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Dom Walmor Oliveira de AzevedoAs discussões e as indispensáveis reflexões sobre a sustentabilidade da vida na Terra não podem dispensar a referência à cultura. Ela é, inquestionavelmente, um elemento fundamental de sustentabilidade, projeta o futuro e permite a superação de imediatismos, reducionismos e considerações meramente materialistas da vida. É óbvio que as responsabilidades da comunidade política não podem ser exercidas adequada e frutuosamente sem o substrato da cultura. Na polissemia das culturas que confeccionam o rico mapa da humanidade na sua história, não se podem desconsiderar o patrimônio e a força de referência da Cultura Cristã.

Seu substrato é consistente e tem força de sustentação de projetos e entendimentos necessários para a construção da paz e a conquista da justiça. Essa riqueza, por isso mesmo, não pode ser relativizada ou travestida por práticas religiosas que reduzem a nobreza e largueza do ideal cristão a interesses que, mesquinhamente, estão no âmago do proselitismo, da prosperidade ou da pretensiosa e falsa manipulação miraculosa da ação e da presença de Deus. A cultura cristã tem uma fonte inesgotável na rica dinâmica da fé que o Cristianismo configura. 

É significativa, para dar um exemplo, a ajuda clarividente que o Cristianismo oferece quando se trata da distinção entre religião e política e o princípio da liberdade religiosa. É inquestionável o grande relevo, no plano histórico e cultural, desse entendimento. Outros discernimentos geram e alimentam fundamentalismos e totalitarismos perniciosos para a liberdade humana e a indispensável consideração da autonomia das realidades terrestres. A cultura cristã recebe riquezas fantásticas da dinâmica da fé radicada nos Evangelhos, proporcionando uma visão de equilíbrio indispensável para o presente e futuro da história da humanidade. A fé cristã cultiva e conserva, por sentido de fidelidade, o inestimável patrimônio, em entendimento e prática, da transcendência da pessoa humana.

Em cena está sempre a Igreja Católica como sinal e tutela dessa transcendência. Esta tutela se enraíza na referência à pessoa de Jesus Cristo: “De fato, Deus amou tanto o mundo, que deu o seu Filho único, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna. Pois, Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por ele”, narra o evangelista João 3,1-16-17. Configurando o horizonte da Cultura Cristã, sublinha ainda: “Vede que grande presente de amor o Pai nos deu: sermos chamados filhos de Deus! E nós o somos! Nisto se revela quem é filho de Deus e quem é filho do diabo: todo aquele que não pratica a justiça não é de Deus, como também não é de Deus quem não ama o seu irmão” (3,1.10). 

Delineia-se nesse cenário a riqueza incomparável da fé cristã, indicando uma fonte inesgotável e consistente para a cultura, quando chega ao ápice do seu princípio fundamental, que é o de amar primeiro. Deus nos amou primeiro, com o desdobramento insubstituível do amor ao próximo que se traduz no serviço da caridade cristã. Na simplicidade dessas referências se localizam as raízes revolucionárias da cultura cristã que vem permeando a história da humanidade e comprovando sua importância insubstituível. Esta requer cultivo sério e praticante dos que professam a fé cristã, com empenhos e propósitos de alastrá-la como bem que tem força de permear e fermentar as instâncias, funcionamentos, instituições e o modo de viver vigente na cultura contemporânea. 

A dinâmica da fé cristã, resumida nas lembranças dos princípios fundamentais que o Evangelista João aponta, guarda perenemente uma fonte de sustento que a humanidade precisa para encontrar respostas e saídas para questões cruciais vividas nesse momento. Basta pensar a necessidade de sentido que se percebe na sociedade em que vivemos.

A preocupação justa com os mecanismos de sustentabilidade da vida em nosso planeta guarda a questão candente e instigante sobre o sentido e o fim da aventura humana, incluindo a sua necessidade de paz e de justiça. Quem, além de Deus, pode oferecer uma resposta plenamente adequada às interrogações humanas mais radicais? Esta resposta, que só Deus pode dar, se revela e se dá no seu Filho, Jesus Cristo, feito homem, o Redentor da humanidade, por sua morte e ressurreição vitoriosa. Ele é a fonte inesgotável e referência insubstituível da caridade que pode transformar completamente o homem, fomentando a prática da justiça e fecundando as inadiáveis transformações sociais e políticas. Quem crê em Cristo tem a tarefa de analisar bem o mapa demográfico, a política e as culturas, empenhando-se na promoção da Cultura Cristã. 
 

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte