primeiro da sua viagem, o Papa disse que era motivo de alegria poder pisar esta terra mexicana. Disse que vinha como missionário de misericórdia e de paz, mas também como um filho que quer “prestar homenagem à sua mãe, a Virgem de Guadalupe, e deixar-se olhar por Ela”.

Já naquele encontro falou dos jovens, maior riqueza do México, preanunciando o grande encontro de Morelia. Francisco reiterou: “Penso e ouso dizer que, hoje, a principal riqueza do México tem um rosto jovem; sim, são os seus jovens. Em Morelia pediu aos jovens que não se deixem desvalorizar, excluir, ser tratados como mercadoria. “É mentira que a única forma de viver, de poder ser jovem, é deixando a vida nas mãos do narcotráfico”. “Jesus nunca convidaria você a ser sicário”, disse o Papa aos jovens.

Um pouco mais da metade da população é composta por jovens. Isto permite pensar e projetar um futuro, um amanhã. Isto dá esperança e abertura ao futuro do país.

Ainda no início da sua viagem o Papa Francisco se encontrou com o episcopado mexicano. Num discurso, longo, muito articulado e duro, pediu coragem para enfrentar a chaga do tráfico de drogas.

“Peço que vocês não subestimem o desafio ético e anticívico que o narcotráfico representa para a sociedade mexicana inteira, incluindo a Igreja”.

Afirmando que “não há necessidade de ‘príncipes’, mas de uma comunidade de testemunhas do Senhor na qual Cristo é a sua única luz, o Papa exortou os bispos mexicanos a conservarem a comunhão e unidade entre eles.

Em Ecatepec, na missa campal Francisco clamou que os mexicanos façam de seu país uma terra de oportunidades, onde “não haja necessidade de emigrar para sonhar” e onde não haja risco de cair nas mãos do que chamou de “traficantes de morte”.

Visitou também o Hospital pediátrico Federico Gomez, um centro de excelência na Cidade do México, voltado ao atendimento das crianças mais pobres do país. Ali diante das crianças doentes, cunhou mais uma das suas expressões “carinhoterapia”, o carinho como forma de terapia e as palavras “bendizer e agradecer”. O Papa dando uma vacina a uma criança pela boca deu iníco à campanha nacional contra a poliomelite.

Depois Chiapas e Morelia. San Cristobal de Las Casas foi o lugar do discurso do pedido de perdão aos povos indígenas que por séculos sofreram humilhações e marginalizações. No meio da multidão indígena um grito se escutou forte, “temos um Papa ao lado dos pobres”. Na missa, pela primeira vez oficialmente, os idiomas locais choles, tzotzil.. foram sentidos.

Brotou espontâneo, “muchas gracias, Tatic Francisco (na língua local, aquele que cuida do povo e do ambiente). Seria essa expressão e síntese desta viagem, e a expressão maior do afeto do povo mexicano, seja ele indígena ou não. No meio da multidão um desabado: “somente Francisco sabe que nós existimos”.

Os dias em Chiapas e Morelia pareceram uma nova emancipação dos povos originários, um reencontro com a história milenar e recente, com a história de Frei Bartolomeu de Las Casas e de Dom Samuel Ruiz.

A família também esteve no centro dos encontros e pensamentos do Papa. Em Tuxtla Gutiérrez disse que “a precariedade ameaça não só o estômago (o que é já muito!), mas pode ameaçar também a alma, pode insinuar-se em nós sem nos darmos conta: é a precariedade que nasce da solidão e do isolamento; e o isolamento é sempre um mau conselheiro”.

“Prefiro uma família que procura uma vez e outra recomeçar a uma sociedade narcisista e obcecada com o luxo e o conforto. Prefiro uma família com o rosto cansado pelos sacrifícios aos rostos embelezados que nada entendem de ternura e compaixão”.

E repetiu: o casal pode lançar pratos um contra o outro, mas é importante terminar o dia em paz.

