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Missa do Pontífice diante do túmulo de João Paulo II na basílica de São Pedro – Dois ícone

Dois ícones e uma pergunta. O Papa Francisco propô-los na manhã de 31 de Outubro, na missa celebrada diante do túmulo de João Paulo II, na capela de São Sebastião na basílica de São Pedro. Com o Santo Padre concelebraram mais de cento e vinte sacerdotes, sobretudo polacos, entre os quais o esmoler pontifício, D. Konrad Krajewski. Comentando as leituras do dia (Rm 8, 31-39) e do Evangelho (Lc 13, 31-35), o Papa pronunciou esta homilia.

 

Nestas leituras surpreendem duas coisas. Primeiro, a segurança de Paulo: «Ninguém pode afastar-me de Cristo». Mas ele amava de tal modo o Senhor – depois de o ter visto e encontrado, Ele mudou a sua vida – que chegava a dizer que nada o podia afastar d’Ele.

 

Precisamente este amor do Senhor estava no centro da vida de Paulo, nas perseguições, doenças e traições, mas nada daquilo que ele vivera, do que lhe tinha acontecido, podia afastá-lo do amor de Cristo. E sem o amor de Cristo, sem viver deste amor, sem o reconhecer, sem se alimentar deste amor não se pode ser cristão: o cristão, quem se sente observado pelo Senhor com aquele olhar tão bondoso, amado pelo Senhor, e até ao fim, sente… O cristão sente que a sua vida foi salva pelo sangue de Cristo. É isto que faz o amor: eis no que consiste a relação do amor. Esta é a primeira coisa que me surpreende muito. A segunda é a tristeza de Jesus, ao contemplar Jerusalém: «Mas tu, Jerusalém, não entendeste o amor!».

 

A cidade não entendeu a ternura de Deus, com aquela imagem tão bonita que Jesus lhe mostrou. Não compreendeu o amor de Deus, ao contrário de Paulo. Sim! Deus ama-me, ama-nos, mas é algo abstracto, algo que não toca o meu coração, e assim eu levo a vida como posso. Nisto não há fidelidade. E o pranto do Coração de Jesus, ao ver Jerusalém, é o este. «Jerusalém, tu não não és fiel, não te deixaste amar, confiaste-te a muitos ídolos que tudo te permitiam, que te diziam que te deves entregar-te totalmente, e depois abandonaram-te!». O Coração de Jesus, o sofrimento do amor de Jesus é um amor não aceite, não recebido.

 

Eis os dois ícones de hoje: o de Paulo, que permanece fiel até ao fim ao amor de Jesus, e nisto encontra a força para ir em frente, para suportar tudo. Ele sente-se frágil, pecador, mas recebe a força daquele amor de Deus, naquele encontro que teve com Jesus Cristo. Por outro lado, há a cidade, o povo infiel que não aceita o amor de Jesus, ou pior ainda, que vive este amor parcialmente: um pouco sim, um pouco não, segundo as suas conveniências. Vejamos Paulo, com a sua coragem que vem deste amor, vejamos Jesus que chora sobre aquela cidade infiel. Consideremos a fidelidade de Paulo e a infidelidade de Jerusalém e, no centro, Jesus, o seu Coração que nos ama em grande medida! O que podemos fazer? Uma pergunta: pareço-me mais com Paulo, ou com Jerusalém? O meu amor a Deus é tão forte como o de Paulo, ou o meu coração é tíbio como o de Jerusalém? Por intercessão do Beato João Paulo II, que o Senhor nos ajude a responder a esta pergunta. Assim seja!

 L’Osservatore Romano
2013-11-01

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