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Deus vai sempre até ao limite

Não pode haver cristãos, e muito menos pastores, tristemente parados «a meio caminho», com medo de «sujar as mãos», de ser criticados ou de comprometer a carreira eclesiástica. É Deus quem mostra a cada um de nós e à Igreja o estilo de comportamento, entrando pessoalmente «em acção», indo «sempre em frente, até ao fundo, em saída» com uma só meta: «não perder ninguém!», sobretudo os distantes. Foi esta indicação concreta que o Papa sugeriu na missa celebrada na manhã de 6 de Novembro na capela de Santa Marta.

Francisco voltou a propor o trecho do Evangelho de Lucas (15, 1-10): «Aproximavam-se de Jesus os publicanos e os pecadores para o ouvir; os fariseus e os escribas murmuravam: “Este homem recebe e come com pessoas de má fama!”». O gesto de Jesus «era um verdadeiro escândalo naquela época, não era?». E acrescentou: «Imaginemos as consequências se naquele tempo existissem jornais!». Talvez houvesse títulos como: «O profeta almoça com toda essa gente!». Em síntese, um «escândalo»!

E no entanto, «Jesus veio em busca daqueles que se afastaram do Senhor». E explica-nos, narrando «duas parábolas: a do pastor, para explicar que Ele é o bom Pastor; e da mulher» que tem dez moedas e perde uma. Revendo as parábolas em Lucas, o Papa frisou que as palavras «mais reiteradas neste trecho são “perder”, “procurar”, “encontrar”, “alegria”, “festa”».

Estes termos usados por Jesus «levam-nos a ver como é o Coração de Deus: Ele não se detém, não vai só até um certo ponto». Não, «Deus vai até ao fundo, sempre até ao limite; não pára a meio caminho da salvação, como se dissesse: “fiz tudo, o problema é deles!”». Deus «entra sempre em acção». A tal propósito, Francisco evocou uma frase muito bonita do Êxodo: «Ouvi as lamentações dos israelitas, que os egípcios escravizaram, e vou ao seu encontro». Sim «Deus ouve a lamentação e parte: o Senhor é assim! O seu amor é assim: Ele vai ao limite!».

Na realidade, «Jesus é muito generoso porque quase compara com Deus os fariseus e escribas que murmuravam», a ponto de começar a parábola com estas palavras: «Quem de vós não age assim?». É verdade que todos agimos assim, mas paramos «a meio caminho». Com efeito, «para eles o importante era que o balanço da receita e das despesas fosse mais ou menos favorável», e deste modo «partiam tranquilos». Assim, aqueles publicanos talvez dissessem: «Sim, é verdade, perdi três moedas, dez ovelhas, mas ganhei muito!».

Contudo, trata-se de um raciocínio que «não entra na mente de Deus», dado que «Ele não é um negociante, mas Pai, e salva até ao fim!». Assim – referindo-se ao filho pródigo – «o pobre velho que viu voltar o filho», também «foi até ao limite que podia, à varanda da casa, todos os dias para ver se voltava o seu filho, que ele não sabia onde estava».

Assim age Deus, que «vai sempre ao limite: é Pai, e o amor de Deus é assim». Este estilo de Deus diz-nos, também a «nós pastores, a nós cristãos» como nos devemos comportar. É «triste o pastor» que pára «a meio caminho!». E talvez até faça algo, mas explica que não pode fazer mais. «É triste o pastor que abre a porta da igreja e permanece ali à espera», como «é triste o cristão que não sente no seu coração a necessidade de ir dizer aos outros que o Senhor é bom». Há muita «perversão no coração de quem se julga justo, como os escribas e fariseus». «Eles não querem sujar as mãos com os pecadores», e entre si diziam de Jesus que se fosse um profeta saberia que aquela mulher era pecadora. Eles «usavam as pessoas e depois desprezavam-nas».

Portanto «ser pastor a meio caminho é uma derrota». O pastor «deve ter o Coração de Deus, de Jesus, que recebeu do Pai esta palavra: não podes perder ninguém!». Palavras que Jesus retoma na última Ceia: «Preservai-os, Pai, para que não se percam!». Eis que «o pastor, o cristão autêntico é zeloso!». E «por isso não tem medo, arrisca a vida e a fama. Mas é um bom pastor!».

«É muito fácil condenar o próximo, mas não é um comportamento de filhos de Deus!», pois «o Filho de Deus vai até ao fim, dá a vida pelos outros, como fez Jesus». O Papa acrescentou: «Nunca pastores, cristãos a meio caminho!». É preciso comportar-se «como Jesus». Neste trecho evangélico «recorda-se que as pessoas se aproximavam de Jesus», mas «muitas vezes é Ele quem vai à procura das pessoas», porque «o bom pastor, o bom cristão sai sempre: sai de si mesmo rumo a Deus na oração e na adoração», para «anunciar a mensagem de salvação aos outros».

«O bom pastor, o bom cristão encarna a ternura», enquanto «os escribas e os fariseus não sabiam» o que significa carregar «uma ovelha nos ombros, com ternura», não sabiam o que é a alegria. Assim «o cristão, o pastor a meio caminho «talvez se sinta tranquilo, tenha uma certa paz», mas é diferente da «alegria que há no Paraíso, a alegria que vem de Deus, que deriva do Coração de Pai que sai para salvar». Francisco indicou a beleza de «não termos medo de ser criticados» quando saímos «ao encontro dos irmãos e irmãs distantes do Senhor». E concluiu, pedindo ao Senhor «esta graça para cada um de nós e para a nossa Santa Mãe Igreja».

 

L’Osservatore Romano

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