Na missa em Morelia o Papa Francisco convidou os sacerdotes, religiosos, religiosas, consagrados e seminaristas a não se deixarem cair na tentação da resignação diante da violência. O Santo Padre dedicou sua reflexão, em parte, à necessidade de reagir às adversidades diante de uma realidade que parece insuperável. “Uma resignação que nos paralisa e impede não só de caminhar, mas também de abrir caminho”. Exortou-os a não se tornarem “funcionários do divino”, pois “não somos emgregados de Deus”.

Enfim, Ciudad Juárez. No norte do país, numa “missa binacional” pôde apalpar a problemática da migração, de crimes e do tráfico de pessoas.

Antes encontrou-se com os detentos do Centro de Readaptação Social N.3. Ali o Papa recordou “que as prisões são um sintoma de como estamos na sociedade; em muitos casos são um sintoma de silêncios e omissões provocadas pela cultura do descarte. São sintoma duma cultura que deixou de apostar na vida, duma sociedade que foi abandonando os seus filhos.

O problema da segurança não se resolve apenas encarcerando, mas é um apelo a intervir para enfrentar as causas estruturais e culturais da insegurança que afectam todo o tecido social.

Quem sofreu o máximo da amargura a ponto de poder afirmar que “experimentou o inferno”, pode tornar-se um profeta na sociedade.

Depois o encontro com o mundo do trabalho quando Francisco convidou todos a sonhar o México, a construir o México que os seus filhos merecem; um México, onde não haja pessoas de primeira, segunda ou quarta classe, mas um México que saiba reconhecer no outro a dignidade de filho de Deus. Recordou duas palavras, diálogo e encontro. “Deus pedirá contas aos escravagistas dos nossos dias, e nós devemos fazer todo o possível para que estas situações não ocorram mais. O fluxo do capital não pode determinar o fluxo e a vida das pessoas”.

O último momento em terras mexicanas foi a Santa Missa. Mas antes da missa o Papa sob uma cruz no Rio Bravo na fronteira com os Estados Unidos, circundado por velhos sapatos e sandálias que simbolizam o drama da imigração, para rezar pelos migrantes mortos na tentativa de superar a fronteira, pelos imigrantes que se encontram nos Estados Unidos, na prisão ou que sofrem prisões de massa.

Na sua homilia durante a missa o Papa implorou no Ano da Misericórdia o dom das lágrimas, o dom da conversão.

Ciudad Juárez, como outras áreas fronteiriças “é uma passagem, um caminho carregado de injustiças terríveis: escravizados, sequestrados, objectos de extorsão, muitos irmãos nossos acabam vítimas do tráfico humano”.

Esta crise que se pode medir em números,  – disse o Papa – queremos medi-la por nomes, por histórias, por famílias. São irmãos e irmãs que partem, forçados pela pobreza e a violência, pelo narcotráfico e o crime organizado. À pobreza que já sofrem, vem juntar-se o sofrimento destas formas de violência. Uma injustiça que se radicaliza ainda mais contra os jovens: como “carne de canhão”, eles vêem-se perseguidos e ameaçados quando tentam sair da espiral de violência e do inferno das drogas.

“É tempo de conversão, é tempo de salvação, é tempo de misericórdia”.

Os encontros de Francisco com os mexicanos foram verdadeiros momentos de festa. Mais de 41 milhões de mexicanos seguiram o Papa através da televisão.

Francisco tocou lugares emblemáticos de males nacionais é ao mesmo tempo manteve um confronto com problemas que dizem respeito diretamente ao povo e ao seu desânimo em relação à justiça, às instituições e à própria convivência. As palavras de Francisco ajudarão como bálsamo para o desânimo? Despertará novos impulsos em uma sociedade que procura crescer em todos os setores? A resposta dos mexicanos virá com o tempo. A palavra é esperança. Francisco arrematou: “A noite pode parecer-nos enorme e muito escura, mas, nestes dias, pude constatar que, no povo mexicano, há tantas luzes que anunciam esperança”.

Os mexicanos esperavam muito desta visita de Francisco. Esperavam suas palavras e gestos. Certamente o “Papa latino-americano” não os depecionou. 

 Rádio Vaticana
 

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