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O homem vive «dentro de si o drama de não aceitar a salvação de Deus» porque gostaria de ser salvo à sua maneira». E Jesus chega até a chorar por cauda desta «resistência» do homem, repropondo sempre a sua misericórdia e o seu perdão. Em síntese, não podemos dizer exactamente «Salva-nos, Senhor, mas à nossa maneira!» fez presente o Papa Francisco na missa celebrada na sexta-feira 3 de Outubro na capela da Casa de Santa Marta.

No trecho evangélico proposto pela liturgia, Lucas (10, 13-16) apresenta Jesus que «parece um pouco zangado». E «fala a este povo para o fazer raciocinar» dizendo: «Se nas cidades pagãs se tivessem verificado os prodígios que se viram entre vós, já há tempos, vestidas de saco e cobertas de cinza, ter-se-iam convertido. E vós não». Assim Jesus delineia «precisamente um resumo de toda a história de salvação: é o drama de não querer ser salvo; de não aceitar a salvação de Deus». É como se disséssemos: «Salva-nos, Senhor, mas à nossa maneira!».

O próprio Jesus recorda muitas vezes «como este povo rejeitou os profetas, lapidou os que lhe foram enviados porque eram inoportunos». O pensamento é sempre o mesmo: «Queremos a salvação, mas à nossa maneira! Não como a quer o Senhor». Estamos diante do «drama da resistência a sermos salvos». Trata-se de «uma herança que todos nós recebemos», porque «também no nosso coração há esta semente de resistência a sermos salvos como o Senhor nos quer salvar».

O contexto do trecho evangélico de Lucas vê Jesus que «fala aos seus discípulos que tinham voltado de uma missão». E também a eles diz: «Quem vos ouve, ouve a mim; quem vos despreza, é a mim que despreza, e por conseguinte despreza quem me enviou. O mesmo fizeram os vossos pais com os profetas». De novo o pensamento a sermos salvos à nossa maneira. O «Senhor salva-nos na nossa liberdade, mas nós não queremos ser salvos com a liberdade, mas com a nossa autonomia: as regras fazemo-las nós».

É «este o drama das histórias de salvação, desde o início. É antes de tudo «um drama do povo», porque «o povo se rebela muitas vezes, no deserto por exemplo». Mas com as provações o povo amadurece e assim reconhece em Jesus um grande profeta e diz: Deus visitou o seu povo».

Mas, disse Francisco, é «precisamente a classe dirigente que fecha as portas ao modo como Deus nos quer salvar». Neste sentido «compreendem-se os diálogos fortes de Jesus com a classe dirigente do seu tempo: contendem-se, põem-no à prova, armam-lhe ciladas para ver se cai», porque há neles a resistência a serem salvos».

Perante esta atitude Jesus diz-lhes: «Mas eu não vos compreendo! Sois como aquelas crianças: tocámos a flauta e não dançastes; cantámos uma lamentação e não chorastes. Que quereis?». A resposta é sempre: «Queremos obter a salvação à nossa maneira». Há portanto sempre este «fechamento ao modo de agir de Deus.

Depois, à medida que o Senhor prossegue, também o grupo próximo dele começa a ter dúvidas». Descreve isto João no sexto capítulo do seu Evangelho, dando voz a quantos dizem de Jesus: «Mas este homem é um pouco estranho, como nos pode dar a comer o seu corpo?» Provavelmente havia quem dizia estas coisas e até os seus discípulos começaram a hesitar. Portanto Jesus olha para os doze e diz-lhes: «Se também vós quiserdes ir…».

Sem dúvida, disse o Pontífice, esta palavra é dura». Mas é também «a única porta de salvação». E «o povo crente aceita-o: procurava Jesus para se curar» e «para ouvir a sua palavra». De facto dizia: «Ele fala com autoridade. Não como a nossa classe, os fariseus, os doutores da lei, os saduceus que falavam uma linguagem que ninguém compreendia». Para estes «toda a salvação consistia no cumprimento dos numerosíssimos mandamentos «que a sua febre intelectual e teológica tinha criado». Mas «o pobre povo não encontrava uma saída de salvação». Jesus sim.

Contudo, no final, afirmou Francisco, «comportaram-se como os seus pais: decidiram matar Jesus». O Senhor reprova este modo de agir: «os vossos pais mataram os profetas, e vós, para descarregar a consciência, construís-lhes um lindo monumento». «Decidem então matar Jesus» porque, dizem, «este homem dar-nos-á problemas: não queremos esta salvação! Queremos uma salvação muito disciplinada, certa. Não queremos esta!». Por conseguinte «decidem matar também Lázaro, porque é testemunha do que Jesus traz: a vida» porque «ressuscitou dos mortos».

«Com esta decisão aquela classe dirigente cancela a omnipotência de Deus», disse o Papa, recordando que «na oração no início da missa, louvamos tão bem a omnipotência de Deus: “«Senhor que revelas a tua omnipotência, sobretudo na misericórdia e no perdão». O drama da resistência à salvação» leva a não acreditar «na misericórdia e no perdão» mas nos sacrifícios. É um drama que «também todos nós temos. Por isso Francisco sugeriu algumas perguntas para um exame de consciência: «Como quero ser salvo? De que modo? Sem riscos?

Quando Jesus vê este drama da resistência, chora; chorou diante do túmulo de Lázaro, quando olhou para Jerusalém, dizendo: «Mas tu que matas os profetas e lapidas todos os que te são enviados, quantas vezes quis juntar os teus filhos como a galinha a sua ninhada debaixo das asas!». E «chora também face a este drama de não aceitar a sua salvação, como o Pai a quer».

Por isso o Papa convidou a «pensar que este drama se encontra no nosso coração» insistindo que cada um de nós se questione: «Como penso que seja o caminho da minha salvação: a de Jesus ou outra? Sinto-me livre para aceitar a salvação ou confundo liberdade com autonomia e quero a salvação que considero justa? Penso que Jesus é mestre que ensina a salvação ou vou procurar um guru que me ensine outra? Um caminho mais seguro ou refugio-me debaixo do tecto das prescrições e dos muitos mandamentos feitos por homens? E assim sinto-me seguro e com esta – é um pouco duro dizê-lo – segurança compro a minha salvação que Jesus dá gratuitamente, com a gratuitidade de Deus».

Todas estas perguntas, que «nos fará bem reflectir sobre elas», culminam na última proposta do Papa: «Resisto à salvação de Jesus?».
 

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