Artigo de dom walmor

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O mundo sempre foi um areópago. O lugar de produção da vida e do seu sentido, com o desafio permanente de compreender sua origem e seu destino. De onde? Para onde? Por quê? Para quê? E a história da humanidade se escreve enquanto gravita entre estas perguntas. A inteligência das respostas define horizontes, produz conquistas, origina tradições ou explicam fracassos e atentados contra a vida. O mundo contemporâneo, particularmente nas últimas décadas, é um grande areópago de muitos areópagos. Linguagens, comunicação, autonomias e liberdades, desenvolvimento e participação, confrontos políticos e prioridades econômicas, um turbilhão de coisas, pontos de vista e escolhas determinando a vida.

O mundo, a vida, a sociedade, areópagos, lugares de discussões e embates, com o desafio da polissemia da linguagem, configurações diversificadas nos modos de compreensão com consequências sobre o modo de se viver. Na contramão desta diversificação vem o rolo compressor de uma globalização pretensiosa que tenta igualar tudo – produzindo a morte de culturas, padronizando esquemas, atingindo a cultura da vida e o tesouro da fé.

É conhecido o episódio, narrado por São Lucas nos Atos dos Apóstolos, no capítulo 17. O apóstolo Paulo estava em Atenas e ficou revoltado ao ver aquela cidade entregue à idolatria. Por isso, frequentava a sinagoga discutindo com os de sua estirpe religiosa e com os que adoravam a Deus. Também, discutia em praça pública com os que lá se encontravam. Filósofos epicureus e estóicos vinham conversar com ele. Alguns até diziam: o que está querendo dizer esse tagarela? Outros diziam: parece ser um pregador de divindades estrangeiras. Levado ao areópago, Paulo era interrogado: “Podemos saber qual é a nova doutrina que estás expondo? De fato, as coisas que dizes soam estranhas para nós. Queremos saber o que significam”.

Esse saber é o grande desafio no mundo contemporâneo de cenários marcados pela multiplicidade, rapidez, utilidade. Aí se estabelece um grande confronto entre fé e razão. Este confronto se explicita de muitas maneiras nas diferentes circunstâncias da vida contemporânea. Dos exageros da indiferença e do fanatismo fundamentalista, passando pelas reivindicações do direito de respeito à própria escolha religiosa, até o entendimento de que é preciso exilar a religião, sua confessionalidade, para não ferir a integridade da laicidade do Estado.

A compreensão sobre a laicidade do Estado está atribuindo a este a posse, por si, de uma fonte ética capaz de alimentar e sustentar o seu compromisso primeiro, pela política, o de realizar a justiça. Ora, os ordenamentos públicos, mais do que uma simples técnica na busca do equilíbrio econômico e superação das vergonhosas exclusões sociais, devem ser resultados da razão prática no entendimento da justiça. Pois a compreensão e a garantia da justiça batalham e sofrem injunções vindas, incontestavelmente, da cegueira ética derivada do interesse e do poder. A natureza específica da fé, experiência do encontro com o Deus Vivo, abre horizontes novos e específicos que ultrapassam o âmbito da própria razão e tem força purificadora.

Partir da perspectiva de Deus não é estreitamento, como se pode verificar no entendimento de aspectos da laicidade do Estado. O Papa Bento XVI, na Carta Encíclica Deus é Amor, n. 28, afirma que “a fé consente à razão de realizar melhor a sua missão e ver mais claramente o que lhe é próprio”. Por isso, argumenta a verdade de que o desconhecimento de Deus torna a realidade um enigma indecifrável. Há, pois, o estabelecimento de um clima cultural relativista. As consequências são desastrosas para a vida quando se desclassifica o patrimônio da fé. Ou quando ele é igualado em lei geral de religiões. Ou, ainda, quando se pretende um tipo de nivelamento nos direitos de professar a fé pela proibição, em âmbitos públicos, da singularidade de seus gestos, ritos e símbolos.

Não se pode fazer padronizações superficiais, quando se trata da tradição e das raízes católicas que permanecem na arte, linguagem e estilo de vida, com um lastro histórico de promoção e sustentação da vida. É arriscado, na avalanche das discussões travadas no areópago do mundo deste tempo, prescindir da fé. O risco é o assoreamento das fontes éticas que disponibilizam à racionalidade lucidez e equilíbrio próprios. Será sempre grande o comprometimento da fraternidade universal. A economia, referência em torno da qual o conjunto da vida e a política gravitam, não tem força moral regulatória própria. Tem apenas para os números e para a produtividade. Os sistemas econômicos, sociais e políticos não podem prescindir da fé, sob pena de não conseguirem assegurar a justiça que prometem e têm o dever de realizar na vida dos cidadãos e das sociedades.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte