Não serve uma Igreja reduzida a «museu», nem sequer uma estrutura com «um organograma perfeito», onde «tudo está no lugar, tudo é nítido» mas «falta a alegria, falta a festa, falta a paz». Recordou o Papa Francisco durante a missa celebrada na manhã de terça-feira, 9 de Dezembro, em Santa Marta.

Para a reflexão o Pontífice inspirou-se na primeira leitura da liturgia do dia, na qual o profeta Isaías (40, 1-11) anuncia a consolação de Deus para Israel. Esta promessa profética atravessa toda a história e chega até nós. Mas quando se realiza na Igreja?

O Papa Francisco recordou que, assim como «uma pessoa é consolada quando sente a misericórdia e o perdão do Senhor, também a Igreja faz festa, é feliz quando sai de si mesma». A alegria da Igreja, portanto, «é dar à luz», é «sair de si mesma para dar a vida», é «ir procurar as ovelhas que se perderam», testemunhando «precisamente a ternura do pastor, a ternura da mãe».

Ao evocar as palavras do Evangelho de Mateus (18, 12-14), o Papa frisou o impulso dinâmico do pastor «que sai», que «vai procurar» a ovelha que lhe falta, que se perdeu. Contudo, sublinhou o Pontífice, este pastor zeloso «poderia ter feito a conta de um bom comerciante»: tinha 99 ovelhas, por conseguinte mesmo perdendo uma, o balanço entre lucros e perdas era sempre abundantemente positivo. Ao contrário, ele «tem o coração de pastor, sai para a procurar até a encontrar e fazer festa, é jubiloso».

Ao mesmo tempo, nasce assim «a alegria de sair para procurar os irmãos e as irmãs que estão distantes: esta é a alegria da Igreja». É precisamente então que a Igreja «se torna mãe, se torna fecunda». Ao contrário, admoestou o Pontífice, quando a Igreja «não faz isto», então «detém-se em si mesma, fecha-se em si mesma», mesmo se «talvez esteja bem organizada». E deste modo torna-se «uma Igreja desanimada, ansiosa, triste, uma Igreja que se parece mais com uma solteirona do que uma mãe; e esta Igreja não serve, é uma Igreja de museu».

O final do trecho de Isaías evoca a imagem do pastor que «apascenta a grei e com o seu braço reúne-a, carrega os cordeirinhos e conduz suavemente as ovelhas-mães». Esta é «a alegria da Igreja: sair de si mesma e tornar-se fecunda». Como na época de Israel, quando Isaías proclamava ao povo as palavras da consolação oferecida pelo Senhor, assim a Igreja ao reler este trecho abre-se à alegria, recebe força. Porque o povo «precisa de consolação». A própria presença do Senhor «consola, sempre, consola ou forte ou debilmente, mas consola sempre». Com efeito, afirmou o Papa, onde está o Senhor «há consolação e paz». Também na tribulação, acrescentou, «há aquela paz, aquela presença do Senhor que consola».

Infelizmente, os homens têm a tendência a fugir da consolação. «Desconfiamos estamos mais cómodos – observou Francisco – nas nossas realidades, mais confortáveis também nas nossas faltas, nos nossos pecados». Este é o terreno no qual o homem se sente mais à vontade. Ao contrário, frisou o Pontífice, «quando vêm o Espírito e a consolação, leva-nos para outra situação que não podemos controlar: é precisamente o abandono da consolação do Senhor». E é nesta situação que «vêm a paz, a alegria», como recorda a expressão «tão bonita do rei Ezequias: “A minha amargura transformou-se em paz”, porque o Senhor veio para consolar». E como recita também aquele «salmo dos prisioneiros em Jerusalém, em Babilónia: “Quando o Senhor restabeleceu o destino de Sião, parecia que estávamos a sonhar” – não acreditavam! – “a nossa boca encheu-se de sorriso e a nossa língua de alegria”».

Com efeito, quando chega «a consolação do Senhor, perturba-nos. É ele que comanda, não nós». E a consolação maior é a da misericórdia e do perdão», como anuncia Isaías: «Gritai que a sua tribulação se completou, a sua culpa foi paga, porque recebeu da mão do Senhor o duplo por todos os seus pecados». Daqui o convite do Papa a reflectir sobre como Deus não se faz vencer em generosidade. «Tu – disse – pecastes por cem, toma duzentos de alegria: mas é assim a misericórdia de Deus, quando vem a consolar».

Não obstante, o homem procura subtrair-se, porque «isto não causa um pouco de medo, de desconfiança. Mas para fazer compreender quando é infinita a misericórdia de Deus, o Pontífice repropôs as palavras do profeta Ezequiel, quando no capítulo 16, depois «daquela lista de numerosos pecados do povo, no final dirá: “Mas eu não te abandono, eu dar-te-ei mais; esta será a minha vingança: a consolação e o perdão”». É exactamente assim «o nosso Deus, o Deus que consola na misericórdia e no perdão». Por esta razão é bom repetir: «Deixai-vos consolar pelo Senhor, é o único que nos pode confortar».

Muitas vezes, acrescentou Francisco, «estamos habituados a “alugar” consolações pequenas, um pouco feitas por nós; mas não servem, ajudam mas não servem». De facto, só nos serve a que «vem do Senhor com o seu perdão e a nossa humildade. Quando o coração se torna humilde, vem aquela consolação e deixa-se levar em frente por esta alegria, esta paz».

O Pontífice concluiu com uma invocação ao Senhor, para que «nos dê a graça de trabalhar, de ser cristãos jubilosos na fecundidade da mãe Igreja», e nos preserve do risco de «cair na atitude destes cristãos tristes, impacientes, desanimados, ansiosos, que têm tudo perfeito na Igreja, mas não têm “crianças”. O Papa convidou a pedir a Deus que nos console com «a consolação de uma Igreja-mãe que sai de si mesma» e com «a consolação da ternura de Jesus e a sua misericórdia no perdão dos nossos pecados».

 L’Osservatore Romano

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