Artigo de dom walmor

Dom Walmor Oliveira de Azevedo

Quando este brado ecoou nos quatro cantos do mundo, seguido de um grande silêncio, foi passada a página mais importante da história da humanidade. Era uma sexta-feira. Santa porque morria o Senhor da vida. Começou o tempo novo, da aliança nova e eterna. No alto da cruz, banhado de sangue, entregou o seu espírito o filho amado de Deus Pai, em generosa obediência para conquistar, definitivamente, a vida plena para a humanidade, escravizada na dor e no pecado. 

 

Esta morte não é fracasso. É verdade que a morte é o fim absoluto de tudo o que existe de bom e de mau. Dolorosamente, a morte é símbolo do aspecto destrutível da existência. É tão aterrorizante que gera a cultura da indiferença, criando a ilusão insustentável de que a morte chega para os outros, na casa deles. A tensão entre vida e morte, presidindo o cotidiano de cada um, escuta do silêncio desconcertante desta Sexta-feira Santa o anúncio e a garantia da vitória da vida sobre a morte, a derrocada definitiva de todo ódio, dando lugar ao amor. 

 

Aquele que morreu não permanece na morte. É aclamado pelas primeiras comunidades cristãs, num hino que ensina e mostra o horizonte novo. Paulo apóstolo o cita ao escrever a carta aos Filipenses. Ele é aquele que sendo Deus não se apegou à sua condição divina, mas despojou-se, assumindo a forma de escravo, e tornando-se semelhante ao ser humano, e encontrado em aspecto humano, humilhou-se, fazendo-se “obediente até a morte, e morte de cruz” (Fl 2,8).  

 

Tudo está consumado é a palavra final no discurso do Evangelho do Sofrimento. É a dor advinda de uma constatação inevitável: o fim da vida física. O Evangelho do Sofrimento tem Cristo Jesus, morto e ressuscitado, como o sustentáculo que reverte a inexorabilidade da morte num horizonte novo. A consciência da fé explicita e convence de que a morte em Cristo não significa um fim, mas o verdadeiro começo de tudo. 

 

Nesta Sexta-feira Santa, contemplando o Cristo pregado na Cruz, a humanidade é chamada a confrontar tudo o que a ciência e a técnica possibilitam em progresso e desenvolvimento com a consciência indispensável da necessidade de limites. A humanidade precisa deste confronto para libertar-se de angústias terríveis, de problemas graves, desequilíbrios e contradições. A vida não deve limitar-se à condição terrena. Um germe de eternidade está plantado em cada ser humano. Não apenas na lembrança que fica ou na saudade que não passa. Há um sustentáculo novo para a existência humana. 

 

A descoberta e o cultivo desta semente de eternidade não dispensam a leitura e a aprendizagem do Evangelho do Sofrimento. O próprio Jesus assumiu o sofrimento por amor como garantia para que ninguém pereça. A Mãe de Jesus, ao pé da cruz, é exemplar na vivência deste Evangelho do Sofrimento. A provação da dor revela sua fé inabalável e a faz compartilhar com o filho, de maneira única, a sua missão. Este Evangelho é a revelação da força transformadora e salvífica do sofrimento. Cristo não escondia aos seus ouvintes a necessidade da dor, que guarda uma força particular capaz de aproximar interiormente cada pessoa do Filho de Deus. 

 

O sofrimento permite a maturidade interior, matriz singular que modifica mentes e os corações, a inteligência e as razões, para se compreender a sacralidade da vida humana. Uma sacralidade que é esvaziada quando se argumenta absurdamente em prol da legalização do aborto, da desconsideração do anencéfalo como vida humana; das escolhas de experiências que manipulam vidas, ou da desumana exclusão social e política que encarcera tantos na condição de desprezados. 

 

A maturidade advinda do sofrimento, experimentado em comunhão com Cristo, é remédio eficaz contra a corrupção e aqueles que desrespeitam e manipulam regras. O Papa Bento XVI, na sua Carta Encíclica Spe Salvi, sublinha que a morte e ressurreição de Cristo é a grande esperança-certeza de que, não obstante todos os fracassos, nossa vida e a história no seu conjunto estão conservadas no poder indestrutível do amor. A Sexta-feira Santa, no silêncio, é o dia para meditar e compreender que o Deus que padece é Aquele que se compadece de nós, chamados a sofrer com o outro, pelos outros, por amor à verdade e à justiça. Sofrer por causa do amor é tornar-se uma pessoa que a exemplo de Cristo ama verdadeiramente. Este é o caminho para a vida que não passa quando ecoar que tudo está consumado.  

 

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte