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Oitava meditação da Quaresma 2018: Crer em Deus é crer na misericórdia

O Papa Francisco permanece até sábado, dia 24 de fevereiro, na casa dos padres Paulinos ‘Divino Mestre’, onde se dedica aos exercícios espirituais de Quaresma.

Padre José Tolentino Mendonça, sacerdote português convidado pelo Papa Francisco para pregar o retiro anual da Curia Romana, fala na sua oitava meditação sobre o poder restaurador da misericórdia de Deus.

“De verdade é importante a experiência de relação que ali se manifesta – parábola do filho pródigo – e se recompõe. (…) temos a oportunidade de observar as nossas mesmas passagens, externas e interiores, e de olhar com profundidade a nossa historia”, afirma Padre José Tolentino Mendonça.

Na meditação sobre a parábola do filho pródigo, quando se refere ao filho mais novo, Padre José fala que “é uma historia que nos pega dentro. E nesse espelho tem tudo: o desejo de liberdade do filho mais jovem, os seus sonhos sem fundamento, os passos falsos, a fantasia da onipotência, a sua incapacidade de reconciliar desejos e leis. Com um resultado previsível: o vazio e a solidão. Se descobrira completamente sozinho”.

Fazendo uma comparação, o filho mais velho – segundo o pregador ressalta – tem “a dificuldade de viver a fraternidade, a recusa de alegrar-se do bem do outro, e a incapacidade de viver a lógica da misericórdia. Não consegue resolver a relação com seu irmão, ainda cheia de agressividade, com uma barreira e violência. E nem mesmo a relação com o Pai é totalmente integrada: ele nutre ainda a expectativa da recompensa.”

“No filho mais velho não é o problema com a lei, mas com a generosidade do amor. E isto é uma das doenças dos desejos”. E afirma que todos nos somos também assim: “ contradições de sentimentos. E esta completa ambivalência humana, é o maior elogio da misericórdia de Deus, que a parábola, ilumina.”

E afirma ainda, que “ dentro de nós, em verdade, não existem somente coisas bonitas, harmoniosas e resolvidas. Dentro de nós existem sentimentos sufocados, tantas coisas que devem se tornar claras, doenças, inúmeros fios para se conectarem. Existem sofrimentos, âmbitos que devem ser reconciliado, memorias e fissuras que se devem deixar Deus curar.

“ A pergunta é: a que ponto nos deixamos reconciliar? Mas reconciliar profundamente, com a logica do Evangelho, e no mais profundo de nós? ”

Reforçando ainda mais a importância da misericórdia, afirma que “este excesso de amor que Deus nos ensina, está em condições de resgatar-nos. Cada um de nós possui uma riqueza interior, um mundo de possibilidades, mas também limites com os quais, em um caminho de conversão, é necessário confrontar-se”.

Comparando os desejos, afirma que os errados, ou como define, “os desejos soltos – uma realidade que o nosso tempo promove – desencadeia em nós movimentos errados e irresponsáveis, a pura inconstância, o hedonismo e um redemoinho enganador”. E que os verdadeiros “ao invés, é assinalado com uma carência, uma insatisfação, de uma sede que vem de um princípio dinâmico e projetivo. O desejo é literalmente insaciável, pois aspira a isto que não pode ser possuído: o senso. Assim, o desejo não se sacia: se aprofunda.”

