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O espírito de sabedoria vence a curiosidade mundana

Contra o espírito de «curiosidade mundana» e a ansiedade de conhecer o futuro, procurando apropriar-se também dos projectos de Deus,  advertiu Papa Francisco  na missa celebrada na manhã de quinta-feira, 14 de Novembro, na capela da Casa Santa Marta.

A meditação do Pontífice inspirou-se na primeira leitura da liturgia, tirada do Livro da sabedoria (7, 22-8, 1). O trecho bíblico, explicou, «dá-nos uma descrição do estado da alma do homem e da mulher espirituais», quase um bilhete de identidade espiritual do verdadeiro cristão que vive «na sabedoria do Espírito Santo». Uma sabedoria fundada num «espírito inteligente, santo, único, múltiplo, subtil». A atitude correta é «ir em frente, dizem os santos, com bom espírito». Portanto, o cristão é chamado a «caminhar na vida com este espírito: o espírito de Deus que nos ajuda a julgar, a tomar decisões segundo o coração de Deus. E este espírito dá-nos paz, sempre. É o espírito de paz, o espírito de amor, o espírito de fraternidade».

«A santidade – frisou o Papa – é isto mesmo». É o que «Deus pede a Abraão: caminha  na minha presença e sê irrepreensível. Esta é a paz». Portanto, trata-se de «continuar sob a moção do espírito de Deus e desta sabedoria. E aquele homem ou  mulher que caminham assim, pode-se dizer que são um homem e uma mulher sábios. Um homem sábio e uma mulher sábia, porque se movem sob a moção da paciência de Deus».

Mas no trecho evangélico de Lucas (17, 20-25), prosseguiu o Pontífice, «encontramo-nos diante de outro espírito, contrário a este da sabedoria de Deus: o espírito de curiosidade. É quando nos queremos apropriar dos projectos de Deus, do futuro, das coisas, conhecer tudo, dominar tudo». No trecho de Lucas lê-se que os fariseus perguntaram a Jesus: «Quando virá o reino de Deus?». E o Papa comentou: «Curiosos! Queriam saber  o dia    e a hora…».

Precisamente este «espírito de curiosidade – explicou – afasta-nos do espírito da sabedoria», porque nos impele a ver  só «os detalhes, as notícias, as pequenas notícias de todo dia: como se fará isto? É o como, o espírito do como». Segundo o Papa «o espírito de curiosidade não é um bom espírito: é o espírito de dispersão, de afastamento de Deus, o espírito de falar demais».

A este propósito Jesus diz-nos «algo interessante: este espírito de curiosidade, que é mundano, leva-nos à confusão». O Santo Padre explicou-o recordando as palavras de Jesus referidas pelo trecho evangélico: «Virão dias em que desejareis ver também um só dos dias do Filho do homem, mas não o vereis. Dir-vos-ão: “Ei-lo ali”, ou então:  “ei-lo aqui”». Nestes casos – frisou – é a «curiosidade» que nos impele a «sentir estas coisas. Dizem-nos: O Senhor está aqui, ali, lá! Mas conheço um  vidente, uma vidente que recebe cartas de Nossa Senhora, mensagens de Nossa Senhora». E o Pontífice comentou: «Mas, olha, Nossa Senhora é Mãe! E ama todos nós. Mas não é um chefe dos correios, para enviar mensagens todos os dias». Na realidade, «estas novidades afastam do Evangelho, do Espírito Santo, da paz e da sabedoria, da glória de Deus, da beleza de Deus».

Depois, o Papa Francisco reafirmou o ensinamento de Jesus: o reino de Deus «não vem de um modo que chama a atenção» mas vem na sabedoria; «o Reino de Deus está no meio de vós». «O Reino de Deus é este trabalho, esta acção do Espírito Santo que nos dá a sabedoria e a paz. O Reino de Deus não vem na confusão. Como Deus não falou ao profeta Elias no vento, na tormenta, no furacão. Falou na brisa suave, na brisa que era sabedoria».

Em seguida, o Pontífice recordou um pensamento de Teresa do Menino Jesus, a ele particularmente querida: «Santa Teresinha dizia que ela se continha sempre diante do espírito de curiosidade. Quando falava com outra religiosa e esta religiosa narrava uma história, algo da família, das pessoas, e algumas vezes passava para outro assunto, ela tinha vontade de saber o fim daquela história, mas sentia  que aquele não era o espírito de Deus, porque é um espírito de dispersão, de curiosidade».

«O Reino de Deus está no meio de nós» concluiu o Papa Francisco repetindo as palavras do Evangelho. E exortou a «não procurar coisas estranhas, novidades com esta curiosidade mundana. Deixemos que o espírito nos faça ir em frente com aquela sabedoria que é uma brisa suave. Este é o espírito do reino de Deus sobre o qual fala Jesus».

 

L’Osservatore Romano
14011-2013

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