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Dom Walmor Oliveira de Azevedo

A Arquidiocese de Belo Horizonte assume, na sua tarefa missionária, e de modo prioritário, a reflexão e a exigência de comprometimentos efetivos com a realidade das vilas e favelas na região metropolitana. Realizou, a propósito, no último 29 de maio, na PUCMinas Coração Eucarístico, um Simpósio: “Urbanização, Moradia e Evangelização nas Vilas e Favelas”. O Documento de Aparecida tem referências que tratam sobre esse empenho missionário com repercussões sociais e políticas: “nossa fidelidade ao Evangelho exige que proclamemos a verdade sobre o ser humano e a dignidade de toda pessoa humana, em todos os espaços públicos e privados do mundo de hoje e a partir de todas as instâncias da vida e da missão da Igreja”. E acrescenta, recordando uma palavra profética do Venerável Papa João Paulo II: “converter-se ao Evangelho, para o povo cristão que vive na América, significa revisar todos os ambientes e dimensões de sua vida, especialmente tudo o que pertence à ordem social e à obtenção do bem comum” (DAp 390.391).

Também significativa é a indicação do Santo Padre Bento XVI , no seu discurso inaugural da 5ª Conferência do Episcopado Latino-americano e Caribenho, Aparecida, 2007, quando convocou a Igreja a ser “advogada da justiça e defensora dos pobres”, como voz profética que reaviva no coração dos cristãos a necessidade permanente de potencializar e ratificar a opção preferencial pelos pobres. E os bispos assumiram o compromisso de trabalhar para que a Igreja Católica “continue sendo, com maior afinco, companheira de caminho de nossos irmãos mais pobres, inclusive até o martírio” (DAp 396). Esse horizonte profético foi o centro das abordagens e reflexões do Simpósio, iniciativa para se compreender melhor a construção do espaço metropolitano e a questão das vilas e favelas, na luta permanente por políticas de habitação coerentes e respeitadoras da dignidade da pessoa humana, no desafio enorme que é a superação da exclusão social.

A complexidade social, histórica, e da infraestrutura das vilas e favelas exigem, a abertura, a lucidez e paciência de Jó para estabelecer, sem esgotar jamais, diálogos a respeito da questão. Envolve o governo e seus diversos setores, as organizações não-governamentais (ONGs), Igrejas e outros segmentos que definem o tecido social e político da sociedade. Qualquer polarização ou fechamento das interfaces que os diálogos podem proporcionar é um risco grande, afetando os mais pobres, com prejuízos até sem retornos. Esses comprometimentos têm que ser evitados com diálogos permanentes e incansáveis. Não é fácil ter a clarividência indispensável para dar os passos, enquanto contracenam a necessidade do desenvolvimento e os avanços na estruturação urbana com o direito de viver dignamente de todo cidadão.

As responsabilidades governamentais, em todos os níveis, são muito grandes. Não podem, obviamente, balizar-se apenas pelos fatores técnicos e pelo afã do desenvolvimento – que deve ser entendido e praticado no seu sentido integral: o de situar bem e dignamente cada pessoa humana, especialmente, os mais pobres. Essa perspectiva corrige as Igrejas, as Prefeituras, outros órgãos governamentais e segmentos variados da sociedade a evitar o risco de fazer algo para os pobres, mas continuar vivendo longe deles. É fácil fazer um discurso a favor dos pobres, à moda da burguesia, como a manutenção de serviços sociais e de infraestrutura. Isso alivia consciências e mantém os donos desses discursos na tranquilidade de seus ritimos próprios de vida, sem passar pelo caminho dos pobres. Não tem outro caminho, sinalizou também o Simpósio, senão o trabalho de tecer compreensões adequadas por meio de diálogos permanentes e consequentes.

É lamentável qualquer rigidez de órgãos, grupos ou pessoas, com fechamento ao diálogo. É indispensável ouvir técnicos e teóricos sobre a questão. E, permanentemente indispensável, ouvir os pobres, aqueles que vivem a aflição doída de despejos, de mudanças e de condições inadequadas para seu domicílio digno. A Igreja Católica assume este desafio. E assume até com um mea culpa, a exigência de ser, cada vez mais, presença capilar, com sua rede de comunidades e serviços de promoção humana. E, por meio da sua ação evangelizadora anunciando Jesus Cristo, o Salvador, ser mais presença na vida e no dia a dia dos pobres. Os diálogos nascem e se fecundam por essa presença corajosa, não apenas burocrática e de serviços prestados com pressa.

Os servidores são chamados a permanecer mais tempo, de forma afetuosa, nessa realidade onde o sofrimento é maior, as aflições sufocam e as urgências se multiplicam. Governos, Igrejas, todos nós devemos dialogar mais com os pobres de modo que os recursos, inteligências e estratégias, construam as cidades de todos e para todos.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte