Artigo de dom walmor

     A sociedade, os órgãos governamentais e todas as instituições estão desafiados a incomodar-se mais com os números preocupantes que compõem as estatísticas sobre as vítimas da violência. As regiões metropolitanas, particularmente, precisam urgentemente de ações mais decisivas e políticas mais audaciosas de combate à criminalidade. Ainda falta um projeto abrangente, com um tratamento mais sistêmico e eficaz, no âmbito de suas causas. O desafio é enorme porque as causas da violência, com o cruel número de vítimas, é uma rede complexa de questões com desdobramentos variados. Por isso mesmo, não se pode aquietar o coração cidadão e institucional com a estatística apaziguadora que compara o ano atual com o anterior – quando há registro de queda na violência com vítimas.

     Na verdade, os números revelam a calamidade de um tempo de guerra, em que o tratamento das questões se caracteriza por urgências próprias. É lamentável constatar que as juventudes representam mais de 60 % das vítimas fatais no cenário da violência. O que será da sociedade brasileira se esta dizimação da juventude continuar sem estancar-se? O futuro precisa ser preparado agora. As urgências próprias no tratamento desta questão ainda não são pauta permanente das discussões e deliberações nas instâncias de maior responsabilidade social e política. O combate à violência, com especial consideração à situação da juventude, precisa ser tratada por todas as instituições – privadas, religiosas ou governamentais. Aliás, gasta-se tempo demais na correção de outros focos de violência na sociedade, como é o caso dos assaltos ao erário público e o desrespeito ao bem comum. A raiz da realidade da violência que vai dizimando a população e desfigurando o rosto da sociedade está na propalada crise de sociedade.

     Não se pode tratar a contemporaneidade apenas enquanto se consideram os princípios estratégicos de gestão e de sustentabilidade – que não pode ser pensada restritivamente, isto é, apenas no âmbito da lógica perversa que o mercado impõe enquadrando tudo e todos. É a lógica da compra e venda. A superação da violência, que está acabando com os jovens, descartando vidas, e alimentando o inferno nas pessoas e no coração de instituições, mesmo religiosas, não pode deixar de considerar que a sustentabilidade almejada não pode ser definida, simplesmente, nos parâmetros do sistema produtivista do mercado. O paradigma da compra e venda, herança secular da sociedade atual, balizando as relações humanas, é também o nascedouro nefasto das violências de todo tipo.

     Ora, o desejo de ganhar e o sentido de viver para ganhar explicam raízes profundas do que gera violência de todo tipo. Não há, pois, na simetria da lógica do mercado lugar para o andamento assimétrico da solidariedade e da fraternidade. Enquanto o mercado continuar a ser instância de solução de todos os problemas, carente de moral e de princípios, crescerá a violência, levando governantes e dirigentes, líderes e construtores da sociedade a se contentarem apenas com uma parca diminuição sazonal nas estatísticas estarrecedoras da violência.

     É preciso emergir uma nova consciência. A cegueira do mercado não tem, por si, competência para fecundar a emergência desta nova consciência planetária em curso, uma exigência para a sobrevivência da humanidade. É lamentável a inconsciência, em âmbitos maiores e menores, de cidadãos alimentando, até por orgulhoso diletantismo ou perversa ingenuidade, o fluxo já insuportável da violência. Da fofoca e da maledicência, passando pelas manipulações desonestas no uso do poder e do dinheiro, até o tráfico de droga e de pessoas. Estas razões todas são, embora com gravidades diferenciadas, como diz o ditado popular, farinha do mesmo saco. Estão destruindo a humanidade, a sua própria e a dos outros. Está instalada uma crise horrenda que vai levando o indivíduo a se pensar como centro único, sem medir consequências de suas falas e escolhas, construindo seu próprio mundo de referências. O tesouro maior agora é o diálogo, a aceitação da diferença, a prática permanente da cooperação. A independência, na qual o sujeito se ancora, mostra no seu reverso a fragilidade que o incapacita na condução de si mesmo e em relação a uma convivência sustentável. É gravíssima, pois, a crise de fundamentação ética e do sentido. A razão não está conseguindo dar novas respostas – que podem ser configuradas a partir da rica proposta que a dinâmica da fé cristã oferece. Nesta proposta, a vida não é descartada, mas é plenitude.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte