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O reino de Deus não é espetáculo

O reino de Deus já se encontra na santidade escondida de todos os dias, vivida pelas famílias que chegam ao fim do mês com apenas meio euro no bolso, mas não caem na tentação de pensar que o reino de Deus é só um espectáculo. Talvez como aqueles que fazem do sacramento do matrimónio uma caricatura, transformando-o numa feira de vaidades. O Papa relançou assim o compromisso de uma vida de fé perseverante, no dia-a-dia, deixando campo livre ao Espírito Santo no silêncio, na humildade e na adoração. E fê-lo propondo as verdadeiras características do reino de Deus, na missa celebrada na manhã de 13 de Novembro na capela de Santa Marta.

Quando Jesus falava do reino de Deus despertava a «curiosidade» dos fariseus. Assim – lê-se no Evangelho de Lucas (17, 20-25) proposto pela liturgia – chegam a perguntar-lhe: «Quando há-de vir o reino de Deus?», como se dissessem: «Tu falas, falas, mas…». E «Jesus responde imediata e claramente: o reino de Deus não vem de modo a chamar a atenção; e ninguém dirá: ei-lo aqui, ei-lo ali! O reino de Deus já está no meio de vós».

Com efeito, «quando Jesus explicava com parábolas como é o reino de Deus, usava sempre palavras tranquilas», recordando que «o reino de Deus está escondido». Jesus comparava o reino com um «mercador que se põe em busca de pérolas» ou «com quem procura um tesouro escondido na terra». Ou dizia que ele é «como uma rede que apanha todos, ou como um pequenino grão de mostarda, que depois se torna uma árvore frondosa», como «uma semente que lançamos mas não sabemos como cresce» porque «é Deus que a faz crescer».

Portanto, «era isto que Jesus explicava» sobre o reino de Deus: «sempre em silêncio, mas também em luta», levando a entendê-lo ainda melhor: «O reino de Deus cresce como a árvore do grão, não circundado por coisas bonitas, mas no meio do joio. O reino não chama a atenção, é silencioso».

Em síntese, «o reino de Deus não é um espectáculo», que «muitas vezes é uma sua caricatura». Nunca podemos «esquecer que esta foi uma das três tentações»: no deserto dizem a Jesus: «Lança-te do pináculo do templo e todos acreditarão, faz um espectáculo». Mas «o reino de Deus é silencioso, cresce dentro; é o Espírito que o faz crescer com a nossa disponibilidade, na nossa terra, que devemos preparar». Mas «cresce lenta e silenciosamente».

Neste trecho evangélico Jesus pergunta: «Desejais ver o reino de Deus?». E explica: «Dir-vos-ão: ei-lo aqui. Não os sigais, pois o Reino chegará como um relâmpago!», «manifestando-se num instante». Mas «penso em quantos cristãos preferem o espectáculo ao silêncio do Reino».

O Papa sugeriu um breve exame de consciência, para não cairmos em tentação: «És cristão? Sim! Crês em Jesus Cristo? Sim! Crês nos sacramentos? Sim! Crês que Jesus está aqui? Sim!». Então, «por que não o adoras, por que não vais à missa, por que não recebes a Comunhão, por que não te aproximas do Senhor», para que o seu Reino «cresça» em ti? De resto, «o Senhor nunca diz que o Reino é um espectáculo», mas «uma festa grandiosa», embora «a nossa debilidade humana prefira o espectáculo».

É o que às vezes acontece «nas celebrações de alguns sacramentos»: «As pessoas vêm receber um Sacramento, ou dar o espectáculo da moda, da vaidade?». Assim, a nossa «é uma tentação contínua: não aceitamos que o Reino é silencioso. Contudo, «será como um relâmpago que reluz nas extremidades do céu: assim será o Filho do homem no seu dia!».

No oposto do espectáculo encontra-se «a perseverança de tantos cristãos que sustentam a própria família: homens e mulheres que cuidam dos filhos, dos avós, e chegam ao fim do mês com apenas meio euro no bolso, mas rezam». E o Reino de Deus «está ali, escondido na santidade da vida diária», «não está longe de nós, está próximo».

A «proximidade é uma das suas características». Proximidade significa também «todos os dias». Por isso, «Jesus afasta da mente dos discípulos uma imagem espectacular do Reino». E «quando quer falar do último dia, diz: será como um relâmpago, mas antes o Filho do homem deverá sofrer muito e será rejeitado por esta geração».

Portanto, do reino de Deus «fazem parte também o sofrimento, a cruz diária da vida, do trabalho, da família», a «rejeição». Assim «o reino de Deus é humilde como o grão, mas cresce com a força do Espírito». Quanto a nós «devemos deixá-lo crescer, sem nos vangloriarmos, permitindo que o Espírito venha, mude a nossa alma e nos faça progredir no silêncio, na paz, na mansidão, na proximidade de Deus e do próximo, na adoração de Deus, sem espectáculo».

Francisco concluiu, convidando a pedir ao «Senhor a graça de cuidar do reino de Deus dentro de nós e nas nossas comunidades: com a oração, a adoração e o serviço da caridade, silenciosamente».

L’Osservatore Romano

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