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Aqueles cristãos insensatos

Ser cristão significa ser «um pouco louco», pelo menos segundo a lógica mundana. Não auto-referencial, porque sozinho nada se consegue fazer e exactamente para que não se assustarem a graça de Deus vem em seu socorro. São as linhas fundamentais da vida cristã, centrada na novidade do Evangelho que inverte os critérios do mundo, que o Papa Francisco repropos durante a missa celebrada na manhã de quinta-feira, 11 de Setembro, na capela da Casa de Santa Marta.

Exortando a ler e reler, até quatro vezes se for necessário, o capítulo 6 do Evangelho de são Lucas – a liturgia hodierna propõe em particular os versículos 27-38 – o Pontífice recordou como Jesus nos deu «a lei do amor: amar a Deus e amar-nos como irmãos». E o Senhor, disse o Papa, não deixou de a explicar «um pouco mais, com as Bem-aventuranças» que resumem «a atitude do cristão».

Contudo, no trecho do Evangelho de hoje, Jesus vai mais além e «explica melhor àqueles que estavam ao seu redor para o ouvir». Antes de tudo, sugeriu o Papa, examinemos os verbos que usa: amai, praticai o bem; abençoai; orai, oferecei, não rejeiteis; oferecei». «Jesus com isto mostra-nos o caminho que devemos seguir, um caminho de generosidade». Antes de tudo, pede-nos para «amar». E perguntamo-nos «mas quem devo amar?». Ele responde-nos «os vossos inimigos». E nós, surpreendidos, pedimos a confirmação: precisamente os nossos inimigos? «Sim» diz-nos o Senhor, exactamente «os inimigos!».

O Senhor pede-nos também que «pratiquemos o bem». E se não lhe perguntamos «a quem?», Ele indica-nos imediamente «aqueles que nos odeiam». E também desta vez queremos a confirmação do Senhor: «Mas devo praticar o bem àquele que me odeia?». E a resposta do Senhor é sempre «sim».

E pede-nos ainda para «abençoar quantos nos maldizem». E «rezar» não só «pela minha mãe, pelo meu pai, os meus irmãos, filhos, família», mas «por quantos me tratam mal». E «não rejeitar quem te pede algo». A «novidade do Evangelho», explicou o Pontífice, consiste em «dar-se a si mesmo, dar o coração, exactamente a quem nos quer mal, que nos faz mal, aos inimigos». Lê-se no trecho de Lucas: «O que quiserdes que os homens vos façam, fazei-lho vós também. Se amais os que vos amam, que agradecimentos merecereis?». Seria uma mera «troca: tu amas-me, eu amo-te». Mas Jesus recorda-nos que «também os pecadores – e quando diz pecadores entende os pagãos – amam aqueles que os amam». Portanto, frisou Francisco, «não é um mérito!».

É evidente, continuou, que «o Evangelho é uma novidade difícil de levar em frente». Significa «seguir Jesus». Imitá-lo.

O caminho cristão não é fácil, reconheceu o Papa, mas «é este». Assim, a quantos dizem «não consigo fazer isto!», a resposta é «se não consegues, é um problema teu, mas o caminho cristão é este. Este é o caminho que Jesus nos ensina». Por isso o Pontífice sugeriu «caminhar na via de Jesus, que é a misericórdia: sede misericordiosos como o vosso Pai é misericordioso». «A vida cristã não é auto-referencial» mas «sai de si mesma para se dar aos outros: é um dom, é amor e o amor não é egoísta: dá-se!».

O trecho de são Lucas é uma exortação a não julgar e a sermos misericordiosos. Contudo, disse o Pontífice, «muitas vezes parece que nos nomearam juízes dos outros: mexericamos, falamos mal, julgamos todos». Mas Jesus diz-nos: «Não julgueis e não sereis julgados. Não condeneis e não sereis condenados. Perdoai e sereis perdoados».

«Ser cristão é tornar-se insensato, num certo sentido». «Renunciar àquela esperteza do mundo para fazer tudo o que Jesus nos diz».

Certamente, reconheceu o Papa, «ser cristão não é fácil» e só com as nossas forças não nos podemos «tornar cristãos»: é-nos necessária «a graça de Deus». Então devemos rezar diariamente: «Senhor, dai-me a graça de me tornar um bom cristão, uma boa cristã, porque sozinho não consigo».

Francisco concluiu a meditação reconhecendo que «uma primeira leitura» do capítulo seis do Evangelho de Lucas «assusta».

 

L’Osservatore Romano

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