Quando chega especificamente na figura do Pai – na parábola – reflete o poder curador da sua misericórdia. O Pai sabe que “tem dois filhos e entende que deve relacionar-se com eles de modo diferente, reservar a a cada um, olhares diferentes”, cada um com os seus desejos. Nesta reflexão sobre o Pai, Padre José  Tolentino diz:

“ Jesus não perde tempo explicando a razão porque o filho mais jovem quer ir embora, mas que o Pai aceita o espaço que o filho pretende, acolhe o risco da sua liberdade, e simplesmente o ama. E que depois no seu retorno, cobre de beijos aquela vida infeliz, e a faz totalmente amável ”

E não somente os desejos do filho mais novo devem ser curados pela misericórdia, diz o pregador, mas também os do seu primogênito. “O Pai vai ao seu encontro. O Pai da dignidade a indignação do filho mais velho, vai escutá-lo, sai, desce para buscá-lo. Essa misericórdia de escutar os outros até o fim. E a misericórdia gera uma das mais belas declarações de amor que um Pai possa dedicar ao filho:

“ Filho, você está sempre comigo, e tudo o que é meu é teu (Lc 15,31) ”

Para concluir, afirma sobre a misericórdia: “A misericórdia é isso. Um dever a qual ninguém nos obriga, mas uma obrigação que nasce da esperança. É o bem mais precioso e deve ser vitoriosa sobre todas as mortes. Quem crê que a misericórdia seja fácil, é porque nunca a viveu e nem a experimentou. A misericórdia está entre as coisas mais exigentes e que exigem maior empenho. Porém não tem vida sem misericórdia.

A misericórdia é um dos atos soberanos de Deus. Crer em Deus é, portanto, crer na misericórdia”.

Aprendendo a desaprender

Padre Tolentino abriu a série de pregações refletindo sobre o tema “Aprendizes do estupor”, sugerido pelo Evangelho de João. No texto, Jesus diz à samaritana apenas três palavras: “Dá-me de beber”. Assim como ela se surpreende com tal pedido, nós também ficamos desconcertados – antecipou o pregador – porque essas são as palavras que Jesus dirige a nós: “ Dá-me o que tem, abre seu coração, dá-me o que é ”

O cansaço de Jesus

Deste estupor, a meditação passa ao ‘cansaço de Jesus’ e ao nosso. Podemos entender o diálogo de Jesus com a samaritana somente se mantivermos diante dos olhos o dom sem limites que Jesus faz de si na cruz. Em ambas as circunstâncias, o sol diz que é meio-dia, a hora sexta. É a hora central do dia, o meio do tempo, que marca o antes e o depois. Não é simplesmente a indicação cronológica, mas o símbolo da passagem de Jesus em nós. Por isso, explicou o sacerdote, mesmo que o relógio assinale outro horário, muitas vezes é meio-dia em nossas vidas. Cada vez que nascemos é meio-dia.

Ele veio nos procurar

Quando Jesus pede ‘Dá-me de beber’, a sua sede não se materializa na água. É uma sede maior. É sede de alcançar as nossas sedes, de entrar em contato com os nossos desertos, com nossas feridas. Nós devemos nos comportar com confiança. Temos que nos reconhecer como ‘chamados’.

Conhecer o dom de Deus

É o Senhor que toma a iniciativa de vir ao encontro de nós. Ele chega antes ao poço. Quando a samaritana entra em cena, Jesus já está lá, sentado. Quanto maior é o nosso desejo, o de Deus é sempre maior. Citando um trecho do ‘Livro dos abraços’ do escritor uruguaio Eduardo Galiano, Padre Tolentino completou:
“ Deus sabe que nós estamos aqui ”

Nossa oração sobe até Deus

Com novas citações, de Tolstoj a Fernando Pessoa, a meditação sugeriu os participantes a “desaprender”:
“Desaprendamos para aprender aquela graça que tornará possível a vida dentro de nós. Desaprendamos para aprender até que ponto Deus é a nossa raiz, o nosso tempo, a nossa atenção, a nossa contemplação, a nossa companhia, a nossa palavra, o nosso segredo, a nossa escuta, a nossa água e a nossa sede”.

Concluindo, padre Tolentino exortou os participantes:
“Digamos no nosso íntimo, com toda a verdade de que somos capazes: ‘Senhor, estou aqui à espera do nada’, ‘Senhor, estou aqui à espera do nada’. Ou seja, estou apenas à espera de ti, à espera do que és, à espera do que me das’.

 

 

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