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O cristão está chamado a reconhecer o Senhor nos marginalizados – e há muitos deles também ao redor do Vaticano – sem ter o ar de quem se sente «privilegiado» porque inserido num «pequeno grupo de eleitos» e naquele «microclima eclesiástico» que na realidade afasta da Igreja o povo de Deus e as várias periferias. Foi quanto disse o Papa na missa celebrada na manhã de segunda-feira 17 de Novembro, na Capela da Casa de Santa Marta.

«Este trecho do Evangelho – observou Francisco referindo-se à leitura de Lucas (18, 35-43) proposta pela liturgia – começa com um não ver, um cego, e acaba com um ver: “Presenciando isto, todo o povo deu glória a Deus”». Existem, explicou, «três classes de pessoas neste trecho: o cego; os que estavam com Jesus; e o povo».

O cego, por causa da «doença que o tinha privado da vista, não via, mendigava» especificou o Pontífice. E «talvez, com muita frequência se sentiu amargurado» e perguntava-se: «Porque aconteceu comigo?». Em síntese, era um homem que «não encontrava um solução, um marginalizado». O «cego sentado na berma da estrada» portanto é «como muitos marginalizados aqui na praça Pio XII, em “via Ottaviano”, na praça»; e hoje há «muitos sentados à beira da estrada» recordou o Papa.

Aquele homem não via mas «não era tolo: sabia tudo o que acontecia na cidade». No final de contas, observou Francisco, era «um homem que encontrava nesta estrada um modo de viver: um mendigo, um marginalizado, um cego». Contudo, «quando ouviu que precisamente Jesus vinha ali, gritou» E «quando queriam que se calasse, gritava ainda mais forte». Qual é a razão da sua atitude? O Papa explicou da seguinte forma: «Este homem desejava a salvação, queria ser curado». A ponto que, lê-se no Evangelho, «Jesus diz que ele tinha fé». Com efeito, o cego «apostou e venceu – explicou Francisco – mesmo se «é difícil apostar quando uma pessoa está tão «em baixo», tão marginalizada». Contudo, ele «apostou» e bateu «à porta do coração de Jesus».

A «segunda classe de pessoas» que encontramos no trecho evangélico de Lucas é composta por «aqueles que caminhavam com o Senhor». São «os discípulos, também os apóstolos, que seguiam o Senhor». Eram também «os convertidos, os que aceitavam o reino de Deus» e «estavam contentes com esta salvação».

Porém, precisamente eles «repreendiam o cego para que ficasse calado» e deste modo «afastavam o Senhor de uma periferia». Com efeito, afirmou Francisco, «esta periferia não podia chegar ao Senhor, porque este círculo – com muita boa vontade – fechava a porta».

Infelizmente, reconheceu o Pontífice, «isto acontece com muita frequência entre nós crentes: quando encontráramos o Senhor, sem nos darmos conta, cria-se este microclima eclesiástico». E é uma atitude que têm não só «os sacerdotes, os bispos» mas também «os fiéis». Uma forma de se comportar que leva a dizer: «Mas nós somos aqueles que estão com o Senhor». E «de tanto olhar para o Senhor» acabamos por «não considerar as necessidades do Senhor; não olhamos para o Senhor que tem fome, sede, que está na prisão, no hospital». Praticamente, não olhamos para o «Senhor marginalizado» e isto «é um clima que faz muito mal».

O problema, explicou o Papa, é que «estas pessoas que estavam com Jesus tinham esquecido os momentos maus da própria marginalização; tinham esquecido o momento em que Jesus os tinha chamado, e de onde». Assim agora diziam: «Agora somos eleitos, estamos com o Senhor». E com este «pequeno mundo eram felizes» mas «não deixavam que as pessoas perturbassem o Senhor». A ponto que «não deixavam nem sequer que as crianças se aproximassem». Eram pessoas que, frisou Francisco, «tinham esquecido o caminho que o Senhor fizera com eles, o caminho de conversão, de chamada, de cura».

Trata-se de uma realidade que – recordou o Pontífice referindo-se ao trecho do Apocalipse (1, 1-5; 2, 1-5) – «o apóstolo João diz com uma frase muito bonita que ouvimos na primeira leitura: tinham esquecido; tinham abandonado o seu primeiro amor». E este «é um sinal: quando na Igreja os fiéis, os ministros, se tornam um grupo deste tipo, não eclesial mas eclesiástico, de privilégio de proximidade ao Senhor, têm a tentação de esquecer o seu primeiro amor»: precisamente «aquele amor tão bonito que todos nós tivemos quando o Senhor nos chamou, nos salvou, dizendo-nos: amo-te muito». Trata-se de «uma tentação dos discípulos: esquecer o primeiro amor, ou seja, esquecer também as periferias, onde eu estava antes, mesmo se disso me envergonho». É uma atitude que pode ser sintetizada na expressão: «Senhor este cheira mal, não o deixes vir ter contigo». Mas a resposta do Senhor é clara: « Porventura tu também não cheiravas mal quando te beijei?».

Diante «desta tentação dos pequenos grupos de eleitos», que se verifica em todas as épocas, a atitude de «Jesus, na Igreja, na história da Igreja», é a que Lucas descreve: «parou». É «uma graça quando Jesus pára e diz: olhem lá, tragam-no a mim», assim fez com o cego de Jericó. Deste modo, é como se o Senhor dissesse aos discípulos: «Não olhem só para mim. Olhem também para os outros, os necessitados».

Com efeito «quando Deus pára, fá-lo sempre com misericórdia e justiça, mas também, por vezes, fá-lo com ira» especificou Francisco referindo-se a quando o Senhor «se deteve com aquela classe dirigente», definindo-a «geração perversa e adultera». E voltando ao episódio do cego de Jericó, o Pontífice sublinhou que Jesus o fez aproximar e o curou, reconhecendo que tinha fé: «A tua fé te salvou».

O «terceiro grupo» que Lucas apresenta é «o povo simples que necessita destes sinais de salvação». «Quantas vezes encontramos pessoas simples, velhotas que caminham e com tanto sacrifício vão rezar num santuário, pedindo só a graça». São «o povo fiel que sabe seguir o Senhor sem pedir privilégio algum» – disse o Papa.

Eis então, resumindo, as três classes de pessoa que nos interpelam directamente: «O marginalizado; os privilegiados, os que foram eleitos e que neste momento estavam na tentação; e o povo fiel que segue o Senhor para o louvar porque é bom e também para lhe pedir saúde e muita graça».

Esta reflexão, sugeriu o Papa, deve-nos levar a pensar «na Igreja, na nossa Igreja, que está sentada à beira da estrada de Jericó». Porque «na Bíblia, Jericó, segundo os padres, é símbolo de pecado». Portanto, exortou, «pensemos na Igreja que vê passar Jesus, nesta Igreja marginalizada», «nestes crentes, que pecaram tanto e não desejam levantar-se, porque não têm a força para recomeçar». E também, acrescentou o Pontífice, na «Igreja das crianças, dos doentes, dos encarcerados, na Igreja das pessoas simples», pedindo «ao Senhor para que todos nós, que temos a graça de ser chamados, nunca, nunca nos afastemos desta Igreja. Nunca entremos neste microclima dos discípulos eclesiásticos privilegiados que se afastam da Igreja de Deus que sofre, que pede a salvação, a fé, a palavra de Deus». Enfim, concluiu o Papa, «peçamos a graça de ser povo fiel de Deus, sem pedir ao Senhor privilégio algum que nos afaste do povo de Deus».

 L’Osservatore Romano

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