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Santos não são heróis, mas humildes testemunhas e Cristo

O testemunho de são João Paulo II, assim como o de «tantos grandes santos» na história da Igreja, mostra que a regra da santidade consista «em diminuir a fim de que o Senhor cresça». E «todos assistimos aos últimos dias de são João Paulo II: ali, não podia falar, o grande atleta de Deus, o grande guerreiro de Deus, acaba assim. Aniquilado pela doença. Humilhado como Jesus». Evocando o testemunho do Papa WojtyÅ‚a – canonizado a 27 de Abril juntamente com João XXIII – o Pontífice traçou o perfil da santidade na homilia da missa celebrada na manhã de sexta-feira, 9 de Maio, na capela da Casa de Santa Marta. Os santos, disse, não são heróis mas mulheres e homens que vivem a cruz no dia-a-dia: são pessoas escolhidas por Deus precisamente para demonstrar que a Igreja é santa mesmo sendo composta por pecadores.

«A Igreja é santa»: foi a partir desta verdade que o Papa Francisco iniciou a sua reflexão da sua homilia. E propôs imediatamente uma pergunta: como pode ser santa a Igreja se todos nós que somos pecadores estamos dentro? Com efeito, reiterou, «nós somos pecadores, mas a Igreja é santa, é a esposa de Jesus Cristo, e ele ama-a, santifica-a: santifica-a todos os dias com o seu sacrifício eucarístico, porque a ama tanto». Portanto, «nós somos pecadores, mas numa Igreja santa».

Precisamente, com «esta pertença à igreja também nós nos santificamos: somos filhos da Igreja e a mãe Igreja santifica-nos com o seu amor, com os sacramentos do seu Esposo». Na prática, prosseguiu o bispo de Roma, «esta é a santidade diária, esta é a santidade de todos nós. A tal ponto que nos Actos dos apóstolos, quando se fala dos cristãos, está escrito “o povo dos santos”». Também são Paulo «fala dos santos: a nós, pecadores mas filhos da Igreja santa, santificada pelo corpo e sangue de Jesus, como ouvimos agora no Evangelho» de João (6, 52-59).

«Nesta Igreja santa – afirmou o Papa Francisco – o Senhor escolhe algumas pessoas para mostrar melhor a santidade, para indicar que é ele que santifica; que ninguém se santifica a si mesmo; que não existe um curso para se tornar santo; que ser santo não consiste em fazer o faquir» ou algo mais. Ao contrário, «a santidade é um dom de Jesus à sua Igreja; e para demonstrar isto ele escolhe pessoas» nas quais «se vê claramente o seu trabalho para as santificar».

A liturgia de hoje apresenta, a este propósito, «a santificação de Saulo, de Paulo», narrada pelos Actos dos apóstolos (9, 1-20). Não se trata de um caso isolado, porque no Evangelho há muitas figuras de santidade. Por exemplo, prosseguiu o Papa, «há a Madalena, o Mateus; e ainda o Zaqueu».

«Mas por que escolhe o Senhor, na história da Igreja, estas pessoas?» perguntou-se o Pontífice, recordando que em dois mil anos de cristianismo «existem numerosos santos reconhecidos pela Igreja». O senhor escolhe estas pessoas – é a resposta – para que dêem testemunho mais claro da primeira regra de santidade: é necessário que Cristo cresça e que nós diminuamos. Em síntese, é necessária «a nossa humilhação a fim de que o Senhor cresça».

É nesta perspectiva que o Senhor «escolhe Saulo, inimigo da Igreja», como narram os Actos dos apóstolos: Saulo, proferindo ainda ameaças contra os discípulos do Senhor, «apresentou-se ao sumo sacerdote e pediu-lhe cartas para as sinagogas de Damasco, a fim de ser autorizado a levar acorrentado para Jerusalém todos os que encontrasse, homens e mulheres, pertencentes a esta Via». Palavras fortes que demonstram quanto Saulo odiasse e perseguisse a Igreja: um ódio que, observou o bispo de Roma, «vimos também na lapidação de Estêvão» na qual, além disso, o Saulo estava presente. Cheio de ódio, ele «pede a autorização» para perseguir os cristãos. «Mas o Senhor espera por ele e faz sentir o seu poder» observou o Papa. E eis que Saulo «torna-se cego e obedece» quando, a caminho de Damasco, o Senhor lhe diz «levanta-te, entra na cidade, e te será dito o que deves fazer». Assim «de homem que tinha tudo claro, que sabia o que devia fazer contra esta seita de cristãos, torna-se obediente, espera rezando e fazendo jejum. O seu coração estava transformado».

A narração dos Actos apresenta, portanto, o discípulo de Ananias que baptiza Paulo. E assim finalmente «Paulo levanta-se e vai pelas sinagogas anunciando que Jesus é o Filho de Deus».

A este ponto o Papa frisou que a diferença entre heróis e santos é o testemunho, a imitação de Jesus Cristo: percorrer o caminho de Jesus Cristo. O Papa repropôs também a figura de João Baptista.

«Tantos santos canonizados na Igreja – afirmou o Pontífice – acabam tão humildemente». São «os grandes santos». E, a este propósito, o Papa Francisco repropôs o testemunho de são João Paulo II. Precisamente «este é o percurso da santidade dos grandes». Mas é «também o percurso da nossa santidade». Porque, explicou, certamente «não seremos santos se não nos deixarmos converter o coração por este caminho de Jesus: carregar a cruz todos os dias, a cruz simples e deixar que Jesus cresça. Se nós não percorrermos este caminho não seremos santos, mas se formos por esta via todos nós daremos testemunho de Jesus Cristo que nos ama tanto. E daremos testemunho que, mesmo sendo pecadores a Igreja é santa, é a esposa de Jesus».

Portanto «hoje – concluiu o Papa – talvez nos faça bem, na missa, sentir esta alegria: o sacrifício de Jesus aqui no altar santifica-nos a todos, far-nos-á crescer na santidade, para sermos autenticamente filhos da sua esposa, a Igreja nossa mãe que é santa».

 


 L’Osservatore Romano

 

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