Viver toda a vida dentro da Igreja, como pecadores mas não como traidores corruptos, com uma atitude de esperança que nos leva a deixar uma herança feita não de riqueza material mas de testemunho de santidade. São as «grandes graças» que o Papa Francisco indicou durante a missa celebrada quinta-feira 6 de Fevereiro na capela da Casa de Santa Marta.

O bispo de Roma centrou a sua reflexão no mistério da morte, a partir da primeira leitura – tirada do primeiro livro dos Reis (2, 1-4.10-12) — na qual, disse, «ouvimos a narração da morte de David». E «recordamos o início da sua vida, quando foi escolhido pelo Senhor, ungido pelo Senhor». Era «um menino»; em seguida, «depois de alguns anos começou a reinar», mas era sempre um jovem, tinha vinte e dois ou vinte e três anos».

Por conseguinte, toda a vida de David é «um percurso, um caminho ao serviço do seu povo». E «assim como começou, assim acaba». O mesmo, observou o Papa, acontece também na nossa vida que «começa, caminha, vai em frente e termina». O Papa convidou «a pedir a graça de morrer em casa: morrer em casa, na Igreja». E acrescentou que «esta é uma graça» e «não se compra». Porque «é uma dádiva de Deus». Nós «devemos pedi-lo: Senhor concede-me a graça de morrer em casa, na Igreja». Mesmo que fôssemos «todos pecadores», não devemos ser nem «traidores» nem «corruptos».

Depois propôs outra reflexão sobre a morte de David. «Nesta narração – observou – vê-se que David está tranquilo, em paz, sereno». A ponto que «chama o seu filho e lhe diz: eu vou pelo caminho de cada homem na terra». Por outras palavras David reconhece: «Agora é a minha vez!». E depois, lê-se na Escritura, «David adormeceu com os seus pais». Eis, explicou o Papa, o rei que «aceita a sua morte com esperança, em paz». E «esta é outra graça: a graça de morrer com esperança, ciente de que este é um passo» e que «do outro lado esperam por nós». Com efeito, também depois da morte «a casa continua, a família continua: não estarei sozinho!». Trata-se de uma graça que deve ser pedida sobretudo «nos últimos momentos da vida: nós sabemos que a vida é uma luta e que o espírito do mal quer saquear».

Outro pensamento sugerido pelo Papa é «o problema da herança». A propósito «a Bíblia – esclareceu – não nos diz que quando David morreu vieram todos os netos, ou bisnetos, pedir a herança!». Há muitas vezes «tantos escândalos sobre a herança que dividem as famílias». Mas não é a riqueza a herança que David deixa. De facto, lê-se na Escritura: «E o seu reino consolidou-se muito». David, ao contrário, «deixa a herança de quarenta anos de governo ao seu povo e o povo consolidado, forte».

A este propósito o Pontífice recordou «um dito popular» segundo o qual «cada homem deve deixar na vida um filho, deve plantar uma árvore e deve escrever um livro: esta é a melhor herança». O Papa convidou cada um a perguntar-se. «Que herança deixo eu aos que vêm após mim? Uma herança de vida? Pratiquei tanto o bem que o povo me quer como pai ou como mãe?». Talvez não «tenha plantado uma árvore» ou «escrito um livro», mas dei vida, sabedoria?». A verdadeira «herança é a que David» revela ao dirigir-se no momento da morte ao seu filho Salomão com estas palavras: «Sê forte e mostra-te homem. Observa a lei do Senhor, teu Deus, procedendo pelos seus caminhos e praticando as suas leis». Assim as palavras de David ajudam a compreender que a verdadeira «herança é o nosso testemunho de cristãos deixado ao próximo».


L’Osservatore Romano
 

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